“A pessoa branca não se vê como pessoa branca. Se vê como pessoa. As pessoas pretas é que são chamadas de pessoas pretas”, disse a filósofa e escritora Djamila Ribeiro. Essa linha de pensamento joga luz sobre a eugenia encontrada em todas as esferas sociais dos países ocidentais. ‘M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida’ é exatamente sobre isso.

Maurício (Juan Paiva) é o primeiro aluno preto de uma faculdade pública de Medicina. Ele tenta se encaixar, mas sente-se um peixe fora d’água. As coisas pioram durante a aula de anatomia, em que os alunos devem testar suas habilidades com corpos não identificados doados à faculdade, e Maurício depara-se com um corpo de um homem preto, identificado apenas como M-8. Nesse conflito, Maurício lida com o racismo estrutural diário na faculdade e nas relações interpessoais, ao mesmo tempo em que se angustia por tentar descobrir a identidade de M-8 (Raphael Logan) e enterrar o corpo, pois o espírito ancestral do homem lhe pede isso quando o jovem vai ao terreiro com a mãe, Cida (Mariana Nunes). E, aparentemente, nenhuma pessoa branca da faculdade consegue entender a urgência disso.



A história baseada no livro homônimo de Salomão Polakiewicz poderia se concentrar apenas nos desafios do estudante preto enfrentando diariamente a branquitude hegemônica das universidades, porém, a sagacidade de Jeferson De e Felipe Sholl faz o roteiro partir desse não-lugar para evidenciar o racismo cotidiano e sutil engendrado nas mais simples ocasiões – como o receio do porteiro em abrir o portão ao ver Suzana (Giulia Gayoso) chegar de carro no prédio da zona sul acompanhada de Maurício – que fazem parte do cotidiano da ficção e da realidade das pessoas pretas.

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É aí que entra a força de Jeferson De na direção, que faz de seu ‘M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida’ uma aula visual do que é as experiências do racismo cotidiano: tá ali, desenhadinho, para quem quiser ver – e para quem não quiser também, pois as situações são bem evidentes, de modo que até mesmo os mais negacionistas não poderão fingir que não existem.

O longa dá uma escorregadinha na edição, com uns picotes de cena no segundo arco da trama que pulam soltas na telona e ficam prejudicadas pela frágil continuidade, gerando estranheza no espectador. Porém, não prejudica a compreensão da história, na qual brilha – com todas as letras – a primorosa atuação de Mariana Nunes e de Tatiana Tibúrcio, enriquecidas com a participação mais que especial de Aílton Graça, Zezé Motta, Léa Garcia, Rocco Pitanga e Lázaro Ramos. Aliás, não só o elenco do filme é majoritariamente preto: também a ótima trilha sonora, parte da equipe técnica e dos colaboradores, que conta com nomes como Paulo Lins, autor de ‘Cidade de Deus’. Há, ainda, homenagens a grandes referências do nosso país, como Conceição Evaristo e Marielle Franco.



M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida’ é um filme necessário, didático e que transcende o fazer artístico. É também um marco no cinema brasileiro que anuncia para a próxima década uma mensagem bem clara: vamos ter, sim, muitas narrativas pretas na tela grande. Ainda bem!

Jeferson De, Juan Paiva e Mariana Nunes conversaram com nossa repórter Janda Montenegro do CinePOP sobre ‘M-8: Quando a Morte Socorre a Vida‘:

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