Filmes que falam sobre dependência química parecem mesmo ter ganhado destaque em Hollywood. Depois do drama Querido Menino – protagonizado pela dupla Steve Carell e Timothée Chalamet -, o assunto vem novamente à tona em O Retorno de Ben, com Julia Roberts e Lucas Hedges comandando a trama. Nele, a temática por si só já é responsável por criar toda uma atmosfera de tensão no público, mas o desespero da mãe vivida por Roberts é, sem dúvidas, o que faz o espectador se transportar para a história e não desgrudar os olhos da tela durante os 102 minutos do longa.

Dirigido por Peter Hedges – pai do protagonista na vida real, que inclusive foi convencido por Julia Roberts a aceitar o papel na trama -, Ben is Back (título original) fala sobre a volta de Ben Burns (Lucas Hedges) para a casa da família na noite de Natal. Por causa do seu vício em drogas, o jovem estava internado em uma clínica de reabilitação, mas tem a chance de passar 24h ao lado dos seus para tentar, ao menos nas festas de final de ano, recuperar um pouco do tempo perdido. A princípio, apenas a mãe e os dois irmãos pequenos é que o recebem com alegria – já que o padrasto (Courtney B. Vance) e a sua irmã Ivy (Kathryn Newton) ainda não tinham superado as recordações ruins das últimas vezes em que estiveram todos juntos. No entanto, ao longo da trama, a menina também começa a se alegrar com o retorno do irmão e a acreditar na real possibilidade dele contradizer as más expectativas e estar, de fato, recuperado.


Até que uma invasão na casa da família seguida pelo sequestro do cachorro enquanto todos estavam na igreja para o evento de Natal traz à tona a ideia de que Ben sempre vem acompanhado por problemas (para o padrasto, ao menos; e para o próprio, que se culpa por colocar quem ama em apuros ) e faz com que ele comece uma jornada para acertar contas do passado e recuperar o animal de estimação – ao mesmo tempo em que corre o risco de ter uma recaída que, dependendo da intensidade, pode lhe custar a vida. A partir daí, Holly Burns, a mãe do jovem, passa a viver seu pior pesadelo ao começar a conhecer um pouco o universo obscuro do filho (incluindo um envolvimento com um professor de História do colégio em troca de remédios para se drogar), e Julia Roberts, quem dá forma à ela, entrega uma de suas melhores performances dramáticas no cinema.

Das horas em que sente alegria por ver o filho de volta aos momentos em que fica ao seu lado temendo uma nova recaída, Roberts coloca a força de sua atuação no olhar e no modo como se movimenta. Nunca relaxada, nunca confortável (mesmo nas horas em que sorri e tudo parece bem), a atriz transmite para a tela toda a tensão de uma mãe que vive com medo de perder quem ama para as drogas. Difícil não se emocionar ao ver sua reação ao ter o filho de volta ou sentir seu desespero quando, no provador do shopping, Ben insinua que tem entorpecentes escondidos no tênis que ela esqueceu de checar e quando ele a deixa na loja de conveniência e segue sozinho na arriscada jornada em busca do cachorro sequestrado. Aparecendo como verdadeira protagonista da história, não é exagero dizer que a estrela É o filme.

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Mas, apesar de todo esse destaque da atriz de Uma Linda Mulher, vale dizer que Lucas Hedges também cumpre muito bem o seu papel e comove na pele de Ben Burns. Um dos pontos altos de sua atuação, inclusive, acontece na noite de Natal na igreja – quando, ao olhar para a irmã cantando no coral, ele solta lágrimas que nos fazem sentir toda a sua dor e arrependimento por tudo o que viveu e fez a família passar. Junto com Boy Erased: Uma Verdade Anulada, O Retorno de Ben vem para comprovar que, muito longe de ser apenas um rostinho bonito, o jovem ator tem a promessa de uma carreira bem promissora pela frente. Para quem já tinha acompanhado seu trabalho em filmes como Lady Bird e Manchester À Beira-Mar, o amadurecimento no drama fica ainda mais evidente por aqui.

E assim, com a força das atuações dos protagonistas e todo o apelo emocional do enredo, a produção de Peter Hedges aparece como um filme sobre drogas que não apela para o drama exagerado para prender a atenção do espectador e comover. Com um ritmo que pode até ser considerado meio lento por alguns, ele cria uma atmosfera de tensão através de diálogos e olhares – principalmente entre mãe e filho, que, apesar de tudo, ainda conseguem manter uma certa cumplicidade. No fim, seguindo o que aparece na última cena em aberto, ele deixa um sopro de esperança para quem acompanhou a jornada de quem sempre fez de tudo para salvar seu filho. Não dizem que mães são heroínas? Julia Roberts, certamente, acabou de interpretar uma de suas maiores guerreiras…

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