Doze longos anos depois de ser lançada (e algumas tentativas falhas de adaptá-la para as telinhas), a HQ Locke & Key, assinada por Joe Hill e Gabriel Rodriguez, finalmente ganhou sinal verde da Netflix e, durante seu período de gestação, tornou-se um dos projetos mais aguardados da plataforma e um de seus mais promissores. Misturando elementos de terror e aventura em uma clássica jornada de ficção fantástica que nos relembra bastante das icônicas histórias de C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, os showrunners desse interessante enredo conseguiram imprimir sua própria perspectiva ao passo que resgatavam a essência dos quadrinhos originais – acrescentando alguns elementos muito bem-vindos, ainda que perdessem um pouco o ritmo dos episódios.

A primeira temporada da série, na verdade, é envolvente por sua familiaridade: a família Locke se muda para uma gigantesca mansão intitulada Keyhouse depois de uma tragédia levar o patriarca da família. Buscando recomeçar uma vida marcada por traumas, Nina (Darby Stanchfield) resolve se mudar com seus filhos para Matheson, Massachusetts, secretamente desejando encontrar alguma pista que revele os motivos do assassinato do marido, Rendell (Bill Heck), ao mesmo tempo arrastando as crianças para um mistério que vai para muito além de uma compreensão lógica e palpável das coisas. É a partir dessa condensada, porém transbordante premissa, que o trio formado por Carlton Cuse, Meredith Averill e Aron Eli Coleite desenvolve um satisfatório pontapé inicial, cultivando o terreno para os próximos anos.

De fato, o episódio piloto nos dá uma sensação levianamente apressada, como se não tivesse tempo o suficiente para construir os múltiplos arcos principais de seus protagonistas. O ato de abertura, na verdade, é sólido o bastante em seus minutos iniciais, apenas para perder-se em um frenesi de acontecimentos que inclui a descoberta de chaves místicas escondidas pela casa; a libertação não intencional de um perigoso demônio de sua prisão eterna (no caso, um profundo poço nos arredores da Keyhouse; e uma luta pela sobrevivência que é ameaçada por forças sobrenaturais e por mentiras enterradas que insistem em vir à tona e prometem destruir laços sólidos de confiança e fraternidade.

No centro desse turbilhão de eventos, temos os três jovens irmãos formados por Bodi (Jackson Robert Scott), Tyler (Connor Jessup) e Kinsey (Emilia Jones). Bodi é o caçula dos Locke e o primeiro a ouvir os tétricos sussurros das pequenas chaves que outrora pertenceram a seu pai e a seus amigos. Ele logo descobre que esses objetos são dotados de poderes incríveis (e um tanto quanto imprudentes) e é atraído pela sedutora voz de Dodge (Laysla De Oliveira), uma criatura que representa uma interpretação modernizada do Succubus e que utiliza todo o seu poder para enganá-lo e fazê-lo entregar a Chave de Qualquer Lugar para escapar de lá; seu objetivo principal ainda fica às escondidas nos capítulos seguintes, mas sabemos que ela quer tomar posse das outras Chaves.

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Basicamente, a história inteira é calcada nesse complexo pano de fundo, que poderia se render aos comodismos de uma narrativa supersaturada, mas transforma-se em uma explicação didática, comovente e que nos mantém envolvidos do começo ao fim, nos fazendo desejar ardentemente pela próxima iteração. Tal empenho nutre-se de quase todos os elementos que são apresentados ao público, incluindo competentes atuações, personagens com arcos críveis e delineados com cautela extrema – e uma estética híbrida de surrealismo e expressionismo que em momento algum rende-se às fórmulas pedantes do gênero que explora.

As características identitárias de Andy e Barbara Muschietti (a dupla por trás do remake de ‘It: A Coisa’), que entram como produtores executivos, servem como inspiração para que os criadores deem vida à adaptação: afinal, temos um monstro que é capaz de mudar de forma e que se vale do medo dos heróis para conseguir o que almeja –culminando em um season finale que, apesar de previsível pela condução em foreshadowing do capítulo, é aprazível e resolutamente caótico, premeditando um “fim do mundo” que deve servir de base para as próximas temporadas.

Mais do que isso, são alguns elementos-chave que nos convidam a mergulhar de cabeça na aventura. Não me refiro apenas ao coeso roteiro, e sim às chocantes performances de certos membros do elenco, como Scott, que dá um salto de amadurecimento desde sua breve aparição em ‘It’, e Oliveira, que é um dos ápices da produção. Saindo de seu recente papel em Campo do Medo, a atriz abandona a concepção de vítima para encarnar Dodge, transformando um arquétipo a princípio maniqueísta em uma impiedosa força cosmológica que atravessa a fenda de nosso mundo para destruir qualquer um que ouse ficar à sua frente. A antagonista praticamente se recusa a sujar suas mãos e tem como alvo mentes mais fracas para que façam o árduo trabalho de destruir a família Locke e seus aliados.

A série por vezes deixa de situar os espectadores em certas reviravoltas, crente de que os quadrinhos darão conta do recado – como é o caso do surgimento espontâneo de Chaves que nem ao menos foram mencionadas por personas coadjuvantes (Sherri Saum como Ellie Whedon é um desses exemplos). Felizmente, a trama principal se isola numa confortável superfície que não faz dessas explicações tão necessárias assim, permitindo que os leigos ao mundo arquitetado por Hill não fiquem perdidos.

Locke & Key é uma adição muito bem-vinda ao crescente catálogo da Netflix e, em poucas semanas, deve conquistar o patamar de uma das produções mais adoradas pelos fãs. É inegável notar os poucos deslizes trazidos pela temporada; mas os pequenos erros conseguem ser ofuscados pelo modo como toda a trajetória é guiada.

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