Sa-la-frá-rio. Pessoa desonesta, desleal, ordinária. Pulha. Adjetivos esses que caem como uma luva (com o perdão do trocadilho infame) aos personagens de Marcus Majella e Samantha Schmütz em ‘Os Salafrários’, nova comédia nacional que estreia já em primeiro lugar na Netflix.

Clóvis (Marcus Majella) é um artista, especializado em falsificar famosos quadros de arte e revendê-los a preço de banana para poderosos homens da sociedade. Ele é uma espécie de irmão de Lohane (Samantha Schmütz), uma mulher honesta que trabalha vendendo lanches em um trailer em Magé, no RJ. Um dia, uma blitz falsa leva tudo que Lohane tem, e, desesperada, ela vai atrás do irmão, sem nem ter ideia do que ele faz da vida. Só que ela não tinha a menor noção de que o cerco havia apertado para Clóvis naquele exato momento, e ele tinha que fugir às pressas. Assim, a improvável dupla acaba se juntando para conseguir um novo trailer para Lohane, só que através das técnicas escusas de Clóvis.

A joia rara por trás de ‘Os Salafrários’ é o incrível roteiro de Fil Braz (que também escreveu ‘Vai Que Cola’ e ‘Minha Mãe é uma Peça’). Pelo viés da comédia, Fil constrói uma inteligentíssima crítica ao mal social que mina nosso país: a corrupção. É como voltar às raízes do fazer comédia – a comicidade como ferramenta de enquadro das mazelas sociais, de crítica dos governantes tornando-os caricaturas de si. Assim, as situações em que os protagonistas se metem são extremamente genuínas, que o espectador brasileiro facilmente reconhece, seja pelos noticiários absurdos que vemos na tv, seja porque já ouvimos falar de alguém que tentou uma malandragem semelhante.



A sintonia entre Marcus Majella e Samantha Schmütz conduz as uma hora e trinta de longa de maneira orgânica, tornando absolutamente todas as situações críveis para seus personagens. A bem da verdade, algumas reações dos dois parecem genuínas demais, provavelmente fruto dos anos de improvisação que os dois veem dominando ao longo das muitas temporadas do ‘Vai Que Cola’. Sem contar que o longa todo se passa na bela Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, descentralizando o cenário carioca para outras cidades do estado igualmente de tirar o fôlego.

O ritmo com que o enredo vai se desenrolando é fundamental para que o longa seja bem-sucedido, e isso tem a ver com a boa condução de Pedro Antônio Paes desse projeto, alicerçado por uma montagem ágil que faz com que as piadas ocorram no tempo certo, para o espectador atento pescar de primeira. Tudo para fazer jus ao roteiro inteligente que se constrói em cima de piadas específicas da população brasileira, de maneira mordaz e sagaz, inteligente mesmo, apresentadas sob a roupagem de comédia popular. É o grande trunfo de ‘Os Salafrários’: unir os dois públicos.

Com uma pegada realista e ácida, ‘Os Salafrários’ faz um ótimo retrato de como a corrupção e o jeitinho brasileiro fundamentam as relações sociais neste país. Em diferentes níveis, a forma como Clóvis encontra brecha não só para realizar suas picaretagens, mas também para se safar delas, nos faz rir e sentir vergonha ao mesmo tempo. ‘Os Salafrários’ é uma excelente comédia, da qual só rimos porque nossa realidade é viver em uma sociedade em que ser bom não compensa.



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