Crítica ‘Ronaldinho Gaúcho’ | Minissérie do ‘Bruxo’ na Netflix entretém, mas falta magia

CríticasCrítica 'Ronaldinho Gaúcho' | Minissérie do 'Bruxo' na Netflix entretém, mas falta magia

O futebol brasileiro é riquíssimo em personagens. Pouquíssimos países no mundo produziram tantos personagens tão exóticos e lendários quanto o Brasil nos esportes, principalmente no futebol. Não apenas pelo contexto social em que esses jogadores surgiram, mas principalmente porque além de serem grandes personagens, também foram grandes jogadores. E talvez o caso que melhor exemplifique isso é justamente o de Ronaldinho Gaúcho. Nascido em lar humilde, o menino chegou a jogar futebol descalço pela família não ter condições de comprar chuteiras. Quem diria que essa seria a origem do homem que viria a conquistar o mundo e fazer com que milhões de torcedores ao redor do globo viessem a se apaixonar pelo futebol?

Por outro lado, se o Brasil tem essa riqueza de personagens, as produções sobre eles ainda parecem não ter encontrado o tom certo para contar suas histórias. Há uma porção de filmes e documentários sobre craques históricos, como Pelé, Garrincha, Ronaldo, Romário e muitos outros. A grande maioria deles é de uma pobreza narrativa de dar desgosto. Uma porção é incapaz de traduzir a grandiosidade dos protagonistas em cena. Sem contar aqueles que tentam adotar um formato mais tradicional de entrevistas, dependendo apenas de relatos tímidos e histórias que não costumam agregar. Curiosamente, um filme documental que conseguiu derrubar essa barreira foi Senna (2010). Dirigido pelo britânico Asif Kapadia, o documentário tem uma curadoria impecável de informações e imagens de bastidores da vida de Ayrton Senna, o herói brasileiro que conquistou a Fórmula 1 antes de morrer no trágico acidente de Ímola. A trama conta sua história com uma narrativa impecável, construindo heróis e vilões, abordando polêmicas de bastidores e mergulhando de forma honesta e profunda na psique do piloto. É um filmaço!

No caso do futebol brasileiro, o difícil acesso a imagens de bastidores – muitos se perderam com o tempo ou sequer foram registrados em vídeo na época – e o ego dos atletas costuma impor barreiras insuportáveis para o registro artístico nos documentários. Um caso que se destaca nesse meio é o de Garrincha, Alegria do Povo. O filme de 1962 acompanha o anjo das pernas tortas entre seus momentos de atleta no Botafogo e na Seleção Brasileira, com momentos pessoais, como o craque indo ao Centro do Rio de Janeiro para comprar discos e eletrodomésticos. É diferente, é ousado… É um filme que consegue dar a grandiosidade de seu protagonista ao mostrar como ele mal conseguia transitar pela Avenida Rio Branco sem ser tietado por centenas de brasileiros.

Pois bem, acabou de chegar ao catálogo da Netflix a minissérie documental Ronaldinho Gaúcho. Dividida em três episódios de aproximadamente 1h, cada, a produção conta um pouco da vida pessoal do eterno camisa 10, mostra sua chegada à Espanha e idolatria no Barcelona, até sua melancólica volta ao Brasil e a conquista da Glória Eterna no Atlético-MG, finalizando com a polêmica prisão no Paraguai, durante a pandemia, após entrar no país utilizando um passaporte falso. Só por aí já dá para ter uma noção do que esse homem representou para o futebol mundo afora. Porém, a produção parece não conseguir dar essa dimensão de grandiosidade justamente por apostar em um formato tradicional – e apressado – demais.

Ronaldinho e seu irmão, Assis, durante a infância. Divulgação/ Netflix © 2026

O primeiro episódio talvez seja o melhor. Com depoimentos do próprio Ronaldinho, além de nomes como o irmão e empresário, Assis, e personagens presentes nessa história, como o narrador Galvão Bueno, o jornalista PVC e a irmã do ‘Bruxo’, Deise de Assis, o capítulo inicial viaja até a infância de Ronaldo, com relatos sobre como era a infância, da importância do pai, de como a mãe parecia ter uma ligação especial com o caçula e como a vida mudou repentinamente quando Assis virou jogador de futebol profissional e conseguiu colocar a família para trabalhar junto ao clube, dando melhores condições de vida para todos.

É nesse capítulo que o público entende como o futebol deixou de ser apenas um divertimento para o garoto e passou a virar seu dia a dia. Ele acompanhava o irmão nos treinos no Grêmio, ele via as habilidades dos jogadores e tentava replicá-las em campo. Conforme ia crescendo, esse mundo boleiro virou sua realidade, o que acabou facilitando sua adaptação às categorias de base. Ele foi moldado pelo ambiente em que cresceu, o do futebol, quase como se fosse uma obra do destino. Só que capítulos como a polêmica transferência do Grêmio para o PSG são abordados de forma superficial. Não existe uma narrativa ali, assim como também não é utilizado tanto material informativo. É como se fosse algo banal, o que certamente não foi. Basta perguntar para qualquer gremista a opinião sobre o jogador para entender o quanto essa saída foi traumática para ambos os lados. Seria uma oportunidade para esclarecer e passar a limpo esse caso, mas a produção não consegue extrair nada além do superficial.

Assis, irmão e empresário de Ronaldinho, é um dos que mais fala na obra. Divulgação/ Netflix © 2026

Da mesma forma, Assis é um personagem tão interessante quanto o próprio Ronaldinho. Mas também se resume ao superficial. São pouquíssimos comentários que trazem novidades sobre as histórias. Até mesmo no capítulo mais polêmico das carreiras dos irmãos, a prisão no Paraguai, a participação é a mais branda possível. Dizendo que foi enganado por alguém e que assume a responsabilidade pelo que aconteceu com o irmão, resultando em um dos capítulos mais pitorescos da carreira do craque, que foi o título do campeonato de futebol do presídio paraguaio, cujo prêmio era uma leitoa de 16kg. Os relatos do Bruxo sobre a prisão são hilários, mas é um caso que merecia mais do que 15 minutos de atenção.

“Com o Ronaldinho, nós não éramos apenas os melhores. Nós éramos queridos” – Joan Laporta.

O segundo episódio é voltado para a ascensão e glória de Ronaldinho, com sua transferência histórica para o Barcelona. Um momento que muitos definem como o renascimento do clube catalão, que vinha de anos e anos de marasmo e fracasso desportivo. Em um casamento espetacular, o brasileiro tomou a camisa 10 do clube e reergueu a instituição, levando o Barça ao Olimpo do futebol e abrindo caminhos para o clube ser o colosso que virou referência entre os anos 2000 e 2010.

No Brasil, por exemplo, o sucesso de Ronaldinho fez com que uma geração inteira de brasileirinhos deixasse de sonhar com um dia virar jogador de seu clube do coração e passasse a ter como meta jogar na Europa, mais especificamente no Barcelona. Esse é o tamanho do impacto que as temporadas do Bruxo na Espanha causou no mundo. Principalmente naquela temporada mágica de 2005/ 2006, em que conduziu o clube à conquista da Champions League e foi eleito o melhor jogador do planeta. Porém, a minissérie foca apenas nos relatos de Joan Laporta, presidente que contratou Ronaldinho para o Barça, e conta com alguns depoimentos rápidos de craques como Messi e Puyol. O que é frustrante.

Ronaldinho Gaúcho foi o grande amigo e mentor de Lionel Messi no Barcelona. Divulgação/ Netflix © 2026

É frustrante porque a passagem de Ronaldinho pelo Barcelona foi algo grandioso demais para ser abordado de forma tão superficial. Ele praticamente refundou uma instituição centenária com seu futebol encantador e carisma fora do normal. Com sua habilidade, ele fez com que o planeta se apaixonasse pelo time, sonhasse com fazer parte do time, imaginasse ser ele, nem mesmo que apenas por um dia. Mais do que isso, ele viu nascer e treinou Lionel Messi, aquele que entraria de vez no debate com Pelé sobre quem ocupa o posto máximo no Olimpo do futebol. Com a camisa Blaugrana, Ronaldinho fez valer o apelido de “Bruxo” ao enfeitiçar diferentes torcidas com lances impossíveis acontecendo diante de seus olhos. Tanto que ele conseguiu o feito de ser aplaudido de pé pela torcida do maior rival do clube, o Real Madrid, ao acabar com os Galácticos em uma partida histórica.

É um capítulo tão rico e glorioso da história do futebol que poderia ser tema de um documentário exclusivamente para si. Ainda assim, é algo que merecia mais destaque e mais carinho da produção. Até porque a relação viria a ficar mais complexa conforme o desempenho do brasileiro caía, após levar o clube a glórias eternas. O que acabaria culminando na saída para o Milan, que é mencionada quase como uma nota de rodapé na minissérie documental.

Divulgação/ Netflix © 2026

O episódio final é dedicado à não convocação de Ronaldinho para a Copa do Mundo FIFA 2010, na África do Sul, e sua controversa volta ao futebol brasileiro, que contou com um ‘drible’ no Grêmio, que já dava o retorno do ‘filho pródigo’ como certo, e acabou vendo o jogador acertar com o Flamengo, onde viria a ter uma passagem decepcionante para os torcedores, que ficaria marcada por polêmicas, como os atrasos salariais, Assis entrando em uma loja oficial do clube e levando camisas sem pagar sob a justificativa de que “se não pagam meu irmão, não vou pagar também”, e o histórico jogo contra o Santos de Neymar, no Brasileirão de 2011.

Dessa passagem pelo Rubro-Negro, obviamente, a produção só aborda decentemente o jogo contra o Peixe. São relatos, histórias de bastidores e depoimentos muito interessantes sobre o 4×5. Se toda a minissérie documental fosse conduzida com a vontade e esmero que eles falam sobre esse jogo, seria uma obra incrível. A polêmica saída do clube também foi tratada de forma superficial, o que é uma pena, porque foi outro capítulo para lá de pitoresco do futebol carioca. A transferência para o Atlético-MG, em que ele viria a desempenhar similar ao que teve no Barcelona, de chegar à instituição e mudar para sempre o nível do clube no cenário do futebol, também ocupa um tempo considerável de tela, mas merecia mais.

Divulgação/ Netflix © 2026

A conquista da Copa Libertadores da América 2013 e o impacto institucional que a chegada de Ronaldinho Gaúcho teve no Atlético-MG merecia um episódio só para contar essa história, mas acabou precisando dividir tempo de tela com a passagem pelo Flamengo, a prisão no Paraguai e os rolés aleatórios, que viraram marca do jogador após se aposentar dos campos. É como se a minissérie documental não entendesse o tamanho do jogador que decidiu tomar como protagonista, sabe? Três episódios foram muito pouco, criando uma obra apressada e sem muito a dizer. Um dos capítulos mais bonitos do Bruxo nessa passagem pelo Galo, curiosamente, aconteceu na eliminação do Mundial de Clubes, quando os jogadores do Raja Casablanca, incrédulos que haviam acabado de eliminar Ronaldinho Gaúcho, foram até o jogador para pedir fotos, autógrafos e uma peça do uniforme, deixando o brasileiro quase de cueca em campo, tamanha a idolatria que ele construiu. Saber o que foi dito, o que foi sentido naquele momento de tantas emoções conflitantes, poderia agregar tanto à obra, mas foi apenas ignorado.

No fim das contas, por mais irônico que possa parecer, o grande pecado dessa produção sobre Ronaldinho Gaúcho foi ser protocolar demais. Por ser a biografia de um jogador que encantou o mundo por sua imprevisibilidade, contar essa história de um meio tão engessado, tão tradicional e superficial tirou qualquer possibilidade de magia que essa história precisava. É uma produção esquecível e frustrante, bem aquém do ícone retratado em cena.

Ronaldinho Gaúcho está disponível no catálogo da Netflix.

 

Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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