Ânimos aflorados, uma intensa ansiedade que exala pelos poros e um clima quente que serve como combustível para os temperamentos naturalmente mais acalorados compõem o design de produção de A Voz Suprema do Blues. Muito mais do que elementos práticos e decorativos, a estética do novo drama original da Netflix é sinestésica a tal extremo, que é capaz de incorporar ao visual do longa, até mesmo os outros elementos da sua construção narrativa. E essa combinação tão entremeada é o que faz do filme uma das melhores experiências cinematográficas de 2020.

Apresentado à audiência como um ensaio, A Voz Suprema do Blues é uma adaptação da aclamada peça teatral da Broadway de autoria de August Wilson e traz os anseios com os quais ele, como filho de um imigrante alemão e de uma empregada doméstica negra, viveu ao longo de sua infância. Sua pele branca esconde algumas terríveis histórias de abuso por ser fruto de uma mulher preta – que viveu sendo subjugada por sua cor. E dando voz aos testemunhos de sua própria infância, ele faz da aclamada obra, originalmente intitulada Ma Rainey’s Black Bottom, um manifesto da culturalidade afro-americana.

Reunindo alguns dos aspectos comumente debatidos pela arte preta, a peça aborda questões raciais, artísticas e de religião, sob um pano de fundo que explora de forma propositalmente efêmera a exploração histórica de artistas negros por parte de empresários brancos. Essa combinação explosiva é novamente trazida na versão adaptada pelo roteirista Ruben Santiago-Hudson (‘O Gângster‘), que abusa dos diálogos profundos e que faz do seu discurso o grande pilar de toda a produção. Aqui, debates profundos sobre racismo e abuso dos mais diversos se desenrolam de forma quase caótica e consequentemente instável, proporcionando momentos de grandeza que são hipnotizantes.



Focados em Levee e Ma Rainey, nossos olhos não se desatam dos atores Chadwick Boseman e Viola Davis, que passam a maior parte do tempo em cômodos distintos, mas seguem o filme inteiro interconectados pela fúria que provocam um no outro. E como se estivéssemos diante de um palco assistindo a uma peça, o drama se desenvolve de forma mais pautada e ritmada, com seus discursos sempre se sobressaindo, em atuações surpreendentes. Talvez nem Boseman soubesse que este seria o seu último projeto, mas sua intensa e visceral performance mostra a maturidade de um ator que estava disposto a deixar tudo em um set de filmagens. Visivelmente mais magro do que quando o vimos em Vingadores: Ultimato, seu corpo carregava os reflexos de um câncer em estágio terminal, mas seu vigor nunca esteve tão alto e poderoso.

Muito mais do que uma outra evidência categórica de seu imenso profissionalismo, A Voz Suprema do Blues é também o cume mais alto da surpreendente jornada de Boseman em Hollywood e já o apresenta como um futuro indicado ao Oscar. Como um ator sempre seletivo em seus papéis – preocupado com o impacto que ele geraria diante do mundo e das audiências, ele escolhe Levee como um contraste à sua própria história. Como um homem em crise com Deus, agitado e inconstante, ele é talentosíssimo e igualmente temperamental. O oposto extremo do ator, o personagem é a versatilidade de Boseman nas telas, um homem crente que foi de jogador de baseball, a super herói e eventualmente a um ambicioso, porém complicado músico.



E ao seu lado, Davis desaparece no papel, personificando Ma Rainey ao extremo. Poderosa e sem papas na língua, ela entrega uma agressividade que chega a ser desconfortável, mas que também mostra a dura realidade de ser uma cantora negra em um América que só quis lhe furtar o seu próprio talento. Dois contrastes gritantes em rota de colisão, os atores formam a combinação perfeita do drama de George C. Wolfe, que narrado nos anos 20, nunca esteve tão atual como agora. Com um figurino de época que exala a riqueza dos cortes de alfaiataria e o caimento mais alongado dos vestidos, o longa produzido por Denzel Washington é lindamente dirigido e já caminha em direção à temporada de premiações como um forte concorrente. Nos deixando extasiados e emocionalmente fatigados por seu inesperado final, A Voz Suprema do Blues é também o temível adeus que jamais quisemos dar a Chadwick Boseman.

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