Crítica | Manifest: Prolixa, Parte 2 da última temporada é uma EXAUSTIVA jornada com final suave e aconchegante

Em uma espiral de flagelos e tragédias sequenciais, Manifest retorna à Netflix com a promessa de suprir os anseios dos amantes por teorias conspiratórias, na tentativa de trazer respostas definitivas para o misterioso desaparecimento do voo 828 da Montego Airlines. Criando um confuso emaranhado entre sincretismo religioso, mitologia, misticismo e a Bíblia Sagrada, Jeff Rake busca fazer de seus últimos episódios sua cartada final para uma trama que – muito provavelmente – alugou um triplex gratuitamente na mente dos fãs. Mas cercada por um melodrama exaustivo e sob uma pressão enorme nascida de sua ambição desenfreada, a 2ª parte da 4ª temporada se torna uma turbulenta escala em direção a um final diluído demais.

Um dos maiores problemas dos 10 episódios remanescentes de Manifest é justamente sua falta de objetividade e foco. Prolixos e cheios e subtramas que não levam a lugar algum, a parte final da popular série é tomada por fillers desnecessários – hiatos narrativos que andam em círculos e não ajudam a trama a caminhar com celeridade e rapidez. Enquanto a Parte 1 se apressava em preparar o terreno para o grande final, a subsequente caminha a passos curtos e lentos, resgatando o personagem Zeke como uma espécie de fantasma elucidativo, capaz de cansar até os mais sentimentais. Exageradamente melodramático e sempre regado por uma falsa sabedoria romântica, ele se torna uma quebra na avidez do roteiro e funciona muito pouco dentro da essência da série.

Mas um dos aspectos que talvez mais incomode a audiência é justamente a necessidade de rechear os capítulos com cliffhangers constantes, a fim de garantir nossa atenção. Provando que seria possível encerrar a história com muitos episódios a menos, Rake nos entope com arcos pouco evolutivos e até mesmo desconexos com o cerne da trama, construindo uma falsa sensação de suspense a fim de maquiar o fato de que, honestamente, já não há tanto a ser dito ou apresentado ao público. Essa falta de estratégia e direcionamento pode tornar o restante da jornada um tanto enfadonha e até mesmo desgastante. Sempre à espera de conclusões, o showrunner e sua equipe de roteiristas vão deixando pequenas pontas soltas, na tentativa de saná-las rapidamente em seus minutos finais.

Com resoluções simplistas, que remetem ao princípio da série, Manifest entrega aos fãs um encerramento mediano, água com açúcar e até mesmo idealista. Após se fartar em cima do mais absoluto caos apocalíptico, a produção dilui toda sua complexidade em uma espécie de “felizes para sempre”, que entra em contradição até mesmo com a construção de alguns de seus arcos. Buscando a saída mais fácil, Rake e o produtor Robert Zemeckis (Forrest Gump e De Volta Para o Futuro) presenteiam a audiência com algo mais suave, aconchegante e bastante previsível – o que, invariavelmente, deve agradar muitos dos fãs.

Mas talvez a promessa de Juízo Final tenha sido grandiosa demais para ser cumprida. Talvez as diversas teorias interligadas tenham se complicado demais ao longo do processo. Seja qual for o motivo, a série adquirida pela Netflix se despede dos fãs após uma alucinante, porém inconstante aventura. Entre erros e acertos, Manifest entregou mais do que Lost, mas bem menos do que se propôs.

Piegas e beirando o cafona com seu sentimentalismo meloso, a produção não chega a ser uma expectativa frustrada, mas sem sombra de dúvidas é um desejo incompleto. Mostrando mais do que nunca que o formato de 20 episódios por temporada é completamente obsoleto e mais negativo do que positivo, a série é uma evidência clara de que, com bons roteiristas e uma excelente direção, é possível chegar ao mesmo destino com apenas três temporadas de 13 episódios cada. Ainda assim, Manifest não acena o seu adeus em vão. Após um longo voo cheio de escalas evitáveis, sua doce e óbvia aterrissagem é boa o bastante para acalentar o coração de quem há muito tempo tem esperado por um final definitivo.

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