Crítica | ‘Mortal Kombat II’ brilha com carisma de Karl Urban e essência dos jogos

CríticasCrítica | 'Mortal Kombat II' brilha com carisma de Karl Urban e essência dos jogos

Lançado no auge da pandemia Mortal Kombat (2021) foi um caso muito peculiar no mercado cinematográfico. Massacrado pela crítica por ter uma trama rasa e um elenco pouquíssimo inspirado, o longa vazou na internet por conta daquela tendência de “lançamentos híbridos” e acabou conquistando de forma certeira os corações dos fãs da franquia de videogames. O jogo original se notabilizou por sua violência gráfica extrema e personagens exóticos que logo passaram a integrar o hall da Cultura Pop.

Nos cinemas, a adaptação em live action apostou na violência explícita para recriar golpes famosos dos jogos e trazer aqueles personagens amados para as telonas. Deu certo. Mesmo com resultados de bilheteria ínfimos, muito por conta da pandemia, o longa ainda conseguiu se pagar. Tendo custado “apenas” 55 milhões de dólares, um valor baixo para um blockbuster, o filme arrecadou mais de US$ 84 milhões mundo afora, além de ter impulsionado o número de assinaturas do HBO Max, que era a prioridade da empresa naquele contexto. Ou seja, foi um sucesso. Diante disso, a sequência foi confirmada, mas ficou meio esquecida por um tempo, até o anúncio de Karl Urban no papel de um dos ícones mais queridos da saga: Johnny Cage.

Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.

E agora que a sequência enfim estreou nos cinemas, é possível entender o motivo de pouco ter se falado do filme além dessa adição ao elenco. Não é absurdo dizer que Cage é a alma e o coração de Mortal Kombat II, em um trabalho sensacional de Karl Urban. Mais do que isso, ele é uma síntese do filme em si, quiçá da franquia. Na trama, Johnny Cage é um ator que fez muito sucesso nos filmes de ação da década de 1990. Porém, os anos se passaram e ele não conseguiu fazer uma boa transição na carreira, ficando com sua imagem eternamente atrelada aos filmes que envelheceram mal. O que foi péssimo para o ator, que passou a viver com a frustração de ter experimentado a glória, mas nunca tê-la realmente alcançado.

Nesse contexto de decepção e autopiedade, Cage acaba sendo escolhido cosmicamente para ser o representante final da Terra no Mortal Kombat. Por se tratar do desafio final de Shao Kahn, o monstrão ganhará o direito legítimo de conquistar o planeta caso vença o duelo. Junto a nomes como Raiden, Liu Kang, Jax e Sonya Blade, o ator vira a última esperança do planeta, que sequer sabe que está em risco. Mas como diabos um ex-astro de filmes de luta de baixo orçamento, que sofre de alcoolismo e lida com a frustração diária de nunca ter atingido seu verdadeiro potencial pode ser a chance de salvação de 8 bilhões de pessoas? A resposta é tão simples quanto ridícula: atuando, é claro!

Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.

Cage é sacaneado pelos companheiros de time do início ao fim. Por ser apenas um cara normal, ele não tem nenhuma habilidade especial de luta, o que faz com que ele morra de medo de tudo o que está acontecendo. Esse ar do “brucutu” que virou chacota dialoga perfeitamente com a grande inspiração da criação do personagem nos videogames: o belga Jean-Claude Van Damme. Ícone dos filmes de luta nos anos 80, Van Damme não teve um gerenciamento legal de carreira e passou anos no ostracismo, virando alvo de chacota da crítica e enfrentando uma série de problemas pessoais. De certa forma, também foi isso que passou com essa franquia nas telonas. Ela nunca foi unanimidade e enfrentou algumas críticas pesadas. E o mais curioso é que Johnny Cage acaba sendo obrigado a enfrentar esse desafio mortal e encontra na própria atuação a saída para ser respeitado.

Ao abraçar a galhofa de seu personagem consagrado nas telonas, o ator reativa sua paixão pela luta e descobre seu estilo de arte marcial. Mais do que isso, como os desafiantes nunca viram seus filmes, eles também acreditam estar diante de um guerreiro lendário. É o tipo de visão completamente descompromissada de quem não poderia se importar menos com as críticas. É um personagem extremamente caricato, canastrão e idiota, que funciona assustadoramente bem nas telonas por conta do talento de quem o interpreta. Karl Urban cai como uma luva em um elenco pouquíssimo inspirado e consegue extrair o melhor de seus companheiros de cena apenas com sua presença.

Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.

Mortal Kombat II é um fenômeno difícil de explicar. É aquele tipo de filme que te faz pensar: “Meu Deus, que filme idiota!”. Mas, ao mesmo tempo, você também se questiona: “Por que eu não consigo desgrudar os olhos desse filme idiota?”. É verdadeiramente impressionante, porque é uma aventura cujo roteiro parece ter sido escrito por um adolescente de 15 anos que acabou de maratonar 15 horas de South Park e, por algum motivo, funciona bem demais. E acredito que muito disso tenha a ver com esse protagonismo de Johnny Cage, que entende que não vai chegar a lugar algum se ficar se levando a sério o tempo inteiro. Então, ao abraçar de vez a galhofa, tanto o filme quanto seu protagonista revelam seu verdadeiro valor.

É o tipo de entretenimento que consegue dialogar com o material de origem, recriando cena por cena de momentos icônicos da franquia dos videogames, ao mesmo tempo em que tenta construir uma linguagem cinematográfica que patina, mas consegue criar seu rumo aos trancos e barrancos. É verdadeiramente um arremedo de história que se sustenta no carisma do protagonista e nas cenas de ação e violência, apelando a golpes clássicos, como o famoso soco no saco de Johnny Cage. Inclusive, mesmo sendo um filme bastante sangrento, acho que vale mencionar que achei as mortes um pouco abaixo da aventura original. Os fatalities são conhecidos por serem gratuitamente violentos e explícitos. Aqui, apesar de serem golpes pesados e sanguinários, não são tão explícitos quanto nos jogos ou no primeiro filme dessa nova franquia. Senti que foram mortes mais “limpas” e menos marcantes.

Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.

Por fim, o filme tenta construir alguns momentos mais dramáticos, principalmente na hora de contar a história de origem de Kitana (Adeline Rudolph) e seu núcleo, que não funcionam tão bem. O ponto positivo é que a própria produção parece entender isso e acaba optando por não insistir neles. Mortal Kombat II é um filme que parece ter compreendido bem o que os fãs da saga mais amam nos jogos e consegue adaptá-lo bem para o cinema em um blockbuster completamente sem compromisso.

E por ter um cânone que permite que personagens mortos voltem a vida a torto e a direito, é possível que até mesmo alguns ícones mortos aqui retornem para o terceiro filme, que parece apenas questão de tempo para ser confirmado.

Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. All rights reserved.

Mortal Kombat II está em cartaz nos cinemas.

Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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