Dario Argento se transformou em um dos pilares do terror e do giallo no cenário cinematográfico e, por seu expressivo trabalho principalmente nas décadas de 1970 e 1980, é alcunhado como o Mestre do Horror. Ao utilizar os conhecidos tropos do gênero para explorar a loucura humana, Argento eternizou vários títulos de grande apreço pelos cinéfilos – incluindo sua popular trilogia conhecida como ‘As Três Mães’. A saga fílmica nos apresentou a três poderosas bruxas destinadas a governar e a subjugar o planeta, tendo início com o que podemos considerar um dos longas-metragens mais influentes da sétima arte: ‘Suspiria’, que ganhará um merecido relançamento em 4K nos cinemas brasileiros a partir de 23 de abril.
A trama é centrada em Suzy Bannion (Jessica Harper), uma jovem bailarina que veio dos Estados Unidos para a cidade de Freiburg, na Alemanha, a fim de estudar na prestigiada escola de ballet conhecida como Tanz Akademie. Ao chegar lá, ela se depara com uma das estudantes, Pat Hingle (Eva Axén) fugindo da instituição ao ser tomada pelo mais puro medo, em disparada para a sombria floresta que circunda o local. Suzy é forçada a dormir na cidade ao ser impedida de entrar nas facilidades da Akademia, retornando no dia seguinte para descobrir que algo muito sinistro se esconde nos corredores da escola e que, como ela pouco a pouco percebe, coloca a vida de cada uma das estudantes em perigo iminente.

Suzy se torna centro de uma espécie de conspiração que cresce cena a cena e que conta com uma série de eventos misteriosos que tornam toda essa arrepiante jornada ainda mais suculenta e instigante. A protagonista, por exemplo, descobre através de Sara Simms (Stefania Casini), outra bailarina da academia, que Pat agia de maneira muito estranha antes de fugir da instituição e, eventualmente, foi assassinada; Sara também lhe conta sobre a taciturna e enigmática figura da diretora da escola, conhecida como Helena Markos, cujas feições nunca nos são reveladas, mas que marca presença através de uma aura quase intangível, acompanhada de uma atmosfera agourenta e angustiante.
Não demora muito até que Suzy perceba o que, de fato, a Akademie é: à medida que várias estudantes começam a desaparecer, incluindo Sara, a personagem principal descobre que a diretora, na verdade, é uma poderosa líder de um clã de bruxas (que descobrimos ser conhecida pelo nome de Mater Suspiriorum na sequência ‘Inferno’, de 1980), cuja força vital provém de sacrifícios humanos. Sem a líder, o clã não pode sobreviver – e é a partir daí que Suzy descobre um jeito de impedir que o reino de caos e de morte tenha continuidade, culminando em uma epopeica resolução regada a chamas e a ruínas que serviria de base para diversas produções do gênero.

A produção é baseada na coleção de ensaios ‘Suspiria de Profundis’, assinada pelo romancista britânico Thomas De Quincey, cuja tradução do latim é “suspiros das profundezas”. Quincey explora o processo da memória quando influenciada pelo uso de drogas alucinógenas, em especial o ópio (uma das substâncias mais conhecidas e perigosas que causou uma crescente epidemia no século XIX). Com o objetivo de explorar os cantos mais obscuros da mente humana, o autor foi relido através de um estilizado arauto audiovisual que permitiu a Argento explorar essas delineações através de pulsões psíquicas de tirar o fôlego e, ao mesmo tempo, imortalizar um dos maiores filmes de bruxas de todos os tempos.
Enquanto Argento se tornou muito conhecido por suas incursões giallo, ‘Suspiria’ se apropria de conhecidos tropos do subgênero para construir uma fábula sobrenatural e sua magnum opus. Temos o uso marcante de cores quentes, em especial o vermelho-sangue e o escarlate, um indicativo constante de um perigo inescapável – e cujo proposital excesso é acompanhado de longas sequências cênicas e uma explosiva e dissonante trilha sonora imbuída em rock progressivo e assinada pela prestigiada banda Goblin, ao lado do realizador.

O diretor e roteirista, adaptando os escritos de Quincey ao lado de Daria Nicolodi, tem uma ideia muito clara do que quer fazer e atinge um ápice criativo que imediatamente nos arrebata – e que funciona muito bem dentro dos breves cem minutos de tela. A fotografia encabeçada por Luciano Tovoli reitera o magnânimo escopo da escola e dos cenários secundários – tanto com o prédio residencial em que Pat se refugia após abandonar a escola, quanto com o aeroporto em que Suzy desembarca antes de ir para a instituição –, alcançando o que deseja com o uso de lentes anamórficas que conferem um caráter visual elevado ao terror.
Tovoli e Argento unem forças para uma parceria irretocável que se apoia em ângulos exagerados e uma visão panorâmica ampliada que não apenas nos engolfa ainda mais nesse vibrante e assustador universo, mas reafirma a ideia da própria trilogia que tomaria forma nas décadas seguintes – de que a presença das Três Mães funciona como prenúncio para a destruição do planeta como o conhecemos. A dupla, inclusive, nutre de uma simbiótica relação artística que demonstra um apreço e uma habilidade invejáveis para perspectiva e ponto de fuga, optando por ousadias cinematográficas que nos convidam a um espetáculo sinestésico e catártico.

É muito interessante ver como a estética adotada por Argento nos remete ao clássico musical francês ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, em especial pela paleta de cores primárias e pelo design de produção que beira um onirismo inebriante, como visto nos papéis de parede que enfeitam os cenários, ou até mesmo no conflito entre o verde, o vermelho e o azul que auxilia na estrutura torturante que engolfa a protagonista, impactando, assim, na irretocável performance de Harper e sagrando-a um dos emblemas do gênero.
Quase cinquenta anos depois de ser lançado nos cinemas, ‘Suspiria’ continua como um marco não só do cinema italiano, mas da sétima arte como um todo, firmando um legado exemplar que é revisitado constantemente – inclusive por Luca Guadagnino, que comandou um remake em 2018 estrelado por Dakota Johnson e Tilda Swinton.
‘Suspiria’ retorna aos cinemas nacionais no dia 23 de abril.


