Crítica | Mariah Carey nos leva de volta aos anos 1990 com a envolvente “Type Dangerous”

Mariah Carey despontou com enorme sucesso nos anos 1990, rapidamente tornando-se um ícone do cenário fonográfico e conquistando uma legião de fãs com seus inúmeros hits mundiais. Afinal, são poucas as pessoas que sequer ouviram os famosos toques de produções como “We Belong Together”, “Obsessed”, “Hero” e, é claro, o clássico natalino “All I Want for Christmas Is You” – cujos memes na internet foram, inclusive, adotados pela própria cantora e compositora. Não é surpresa que cada novo lançamento dessa artista inigualável venha com comoção generalizada, visto que ela consegue nos manter animados com incursões originais e que, ao mesmo tempo, se mantêm fiéis à sua conhecida identidade.

Nesta última sexta-feira, 6 de junho, Carey surpreendeu a todos ao retornar ao mundo da música com a inédita “Type Dangerous”. O lead single de seu vindouro décimo sexto álbum de estúdio é uma celebração testamentária da própria carreira, explodindo em uma vibrante e sensual narrativa de empoderamento e de finesse que nos arrebata desde os profundos primeiros toques e que, apesar de terminar de maneira abrupta, reafirma o contínuo legado que ela deixou no show business – com seus impecáveis vocais e sua incrível capacidade de escolher os artistas certos para ajudá-la nessa empreitada.

Um dos aspectos que mais funciona na faixa inédita é a maneira como Carey se entrega a ela. Em outras palavras, após três décadas de carreira, a performer pode fazer o que bem entender, sem escrúpulos e sem se preocupar em polir uma imagem pública que é celebrada e adorada ao redor do planeta. Dessa maneira, ela promove um resgate saudosista e narcótico dos anos 1990, fundindo e talhando uma mistura quase perfeita de R&B, hip hop, soul e pop em breves dois minutos e 55 segundos que passam em um piscar de olhos. E, apesar de não manter a beleza de seu último lead single, “With You”, ela abre mão da melancolia reflexiva para mergulhar de cabeça em uma irreverência que apenas ela sabe como entregar.

A track traz de volta uma persona “mean girl” de Carey – mas não digo isso de maneira pejorativa, e sim em um elogio que reflete um teor inebriante de acidez. Em meio a toques conhecidos do baixo e do piano, cortesia do trabalho em junto de Daniel Moore, NWi e a própria Mariah na produção, ela se dispõe de incontáveis frases de efeito que singram pelo camp e pelo exagero propositais, seja com a clara imagem dos dois primeiros versos (“entrei pela porta coberta em Balenci[aga], casaco de couro curto e alguns Fendis de salto alto”), seja com a declamatória e hilária frase “diamantes certificados como as músicas que escrevo”.

A construção da música é sólida e nos prepara para o que podemos apenas imaginar que seja um irretocável refrão – todavia, ao recuar a uma semi-balada marcada pelas explorações do new jack swing e do hip hop soul, há um certo gostinho de frustração que nos acompanha, ao menos até o segundo ato da canção. Existe uma certa desconexão entre as partes que compõe a iteração que não conseguimos deixar de lado, ao menos a priori, mas que logo começa a ditar o que se pode esperar de seu vindouro compilado de estúdios.

Eventualmente, o que fica para nós é o seguinte: mesmo com momentâneos equívocos, nada importa, pois a lendária Mariah Carey finalmente está de volta para nos arrebatar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.