Crítica | O Amante Duplo – François Ozon brinca de Brian De Palma

Síndrome de Caim

Estreando no prestigiado Festival de Cannes 2017, O Amante Duplo foi o carro-chefe desta edição do Festival Varilux 2018, o maior evento de cinema francês do Brasil, que chegou ao fim nesta quarta-feira, 20 de junho. O motivo para tanto é simples: a assinatura de François Ozon na direção. Com obras como Swimming Pool – À Beira da Piscina (2003), Dentro da Casa (2012), Jovem e Bela (2013) e Uma Nova Amiga (2014) no currículo, o cineasta é, indiscutivelmente, um dos nomes sensação do cinema europeu na atualidade.

O Amante Duplo se trata de uma adaptação do livro ‘Lives of the Twins’, da nova-iorquina Joyce Carol Oates, que já havia ganhado as telas na forma de uma produção para a TV de 1991, intitulada Jogo Duplo (Lies of the Twins), protagonizado por Isabella Rossellini e Aidan Quinn. A versão francesa do conto é adaptada pelo próprio Ozon.

A diferença de um cinema mais ousado, lascivo e maduro vem logo na primeira cena, quando um exame ginecológico foca na genitália da personagem protagonista, a introspectiva Chloé, papel de Marine Vacht. Com este tapa na cara da hipocrisia e conservadorismo, Ozon abre seu longa.

Na trama, durante suas sessões de terapia, a jovem Chloé começa a sentir uma forte atração por seu psicólogo Paul, papel de Jérémie Renier. O terapeuta retribui o sentimento inegável, e em breve um relacionamento surge deste lugar politicamente incorreto. O que começa como um drama romântico protagonizado por um analista e sua ex-paciente, logo escala para o mistério de um thriller erótico quando Ozon carrega nas tintas do icônico diretor Brian De Palma.

Numa mistura de Vestida para Matar (1980), Síndrome de Caim (1992) e Femme Fatale (2002), o cineasta francês homenageia o lendário norte-americano através de sua estética e narrativa, que conduz a história deixando o espectador sempre um passo atrás do que está por vir. O teor soturno e a sensação alucinógena constante se fazem tão presentes que quanto menos da trama for dito, melhor.

O Amante Duplo é aquele tipo de filme que, a cada guinada do roteiro, o público é presenteado com novas informações, subvertendo conceitos estabelecidos sobre os personagens e sobre o que havia sido mostrado – ou escondido. Como num bom jogo, Ozon manipula sua audiência, deixando poucas pistas a respeito do todo, revelando somente o que quer, assim como os grandes mestres ilusionistas do passado – em especial Alfred Hitchcock.

François Ozon conduz O Amante Duplo com maestria, instigando sua plateia a não desgrudar a plena atenção da tela. O diretor imprime o ritmo e o dinamismo do cinema entretenimento em sua roupagem de cinema de arte. Fora isso, tira de seus intérpretes a dedicação precisa. Jérémie Renier se esforça e se diverte em um papel duplo – sim, a esta altura esta reviravolta não é uma grande surpresa. A diferença entre Paul e Louis não está apenas na caracterização dos personagens, mas principalmente na forma dedicada com a qual o ator entrega performances bem distintas. Já a modelo transformada em atriz Marine Vacht, cuja carreira foi impulsionada pelo próprio Ozon em Jovem e Bela (2013), realiza um tour de force na pele da confusa Chlóe.

O Amante Duplo coloca uma grande lupa sobre relacionamentos humanos, em especial os tóxicos, dos quais parecemos não conseguir fugir, sempre atraídos a eles como insetos para a luz. O longa vai acrescentando cada vez mais elementos típicos de um pesadelo horripilante, escalando até o desfecho apoteótico. E é neste momento que o filme pode perder parte de sua audiência, até então investida em cada nova descoberta. Em seu clímax, O Amante Duplo se atreve a tirar o tapete debaixo de nós de forma tão brusca, que por pouco não nos levantamos mais. De forma consciente, no entanto, Ozon consegue posicionar novamente seu veículo nos trilhos, justificando o manuseio forçado ao qual somos sujeitados. Cabe somente ao espectador a confissão do quanto gosta de ser ludibriado. Se vier de gente como Hitchcock, De Palma e Ozon, a resposta é: muito.

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