Roald Dahl é um dos romancistas mais populares de todos os tempos e um dos emblemas da literatura infantil de língua inglesa. Seus divertidos romances já foram traduzidos para inúmeras línguas e ganharam incontáveis adaptações para o cinema e para a televisão – como ‘Convenção das Bruxas’, ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’ e ‘Matilda’, cada qual tornando-se um clássico com o passar dos anos e apresentando narrativas destinadas não apenas aos pequenos, mas a todos que aceitassem essa aventura. Agora, mais um de seus livros foi selecionado para um tratamento fílmico: ‘Os Pestes’.
Estreando no catálogo da Netflix neste último dia 17 de outubro, a trama nos apresenta ao Sr. e à Sra. Peste (cujas vozes são emprestadas de Johnny Vegas e Margo Martindale). O casal está junto há mais de quarenta miseráveis anos, tornando a vida um do outro um inferno a cada dia, pregando peças um tanto quanto perigosas, encontrando alegria no prospecto de abrir um parque de diversões chamado Pestelândia. Entretanto, as coisas não saem como o planejado e, no dia da grande abertura, o parque é interditado e condenado permanentemente por incontáveis violações sanitárias e de segurança.

Jurando vingança contra as autoridades e contra os habitantes da fictícia cidade de Triperot, os Pestes roubam um caminhão carregado com carne de cachorro-quente líquida, contaminando a reserva de água e causando uma explosão gigantesca que causa uma inundação e um caos descontrolado. E essa vingança afeta a vida das jovens crianças que moram no orfanato da cidade, incluindo Bento (Ryan Lopez), um menino cujo sonho é ser adotado por uma família. Prestes a finalmente realizar seu desejo, seus futuros pai e mãe mudam de ideia com medo de que ele esteja contaminado. Não demora muito até que sua melhor amiga, Bissa (Maitreyi Ramakrishnan), resolve enfrentar os Pestes e fazê-los pagar pelo que fizeram, tentando arrancar uma confissão para mostrar às autoridades.
O problema é que, após um glorioso momento em que o casal vai preso, a fiança dos criminosos é paga por um grupo da cidade que quer que eles abram o parque, tornando Triperot um ponto turístico novamente e trazendo alegria de volta aos habitantes. E, em meio a tantas coisas acontecendo e a tantas subtramas que se abrem ao longo de pouco mais de 100 minutos, o novo projeto original da gigante do streaming falha em nos conquistar ao querer dar um passo maior que a perna e se esquecendo de trazer alguma centelha de originalidade a um enredo que já foi levado várias vezes ao cenário audiovisual.

A animação é dirigida por Phil Johnston, que não é nenhum novato ao gênero: afinal, ele é responsável por coassinar o roteiro de ótimos títulos como ‘Detona Ralph’ e ‘WiFi Ralph: Quebrando a Internet’, mostrando que tem um tato inegável para trazer divertidas e inspiradoras narrativas às telonas. Responsável tanto pela direção quanto pela história, Johnston parece sem inspiração para trazer o conto de Dahl à vida, movendo-se por arcos tão previsíveis quanto a premissa e transformando cada um dos personagens em arquétipos cansativos que denotam uma profunda divisão entre o bem e o mal. Em outras palavras, o realizador, que é acompanhado de Meg Favreau na adaptação, cria maniqueísmos vencidos que não nos encantam como poderiam.
Para além das tramas envolvendo o Sr. e a Sra. Peste e os órfãos Bento e Bissa, outras explorações se ramificam, incluindo uma família de macacos que está presa nas facilidades do parque para servir de combustível às atrações, e uma breve backstory de Triperot que envolve um lago que há bastante tempo secou. O longa não conta com qualquer linha de raciocínio sólida para explicar as mensagens que tenta passar até o terceiro ato, onde diálogos repetitivos sobre bonança, respeito e solidariedade são materializados em uma conclusão tão barata que chega a ser risível.

Se a narrativa não nos emociona em qualquer âmbito que seja, deixando-nos com um gosto de frustração na boca à medida que se desenrola, ao menos a preocupação estética é notável. Tanto a sombria e inóspita fotografia de Todd Jansen quanto os efeitos supervisionados pela Jellyfish Pictures funcionam como deveriam, nos transportando a um cenário de guerra quase pós-apocalíptico que é envolto pela ambição desmedida e pelo individualismo irrefreável. E, compondo essa breve seleção de acertos, o trabalho do elenco é polido o bastante para trazer comicidade e drama nos níveis certos a um bagunçado roteiro.
‘Os Pestes’ tinha tudo para se sagrar uma das melhores animações do ano, mas não sabe explorar o próprio potencial e prefere se inclinar para fórmulas batidas do gênero, pincelando uma história descompensada com discussões rasas demais para serem levadas a sério e uma preocupação maior com o estilo do que com o conteúdo.
