Há filmes que chegam devagar, como quem abre uma janela. Outros entram de repente, trazendo consigo o ruído da estrada, a poeira de um lugar distante ou uma pergunta difícil de esquecer. Na Mostra Nacional de Curtas do 6º Citronella Doc, dez histórias ocupam a tela para lembrar que o Brasil não cabe em uma única paisagem, muito menos em uma só maneira de contá-lo.
A seleção reúne “Logos”, “Caldeirão”, “Thayara”, “A Pele do Ouro”, “Cordel da Marujada”, “Vinte Vinte Quatro”, “Escudo”, “Minhocuçu”, “Cordões e Sinos de Além-Mar” e “Os Arcos Dourados de Olinda”. São dez curtas exibidos em duas sessões, com durações e propostas distintas, que atravessam memórias, territórios, identidades, conflitos e formas de resistência sem transformar nenhuma dessas palavras em meras alegorias.

Em “Logos”, uma viagem de carro embaralha o tempo depois de uma internação hospitalar. E ao longo do caminho, Britney é levada por suas lembranças em uma tentativa de autocompreensão e autodescoberta, após sobreviver aos horrores da Covid-19. Difícil de assistir e ousado à sua maneira, o curta é um íntimo diário corajosamente aberto para o público. Já em “Caldeirão”, o passado retorna para o presente com o resgate de um pequeno povoado às margens de um açude. Costurando lembranças de um tempo que agora existe apenas em imagens antigas, a produção é um saudoso álbum de memórias do interior do Brasil.
“Thayara” acompanha uma mulher indígena da etnia Kaingang que leva toda sua história em apresentações em escolas. Entre a necessidade de complementar a renda e o desejo de preservar suas raízes, o curta nos leva a uma personagem única, atravessada por reflexões sobre pertencimento, identidade e o valor de suas origens. Já em “A Pele do Ouro”, os diários íntimos de Patri nos conduzem para uma viagem entre sua infância na Venezuela e os riscos da busca pelo ouro na Amazônia brasileira. Através de uma direção intimista e autoral, contemplamos a vida da mulher no garimpo e o fardo que isso lhe traz.

Há ainda curtas que aproximam o cinema da música, da oralidade e da importância em manter viva as tradições locais. “Cordel da Marujada” direciona nossas atenções para a Amazônia, através da Marujada de Quatipuru, uma manifestação cultural local. Transformando a memória de um povo em cinema, o filme celebra a arte de fazer poesia e rima em contextos pouco esperados e cria uma ponte entre a religiosidade paraense e o público.
“Cordões e Sinos de Além-Mar” apresenta as Congadas de Minas Gerais. Sua abordagem experimental e original ajudam a traduzir um movimento cultural e religioso único e particular. Em meio à mistura da fé católica com a herança africana, sons de batuques e tambores anunciam a chegada de uma festa, nos transportando também para uma atmosfera quase transcendental. Já “Os Arcos Dourados de Olinda” esmiuça um fato histórico esquecido pelo tempo: como a cidade nordestina se tornou a primeira a fazer um McDonald’s falir? As respostas chegam a partir de uma abordagem divertida, que desenvolve uma linha do tempo desde o fim da Guerra Fria até a expansão da franquia ao redor do Brasil.

Mas é com “Vinte Vinte Quatro”, “Escudo” e “Minhocuçu” que a mostra direciona seus holofotes novamente para debates mais políticos, reunindo olhares que partem de experiências particulares para abordar questões socioculturais. Adentrando em temas como o encarceramento socioeducativo, operações policiais controversas e a conflituosa e endêmica presença do minhocuçu (minhoca gigante) em Minas Gerais, esse recorte da Mostra Nacional de Curtas é uma provocação. Estes filmes não oferecem uma resposta única sobre o país. E talvez sua força esteja justamente aí: cada produção abre uma fresta, deixa entrar uma luz diferente e permite que o espectador complete o que a imagem apenas começou a mostrar.
E a diversidade de temas não transforma a sessão em uma sequência pesada de diagnósticos. Há espaço para a surpresa, para a beleza, para o humor e para o prazer de acompanhar uma história bem contada. O entretenimento, aqui, não funciona como distração das questões importantes. Ele é a porta de entrada para elas. Primeiro, o filme chama o olhar. Depois, nos instiga a expandir essa experiência através das rodas de conversa pós-sessão.
É nesse intervalo — entre o fim da projeção e o momento em que alguém decide comentar o que viu — que os curtas nacionais encontram sua dimensão mais potente. Eles não pedem que o público abandone o mundo real, mas que retorne a ele com novas percepções.


