É quase seguro afirmar que todo mundo no mundo inteiro conhece a história do Pinóquio. A clássica história, que já foi adaptada em versão animada pela Disney (cuja versão é uma das mais conhecidas) sobre o menino feito de madeira cujo sonho era se tornar menino de verdade mas que, de tanto mentir, via seu nariz crescer e crescer. Cheia de valores e lições importantes para crianças e adultos, esse enredo vem conquistando os seres humanos há aproximadamente cem anos e agora volta a ganhar o espaço das telonas em uma nova adaptação – dessa vez por uma produtora russa – e que já está disponível nos cinemas brasileiros em versões dubladas.

Papai Karlo (na voz original de Aleksandr Yatsenko) é um homem solitário e infeliz. Sem filhos e viúvo, passa os dias em eterna melancolia. Por isso três baratas falantes que vivem em sua casa decidem fazer algo a respeito, e, mesmo sem conseguirem a aprovação da fada mágica, elas roubam uma chave especial que abre a porta de um cômodo que realiza o sonho de Karlo: o de ter um filho. É assim que um pedaço de madeira encostado na parede ganha vida após Karlo esculpir um menino nele. “Nasce”, assim, Pinóquio, um menino de madeira com sede de conhecimento. Porém, ao conhecer o teatro e ter um gostinho da fama, o jovem Pinóquio decide seguir com o circo, sem nem perceber as reais intenções de Barabas (Fedor Bondarchuk), o dono do estabelecimento.
Misturando live-action com efeitos visuais para os personagens mágicos, a adaptação russa de ‘Pinóquio’ traz em sua história uma mudança radical que é facilmente sentida por quem assiste: partes essenciais da história foram suprimidas e/ou alteradas para dar espaço para as cenas musicais – que são muitas. O resultado é um filme infantil longo, com mais de uma hora e quarenta de duração, com umas dez músicas originais e coreografadas em cena mas que não conta a parte da baleia e que simplesmente optou por trazer um Pinóquio que não mente e nem tem questões com a mentira.
O roteiro escrito a seis mãos, ao contrário, faz tudo acontecer meramente por conta da inocência genuína de Pinóquio: ele é enganado pelos outros, que roubam, mentem, dissimulam, mas para o jovem menino, tudo que acontece é pura diversão ou simplesmente vê o bom em tudo. Sem maldade até mesmo nos vilões da trama, fica difícil até mesmo conectar a reviravolta da história, afinal, mesmo inocente, Pinóquio causa algumas coisas, mas com os vilões não-maus, fica confuso discernir a motivação dos personagens.

Ainda assim, esse novo ‘Pinóquio’ impressiona pela qualidade técnica dos efeitos visuais, o que imprime grande valor de produção. As cenas do menino de madeira, seus movimentos, nos fazem acreditar, e os detalhes são absurdos (como, por exemplo, o efeito da réplica de sombra, quando Pinóquio faz as coisas e, mesmo não sendo ele mesmo um live-action, tem sombra nos objetos e cenários do filme). E, por ser um musical, também impressionam a quantidade de músicas originais para o longa e a coreografia das mesmas – em especial a cena final, típica de filmes musicais, quando parece que a produção encerra e todo mundo canta, dança e se abraça; a quantidade de figurantes (e todos caracterizados) preenche a tela de ponta a ponta.
O novo ‘Pinóquio’ é bom em demasia. Todo mundo é bonzinho, a trama é boazinha, ninguém é mau e todo mundo tem sua redenção. É quase uma cartilha de bons modos, excluindo partes importantes da trama original para rechear a versão com músicas animadas para as crianças, trazendo uma leitura segura, porém sem emoção, do clássico conto de fadas.



