Crítica | ‘Protocolo de Extermínio’ não consegue decolar por não saber que caminho seguir

Adria Arjona vem ganhando reconhecimento significativo e merecido no cenário do entretenimento – e, desde que se eternizou em produções como ‘Emerald City’ e ‘Andor’, é destaque em diversas incursões cinematográficas. Apenas nos últimos anos, podemos citar seu trabalho em ‘Assassino por Acaso’, trabalhando ao lado de Glen Powell; no suspense ‘Pisque Duas Vezes’, que se tornou uma das grandes surpresas de 2024; e a impecável comédia romântica adulta ‘Amores à Parte’, que se tornou um clássico instantâneo do gênero após chegar aos cinemas. Agora, ela retorna às telonas com o vindouro suspense de ação ‘Protocolo de Extermínio’, que tem lançamento agendado para o dia 1º de outubro no Brasil.

Na trama, Arjona interpreta Celeste, uma ex-fuzileira do exército dos Estados Unidos que, anos após seu último e trágico combate, vive em uma área de trailers no interior do país, supervisionando outros “forasteiros” ou rejeitados que tentam encontrar conforto em meio à aridez da solidão. Tentando lidar com os traumas que carrega consigo, ela luta para manter a guarda compartilhada da filha, Daisy (Blake Kennedy), cujo pai está tentando levá-la para longe. Porém, o que ela não imaginava é que seu pacato cotidiano viraria de ponta cabeça do dia para a noite.

Em paralelo ao arco de Celeste, somos arrastados a uma trama governamental muito perigosa que se desenrola não muito longe dali, convidando-nos aos conhecidos tropos das narrativas conspiratórias da época da II Guerra Mundial que ainda inspiram romancistas, roteiristas e dramaturgos – e que envolvem experimentos humanos promovidos por nazistas para alcançar o “soldado perfeito” ou “supersoldado” (uma máquina de guerra imbatível e geneticamente modificada que tem a capacidade de subjugar qualquer um que se coloque em seu caminho). E, em meio a isso, o insano e psicótico cientista Hans Kammler (Dan Stevens), parece ter alcançado esse objetivo com três ex-soldados que, como podemos imaginar, saem do controle de seus “mestres” e se lançam a uma sangrenta matança interminável que os leva até a casa da protagonista.

Toda a estética do longa-metragem é inspirada em videogames – com referências que variam desde ‘Resident Evil’ até ‘Bioshock’. Aqui, o diretor Adam Wingard promove uma espécie de sequência espiritual do thriller ‘O Hóspede’, lançado em 2014, trazendo uma vibrante e crua continuidade que, infelizmente, não alcança a mesma originalidade – apesar de alguns ápices de criatividade que são destinados à performance de Arjona. Transformando-a em uma anti-heroína improvável que, mesmo marcada por uma personalidade complexa, protege aqueles que ama, os breves noventa minutos de projeto unem a arte digital à arte fílmica em frenéticas sequências que mais parecem uma colcha de retalhos do que uma obra concisa e sólida.

Diferente de outras produções, o maior problema de ‘Protocolo de Extermínio’ é sua pouca duração. Aliando-se ao roteiro de Simon Barrett, com quem criou a história, Wingard não tem tempo o suficiente para nos apresentar aos personagens ou fazer com que o público crie laços firmes o suficiente para se importar com seus respectivos arcos – livrando-se da maior parte deles em escolhas apressadas e que não fazem muito sentido. Mais do que isso, o cineasta preza mais pela afeição visual do que pelo conteúdo, arquitetando pontuais cenas inspiradas pautadas na urgência do vermelho e na melancolia do azul – e usando a fotografia de Oren Soffer para denotar a eventual ruína dos personagens.

Outro obstáculo que Wingard enfrenta é a repetição estilística: diversas construções aparecem mais de uma ou duas vezes, tentando reafirmar a sombria e intrincada atmosfera do projeto, porém, perecendo em uma redundância cansativa e que soa como um esforço preguiçoso de causar choque. Não é surpresa que várias escolhas técnicas e artísticas bebam de incontáveis produções, desde a visceralidade tarantinesca de ‘Kill Bill’ (que faz uma homenagem contundente ao figurino utilizado por Celeste) às pulsões eugenistas das adaptações de ‘A Ilha do Dr. Moreau’ – e uma breve menção a ‘Aliens, o Resgate’ que não tem qualquer espaço de desenvolvimento no filme.

‘Protocolo de Extermínio’ poderia ter funcionado muito melhor se acreditasse no próprio potencial e se não se rendesse a um tristonho pedantismo – mostrando que o projeto se leva muito a sério para oferecer entretenimento ou qualquer indício de crítica social. Todavia, Arjona se mostra confortável o bastante para embarcar nessa loucura cinematográfica e, no geral, merece reconhecimento por “tirar água de pedra” e nos entregar um pouco de ritmo e dinamismo a uma narrativa que já nos foi contada várias e várias vezes.

Lembrando que o filme estreia em 1º de outubro nos cinemas nacionais.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.