Crítica | Neal McDonough brilha no açucarado melodrama ‘O Último Rodeio’

Em O Último Rodeio, Neal McDonough interpreta Joe Wainright, um ex-toureiro que se aposentou após um grave acidente que culminou em um pescoço quebrado e seu subsequente afastamento. Porém, Joe se vê compelido a fazer um inesperado e perigoso retorno aos rodeios quando o neto é diagnosticado com um tumor cerebral que requere uma dispendiosa cirurgia invasiva – cujo valor não pode ser pago por ele ou por Sally (Sarah Jones), filha de Joe. Dessa maneira, ele aceita participar de uma popular e prestigiada competição cujo prêmio máximo é de US$750 mil (mais do que o suficiente para cobrir os gastos).

Porém, o retorno de Joe às touradas não é livre de fantasmas de um passado não muito longínquo que voltam com força para assombrá-lo. De um lado, o trauma do acidente ecoa em seus ouvidos como alertas para assustá-lo de participar da competição e procurar outra maneira de ajudar o neto – e que se materializam, a princípio, na figura de um antigo colaborador que resolve ajudá-lo, Charlie Williams (Mykelti Williamson), que também carrega suas marcas. De outro, a morte prematura da esposa, Rose (Ruvé McDonough), irrompe como um lembrete de uma fraqueza que continua a atormentá-lo, criando um obstáculo interno para seu sucesso. Afinal, Joe não tem a opção de perder – e a nova geração de esportistas emerge como mais um problema a ser solucionado.

Dirigido por Joe Avnet, o drama parte de uma premissa que já foi retratada inúmeras vezes na sétima arte e de incontáveis maneiras. Afinal, há algo emblemático e universal em colocar o ser humano frente a seus próprios demônios e contra a natureza inescapável da morte – ainda mais quando há uma busca incessante para salvar aqueles que amamos (nesse caso, encarnado por McDonough em uma sólida interpretação como Joe). De fato, é quase impossível desviar de pinceladas açucaradas e tropos convencionais do gênero, mas o resultado é positivo o suficiente para nos emocionar, mesmo que de forma efêmera.

Avnet se apropria das jogadas clássicas de melodramas tour-de-force e garante uma expressividade significativa do corpo de atores para ofuscar repetições e ocasionais deslizes. O idílico cenário do interior dos Estados Unidos é banhado em cores menos vibrantes e mais melancólicas, fornecendo uma sensação de permanência de dor que deve ser enfrentada não apenas por Joe, como pela frágil estrutura familiar que balança à medida que a condição de seu neto piora. Logo depois, somos arremessados ao show business dos rodeios em que o protagonista luta em meio às luzes estroboscópicas e a caprichosas sequências em slow-motion que ajudam a construir a tensão e a expectativa. E é essa praticidade artística que, embora sem muita ambição, funciona como o esperado.

McDonough rouba os holofotes e traz um lado um tanto quanto diferente de sua carreira, que inclui produções como ‘Desperate Housewives’ e ‘Yellowstone’, e brinca como pode com a profundidade do arquetípico herói que interpreta. O astro também fica responsável pelo roteiro ao lado de Avnet e Derek Presley, o que permite que se ele se conecte em um âmbito mais denso com Joe – nos convidando para conhecer os bastidores dos rodeios. É claro que sua construção heroica soa pré-fabricada, mas tem a dose certa de humanidade para nos encantar.

Jones e Williamson, colocados em seus patamares como coadjuvantes e como mentores e ápices de lucidez para a determinação de Joe em vencer o campeonato, nos presenteiam com ótimas atuações que fogem um pouco do que esperaríamos de personagens-suporte – e o mesmo vale para Christopher McDonald como Jimmy Mack, responsável pelo torneio, e Irene Bedard em uma pontual, mas forte presença como Agisa Williams, esposa de Charlie. E, enquanto o filme se estende por mais do que deveria e cria algumas “barrigas” ao longo de suas quase duas horas, a química do elenco o torna palatável.

O Último Rodeio pode até ser previsível e gabaritar o check-list de filmes dramáticos, desde a epopeica jornada de amadurecimento tardio que o protagonista se lança até um fabulesco final feliz que transforma melancolia em perseverança. Porém, tendo em mente que o projeto não deseja trazer nada de novo e tem o objetivo de nos passar uma mensagem positiva sobre amor, coragem e família, a tarefa de aproveitar o longa-metragem torna-se muito mais fácil e aprazível.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.