Crítica | ‘Rapsódia – O Musical’ é uma gema do teatro independente e a melhor peça do ano

‘Rapsódia – O Musical’ é um projeto bem diferente do que estamos acostumados: após ter estreado no Rio de Janeiro após uma década, a peça passou por uma remodelação estrutural e criativa que culminou em sua estreia nos palcos de São Paulo, na Sala Experimental do Teatro B32, e que se configurou, desde seu début no começo do mês, como uma das joias do cenário independente por seu caráter inovador e original, mergulhando de cabeça na cultura nacional e rearranjando conhecidos tropos do terror, da comédia e do próprio musical em uma explosiva e hilária narrativa.

Criada e dirigida por Mau Alves (‘Glam’), que também entra como um dos personagens principais e produtor da atração, a trama acompanha o tímido e estranho Pátrio (Felipe Assis Brasil), um jovem que se muda para a fictícia cidade de Rapsódia após ser chamado para trabalhar com o primo distante, Jeremias (Conrado Helt). Pátrio é escalado como braço-direito de Jeremias em uma fábrica de sabão, cujos estranhos funcionários e dono escondem um segredo que o protagonista está determinado a descobrir – e que se esconde em um críptico porão trancado a sete chaves. A partir daí, Pátrio se vê engolfado e arrastado para uma complexa artimanha que se estende por breves uma hora e vinte e que nos arrebata logo nos primeiros segundos.

Diferente da temporada no Rio, a nova versão de ‘Rapsódia’ tem seu escopo diminuído, tirando os atores do clássico palco italiano e os aproximando do público em uma investida imersiva e que quebra a quarta parede de maneira espetacular. Alves, que une forças a Julia Morganti e a Rafael Ramirez para dar vida ao projeto, esquadrinha um pot-pourri que presta homenagens a clássicos e populares musicais e que, ao mesmo tempo, abraça certos convencionalismos para celebrar e a cultura nacional em uma vibrante incursão – e que reitera a importância do teatro independente e a arte pela arte. Mas não se enganem: essa predileção criativa não é focada em uma estrutura parnasiana e sólida, mas se destrincha a ponto de transformar a peça em uma entidade viva, em contínua expansão e que convida os espectadores a integrar a história de forma inesperada.

Cada personagem tem seu momento de brilhar – e a decisão de tirar o coro foi certeira, considerando o espaço onde o musical é encenado. Brasil e Helt nos presenteiam com performances fabulosas, funcionando como partes de uma mesma moeda que digladiam em um arco friends-to-enemies movido a constantes quebras de expectativa e a rendições vocais cintilantes; Lurryan, Jofrancis e Igor Miranda, interpretando os “capangas” de Jeremias”, divertem-se em uma releitura inesperada do trio de hienas de ‘O Rei Leão’, fomentando o caráter despojado e jocoso do enredo como Coné, Catarina e Horácio, respectivamente; Luan Carvalho, Julia Morganti e Marília Di Lorenço, formando o grupo de prostitutas do cabaré local, pautam suas atuações em desconstruções de Femme fatales; e, completando esse time irretocável, temos Mau encarna Tobias, mordomo e mestre de cerimônias dessa arrepiante jornada.

Como mencionado, o musical é uma irruptiva mixórdia de estilos que celebra a importância do teatro: as maquiagens, fruto da competência inexplicável de Alisson Rodrigues, parecem ter saído de ‘A Noiva Cadáver’ – enquanto algumas cenas pegam páginas emprestadas de produções icônicas como ‘Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet’ e ‘Moulin Rouge’, talhadas sob uma ótica interessante e que promove um respiro de originalidade bem-vindo e imprescindível que entra em conflito com um cenário mainstream marcado, agora, pela mercadologia do que por pulsões artísticas dignas de nota. Ainda nesse aspecto, a atemporalidade propositalmente anacrônica promovida por cada ínfimo detalhe do projeto estende-se para a simples e funcional coreografia de Clara da Costa, os impecáveis figurinos assinados por Ùga agÚ e Fê Faria, e a cenografia cortesia de Lurryan.

Um dos elementos que mais nos chamam a atenção é a forma como o non-sense é explorado, transformando-se em personagem ativo de uma trama cujos personagens são pincelados com menções à commedia dell’Arte e até mesmo a populares sitcoms televisivas que explodem em cena. Ora, temos inclusive duas sequências que rendem-se à câmera lenta e ao flashback, construindo uma metadiegese metalinguística de nos tirar o fôlego. E a cereja do bolo vem com a presença de Tony Lucchesi, tomando as rédeas como diretor musical, aliando-se a Sarah Benchimol, promove um expressivo encontro entre bolero, tango, bubblegum pop, rock, samba e inflexões sonoras que nos arremessam aos vaudevilles franceses dos anos 1960.

‘Rapsódia – O Musical’ é uma gema do teatro independente e reafirma a importância desse segmento artístico dentro de um escopo que costuma menosprezá-lo. É notável a paixão que cada membro da equipe técnica e criativa demonstra com esse projeto, auxiliando na consagração da peça como o melhor lançado no circuito em 2025 – e que precisa a nossa atenção.

Para informações sobre datas e ingressos, clique aqui!

Notícias

Charli XCX divulga prévia de “Camera”, nova faixa de seu próximo álbum de estúdio!

A cantora, compositora e produtora Charli XCX divulgou uma prévia de "Camera",...

Os 10 Melhores Filmes do Ano (Até Agora)

Já passamos da metade do ano – e isso...

‘V/H/S/9’ vem aí…

O nono filme da franquia 'V/H/S' ganhou novidades! De acordo...

Tom Holland revela o que aprendeu com Zendaya sobre atuação

Em entrevista ao Entertainment Tonight, Tom Holland compartilhou o...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.