Crítica | Sintonia – 3ª Temporada introduz luta política à trindade funk, crime e fé

Na quebrada, antes de puxar o gatilho ou atirar uma pedra, as tensões são discutidas numa roda entre os “chefes” da comunidade. Dali sai o veredito do caso: perdão, reparação ou morte. Lançada em 2019 por Konrad Dantas (a.k.a Kondizilla), Felipe Braga e Guilherme Quintella, Sintonia, desde a primeira temporada, constrói uma intensa montagem e suspense a partir dessas rodas entre oponentes. A terceira temporada volta no ritmo das outras e inclui um novo tema: política. Assim, o enredo adiciona pimenta nas vidas agitadas dos amigos Doni (Jottapê Carvalho), Rita (Bruna Mascarenhas) e Nando (Christian Malheiros).

Os atores estão bem mais à vontade nos personagens e os “moleques” da Vila Áurea giram novas engrenagens. Em uma virada de rota, o primeiro episódio já começa com o relacionamento apaixonado e consolidado de Rita e Cleyton, o Formigão (MC M10). Após sua conversão ao evangelho de Cristo e o abandono da vida do crime, o jovem reencontra igualmente o caminho aos braços da jovem serva do Senhor. 

Para a moça, o filho do pastor Levi (Bruno Gadiol) é carta virada, mas não engolida. Seus laços com a comunidade e seus passos em direção à cúpula da igreja começam a incomodar a direção da “casa de Deus”. Seu desafio é disputar com outro membro da congregação a vaga evangélica às eleições de vereador(a) da cidade de São Paulo. Em outro dilema, como anunciado no último episódio da temporada anterior, Nando é agora um traficante conhecido nacionalmente e líder de organização criminosa procurado. 

Com uma carreira política à frente e uma de cantor em busca de consolidação, Rita e Doni se afastaram de Nando? Pelo contrário, o seriado reforça mais os laços entre os amigos de infância, porém todos vivem com cuidados redobrados. O final do primeiro episódio é marcado por uma surpresa na história. Um dos personagens chega perto de acertar suas contas com a justiça, mas como Sintonia busca realidade, o estado é representado por servidores inescrupulosos.

Nesta temporada, os roteiristas buscam mostrar como os jovens lidam com poder, dinheiro e paz de espírito. Se o dinheiro entra, o poder chega e a paz sai pela janela. Doni, de um rapaz sonhador e talentoso, tornou-se um boyzinho preguiçoso, mandão e abusado. A cena inicial é a sua caminhada pelas ruas de Paris, após o hit de parceria com MC Kevinho e Alok estourar e fazer uma turnê pela Europa. O namoro com Tally (Gabriela Mag) segue aos trancos e barrancos e os entorpecentes entram em cena. 

Sintonia não tem receio de colocar seus personagens em situações indigestas ao público, portanto, a empatia criada desde o início nos prende à história dos três amigos da periferia paulistana. Nesta temporada é mais evidente a falta de conselhos que os jovens carecem para construir um bom caminho e fazer melhores escolhas. 

A mãe de Doni é mais ausente depois da morte do marido e o sucesso do filho. Nando sempre teve que ser o chefe da casa desde os dez anos. Os seus “conselheiros”, na verdade, aproveitaram do seu abandono ao estenderem alguns dedos. Já Rita perdeu a mãe, foi rejeitada pelo pai e sua madrinha Sueli (Fernanda Viacava) lhe diz para orar a fim de encontrar respostas. Diversas vezes entre os seis novos episódios, a jovem diz que Deus não a responde. Em dilema entre a fé submissa aos dogmas da igreja e a sua verdadeira personalidade, Rita faz uma escolha política e madura. 

Depois de muito vacilar, Doni busca encontrar o caminho do perdão e da humildade perdida entre views do YouTube. Vale dizer que o personagem de Tally dá uma guinada, de uma influencer bonitinha a uma verdadeira rocha de suporte de Doni. O relacionamento dos dois se assemelha a diversos namoros entre influencers da mídia brasileira, com traições, polêmicas e notas de esclarecimento via Instagram. 

As redes sociais, aliás já presente anteriormente, mostram como as vozes da periferia começam a fazer eco na sociedade através da ferramenta, por exemplo, tem participação da YouTuber Foquinha e menção a Whindersson Nunes. As músicas, infelizmente, ficam em segundo plano desta vez. O seriado realiza apenas dois lançamentos, um da Mc Luzi (Fanieh): Respeita a mãe, e um “plágio” sertanejo de Doni: Foi no Piseiro. O personagem compôs ainda uma baladinha de desculpa para a namorada: No silêncio da noite. 

Além de Paris, a produção da série cruza a fronteira do Brasil-Paraguai, onde Nando começa a fazer “carreira internacional”. Ao seu lado, depois de dez anos preso e de diversas conversas por celular, Badá (Sandrão RZO) reaparece na comunidade. Após o nascimento do segundo filho, as tentativas de Nando de fazer um “último trabalho” para sair do crime o fazem perder diversas coisas, pessoas e a si mesmo. 

O enredo peca, às vezes, por romancear as escolhas da vida em comunidade, mas ao mesmo tempo é um roteiro que permite dar camadas e mais camadas a personagens que são meramente estampados nos jornais e julgados pelas outras classes sociais: é o funkeiro, o traficante, a beata da política. Trazer essas figuras subjugadas como protagonistas de um seriado é transmitir entendimento sobre vivências e dar um olhar mais empático ao cotidiano das nossas periferias.

Por essa e outras, entre erros e acertos, a série Sintonia continua dinâmica, interessante e potente. O episódio final é um conflito de guerra sem solução fácil. Espero, portanto, a quarta temporada e, acredito, a conclusão da trajetória desse trio.

Notícias

Bradley Cooper estrelará novo live-action de ‘G.I. Joe’

De acordo com o Deadline, Bradley Cooper ('Nasce uma...

‘River’: Terror slasher com Jane Levy e Jessica Rothe ganha data de estreia

A Universal Pictures e a Blumhouse finalmente anunciaram quando...

Oi? Megan Fox vira “remédio” para disfunção erétil em ousada campanha

Megan Fox encontrou uma função bastante inusitada para sua...

Kathleen Kennedy se diz “aliviada” de deixar a Lucasfilm após 14 anos

Kathleen Kennedy revelou que sentiu “um pouco de alívio”...

Lulu Wilson retorna no teaser da sequência ‘Becky 3’; Confira!

A sequência 'The Last Temptation of Becky' (A Última...
Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.