Madonna não é a rainha do pop por qualquer motivo e, através de uma expressiva e impactante carreira que se estende por mais de quatro décadas e conta com inúmeros hits mundiais que comportam uma gama inacreditável de gêneros – do disco ao kabbala, do dance ao fado. E, em meio a tantos álbuns que marcaram época e construíram um inegável inescapável que perdura até os dias de hoje, um dos mais relembrados de sua discografia é o aclamado vencedor do Grammy ‘Confessions on a Dance Floor’.
Lançado em 2005, o compilado de originais é um divisor de águas que serviu como lembrete da longevidade da titânica musicista, principalmente após a recepção divisiva de ‘American Life’, que também representou um significativo fracasso comercial quando comparado aos outros discos da performer. Apoiando-se no trabalho de nomes como Donna Summer, Giorgio Moroder e Bee Gees, a cantora e compositora construiu um arauto celebratório da vida e do prazer que deu origem a atemporais faixas como “Hung Up” e “Sorry”, misturando dance, electro, synth-pop e pós-disco em um único lugar.
Mais de vinte anos depois, Madonna está de volta com um aguardado segundo capítulo dessa irretocável odisseia com ‘Confessions II’, com lançamento agendado para o dia 3 de julho em todas as plataformas de streaming. O projeto marca o décimo quinto álbum de estúdio da rainha do pop e inclusive a faz retomar parceria com a Warner Bros. em um acordo histórico e muito ambicioso. Pouco depois de confirmar o disco, a artista nos presenteou com o lead single dessa vindoura e antecipada epopeia: o lead single “I Feel So Free”, que nos convida a retornar para as pistas de dança de maneira quase mandatória, em uma nostálgica aventura sob os holofotes e o globo de espelhos que traz o melhor de Madonna à tona.
Ao longo de surpreendentes e gratos cinco minutos de duração, a cantora nos reintroduz ao universo anacrônico que criou duas décadas atrás em uma notória solenidade e respeito, escancarando as portas para uma viagem pelo tempo que nos tira dos convencionalismos do tempo. Em um solilóquio robótico que é acompanhado pela pulsão dos sintetizadores e pelos conhecidos arranjos eletrônicos do dance e do EDM, ela agradece aos fãs por comparecerem a esse “evento”, narrando como às vezes se esconde nas sombras e cria uma nova personalidade para seguir em frente, desejando ser mais autoconfiante como os outros – mas como, “aqui fora, na pista de dança, eu me sinto muito livre”.
Aliando-se mais uma vez a Stuart Price, um dos principais colaboradores do álbum original, Madonna volta a demonstrar um apreço significativo pelo prazer e pelo escapismo artísticos, apoiando-se na estética firmada nos anos 1970 e 1980 do disco e do dance para exaltá-los como pode. Dessa maneira, à medida que nos instiga com as crescentes notas dos instrumentos eletrônicos e borra os limites entre passado e presente, ela promove homenagens contundentes e bem claras para Moroder, Donna Summer e até mesmo a si própria ao se inspirar em “Future Lovers” – além de incrementar a estrutura com os deliciosos e inebriantes estilos do deep house e do acid house.
“I Feel So Free” é um ótimo início para uma das eras mais aguardadas da maior artista feminina de todos os tempos – e que serve para cimentar uma carreira marcada por revoluções estéticas e musicais que são emuladas até hoje. Movendo-se em seu próprio ritmo e em uma indesculpável defesa da libertação e do empoderamento, o lead single nos prepara para o que pode ser um dos melhores álbuns de Madonna.


