Uma das coisas mais bacanas de frequentar um festival de cinema como o Festival do Rio é ter a oportunidade de esbarrar em filmes que, em nenhum outro cenário, você, cinéfilo, teria a oportunidade de assistir. Principalmente se o festival traz produções internacionais. E, para quem curte filmes de terror, um festival ou mostra de cinema é o momento certo para encontrar preciosidades das quais você poderá comentar por muito tempo, como o filme de terror neozelandês ‘Mãe, Engravidei de um Alien’.

Mary (Hannah Lynch) é uma jovem adulta cheia de tesão, mas com pouca paciência para interação social. E morar com sua mãe, Cynthia (Yvette Parsons, da série ‘O Que Fazemos nas Sombras’), não ajuda. Certo dia, Mary vai até a lavanderia do condomínio e, enquanto a máquina está batendo, ela decide se masturbar. Neste exato momento chega Boo (Arlo Green, que fez uma ponta em ‘Megan’), o vizinho que todos dizem ter um pênis deformado. Curiosa sobre o assunto, Mary pede para ver o membro de Boo, e ele, mega tímido, acaba mostrando. Só que o pênis de Boo não possui uma mera deformidade física, mas sim uma composição alienígena que, num átimo de ejaculação, acaba engravidando Mary. Agora os dois, sem saber o que fazer, terão que arcar com a gravidez inesperada.
É claro que num sentido mais profundo podemos entender o roteiro de ‘Mãe, Engravidei de um Alien’, escrito por Jordan Mark Windsor, como uma grande analogia às questões de gênero (o pênis é uma situação meio andrógina, parecendo meio uma vagina, meio dois nabos pendurados), à questão imigratória (o medo de se engravidar de um “alien”, palavra que em inglês também é usada para pessoas estrangeiras), e à gravidez indesejada e o direito à sua interrupção. E é bom que haja essa camada mais séria num filme como este para, inclusive, ajudar numa eventual distribuição do longa no exterior, especialmente em países que não têm o inglês como língua materna.
Mas num panorama macro, ‘Mãe, Engravidei de um Alien’ é um filme que diverte e enoja na proporção que o cinéfilo fã de filme de terror quer encontrar. Sem enrolar muito, o filme rapidamente apresenta seu plot, e no tempo certo (e de uma maneira bem surpreendente), para, assim, se dedicar mais no desenvolvimento do drama dos protagonistas, que perpassa os temas acima demonstrando, com humor e seriedade, os dilemas enfrentados por uma jovem grávida na sociedade contemporânea.

E já na primeira sequência o espectador é contemplado com cenas bizarras que serão difíceis de apagar da memória depois. Por isso, a gargalhada é garantida, até mesmo por conta das reações dos personagens, tão dicotômicas quanto naturais, que imediatamente faz com que a gente se solidarize com a situação mesmo, obviamente, nunca tendo passado por uma gravidez alienígena. Num crescente evolutivo, o body horror vai tomando conta da trama e do corpo de Mary, intensificando a gravidez e as transformações, levando-a ao grotesco e ao escatológico – assim, fazendo o espectador se retorcer na poltrona.
Mérito da dedicação coletiva do elenco e dos capitães dessa bizarrice, Sean Wallace e Jordan Mark Windsor, que fazem de ‘Mãe, Engravidei de um Alien’ um divertido e perturbador filme de terror que agrada e causa repulsa tal qual uma situação inesperada e constrangedora. A resolução final do filme, ainda por cima subversiva, consegue provocar emoções inesperadas e concluir que, no final das contas, um bom filme de terror sabe entregar exatamente aquilo que o espectador busca.
‘Mãe, Engravidei de um Alien’ tem que entrar no circuito brasileiro porque encontrará aqui um público que irá se divertir com ele. Bem realizado e completamente inesquecível (para o bem ou para o mal), é desses filmes de terror os quais nós, fãs, puxamos numa roda de conversa quando falamos sobre os títulos mais esquisitos que já vimos.



