A lendária e distinta Norah Jones ganhou fama nos anos 2000, quando lançou seu primeiro álbum de estúdio intitulado Come Away with Me (cuja música-título até mesmo foi regravada em uma nostálgica rendição por Emma Bunton). Depois de vender quase 30 milhões de cópias e tornar-se um dos maiores nomes do jazz-folk do século XXI, Jones teve sua carreira catapultada para uma prolífica discografia, que lhe rendeu nada menos que nove prêmios do Grammy. Agora, duas décadas depois de seu début, ela retorna à glória com sua melhor obra em dez anos, o nostálgico e que tangencia o cinematográfico ‘Pick Me Off the Floor’, que, ao longo de suas onze estupendas faixas, entra facilmente para a lista das grandes produções de 2020 que abrem com o pé direito um novo ciclo.

Se nos meses anteriores vínhamos sendo apresentados a investidas escapistas em meio a um conturbado panorama mundial, Jones resolve se afastar disso, jogando-se de cabeça em um melódico e elegíaco solilóquio que, seguindo os passos de sua já conhecida carreira, funde em um exuberante cenário elementos do country, do pop, do R&B e, principalmente, do folk. Munida do classicismo de um piano envolvente e bastante dramático, a artista parece estar se apresentando no palco improvisado de um pub nova-iorquino, rodeada de uma iluminação bruxuleante que a transforma numa silhueta angelical e intocável. Abrindo com a melancolia “How I Weep”, Norah discorre de modo profundo sobre relacionamentos, mantendo essa irretocável atmosfera até o final do CD; nas primeiras faixas (com mais precisão, até “Hurts To Be Alone”), a cantora e compositora opta por descontruir declamações amorosas em caliginosas arquiteturas – e, sem mais nem menos, volta-se para a lentidão de Ella Fitzgerald na metafórica “Heartbroken, Day After”.

“Vai ficar tudo bem”, ela diz, dando início ao segundo ato da canção. Enquanto deixa claro seus estilos preferidos e estampa na cara de seus fãs suas inspirações, Jones não deixa de fora a habilidade imediatamente reconhecível de criar algo próprio, assemelhando-se a nomes como Florence Welch e Fiona Apple (esta última servindo de nutrição para as notas dissonantes que surgem mascaradas pelos instrumentos de sopro e de corda). Seus vocais, com efeito, não são deixados de lado; na verdade, integram uma intrigante jornada sinestésica cujo anacronismo, em qualquer outro âmbito passível de críticas ferrenhas, é utilizado com extrema minúcia e semeia músicas que abrangem as mais diversas criações artísticas. Em “Say No More”, ela brinca com versos deliciosamente políticos e que passam despercebidos pelos ouvidos menos atentos; em “This Life”, a simbologia atual brinca com suas vulnerabilidades como mulher e como performer; em “To Live”, o prólogo em múltiplas camadas serve de introdução para um narcótico, ainda que desconexo, hino.

Eventualmente, Jones mostra que não veio para brincar e que, ainda que esteja na ativa há um tempo considerável, tem muito o que contar. Esse relacionamento simbiótico que desenvolve com a música é emocionante e, no final das contas, é o que importa de verdade para os ouvintes. É notável o modo como a artista constrói um íntimo retrato de si mesma e deixa que a arte musical fale por si mesma, dando-lhe uma retumbante vida; a propensão teatral imprimida por Norah é visível, mas ela cuida para não se render aos convencionalismos e aos caprichos preciosistas da pretensão desmedida. Isso fica bem claro com “I’m Alive”, na qual parece se exonerar do piano e chamar os familiares acordes do violão para falar sobre o conflito entre conformismo e liberdade.

Se há algo que fica provado com seu mais novo álbum, é que Jones nunca se entregará a músicas premeditadas. Normalmente, a organicidade e a coesão são necessárias para garantir a compreensão de obras fonográficas; porém, essa fórmula é jogada fora aqui em prol de iterações propositalmente desarmônicos entre si, mas que se reencontram numa harmonia sem precedentes e bastante original – um dos maiores méritos, devo dizer. Não é surpresa que achemos o desenlace das tracks, podendo notar com clareza a diferença do início com “Were You Watching?”, cuja pungente repetição é um cíclico e quase irônico reflexo de sua carreira – movido por violinos que não acreditávamos serem necessários até entendermos sua importância.

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Apesar dos óbvios e pontuais equívocos, nada pode tirar a grandiosidade do que a cantora fez aqui. Pouco antes do desfecho de sua epopeia musical, ela retorna com força àquilo que já havia nos apresentado com “Stumble On My Way”, uma belíssima balada que usa a redundância da volta gloriosa do piano em um espectro diferenciado e que, ao mesmo tempo, permanece dentro da proposta que ela delineia e foge dela. Mais do que isso, a penúltima canção insurge como homenagem para si mesma – uma mimética orgulhosa que soa afeito ao recente Begin Again e, mais longinquamente, a Feels Like Home.

Pick Me Up Off the Floor chega ao fim com “Heaven Above”, uma enigmática e emocionante rendição que funciona como uma amálgama resumitiva de tudo que foi explorado. Temos as ecoantes cordas em atrito fulguroso com o piano, criando mágica onde não poderíamos esperar encontrar – e novamente revelando uma Norah Jones que, há algum tempo, não se mostrava tão vulnerável e imprecisamente precisa no que faz de melhor.

Nota por faixa:

  • How I Weep – 5/5
  • Flame Twin – 5/5
  • Hurts To Be Alone – 5/5
  • Heartbroken, Day After – 5/5
  • Say No More – 4/5
  • This Life – 4/5
  • To Live – 3,5/5
  • I’m Alive – 4,5/5
  • Were You Watching? – 4/5
  • Stumble On My Way – 4,5/5
  • Heaven Above – 5/5
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