Crítica Netflix | Sintonia – Segunda Temporada Evolui e Prepara Continuação

A excelência de Sintonia, desde a primeira temporada e ainda mais nessa segunda, é encontrar fluidez, autenticidade e vibração no cotidiano da periferia de São Paulo, tal como diz o título. Com produção de Konrad KondZilla e os irmãos Caio e Fabiano Gullane, responsáveis pelos sucessos Até que a Sorte nos Separe (2012) e Que Horas Ela Volta? (2015), a série da Netflix apresenta o dinamismo dos jovens e a perseverança de tratar de assuntos fortes e variados com efetividade. 

Com trajetórias em direções distintas, Doni (Jottapê Carvalho), Nando (Christian Malheiros) e Rita (Bruna Mascarenhas) mantêm uma admirável amizade, apoiada na hombridade compartilhada desde a infância. Essa parceria é a base da narrativa, a qual alimenta de maneira equilibrada os pontos divergentes entre eles. A dinâmica é possível devido à compreensão e ao companheirismo que sobressai às suas escolhas dúbias. 

O primeiro episódio é exatamente sobre a família que a gente escolhe. A partir das cenas da infância dos três, os traumas de Nando, as decepções de Rita e os sonhos de Doni são postos em evidência aos espectadores. Nesta caminhada, Sintonia se aproxima dos seus protagonistas e mostra como cada um lida com os seus desafios e incertezas sem baixar a cabeça e com as armas que têm às mãos. 

Neste ponto, o roteiro de Felipe Braga (Marighella) e Guilherme Quintella (Pagliacci), entre outros, destaca-se de várias produções sobre as periferias brasileiras. A violência está presente, mas a diversão também tanto quanto a fé, o trabalho e as relações amorosas e de amizade. Nesse universo, cada um desses elementos ganham novas cores e olhares, como pequenos conflitos entre classes sociais. 

A começar pelo interesse de Doni na social influencer Tally, vivida pela instagrammer Gabriela Mag, e o encanto de Rita pelo filho do pastor, Levi (Bruno Gadiol). Ambos vão sentir que o esforço abre portas, mas o passado sempre gera reservas aos outros. Já no cenário musical, como na primeira temporada, a nova fase apresenta duas composições inéditas de MC Doni, uma ao lado de Fanieh e outra com Alok e MC Kevinho. 

Por outro lado, Nando ganha mais poder no crime e afasta-se da sua família. Ao contrário dos seus sonhos de menino de tornar-se empresário, a realidade do “patrão” da favela é de ameaças, vinganças, traições e pegadas de sangue. Do primeiro ao quarto capítulo, ele precisa lidar com o mistério do roubo de carregamento de drogas da favela. Em consequência desse problema, os dois últimos episódios são intensos e emotivos. Eles fazem apelo ao cotidiano de violência, das mortes de inocentes e da desesperança do povo.

Do mundo real à ficção, a presença do programa Brasil Urgente, José Luiz Datena faz eco às manchetes diárias de maneira impactante e enternecedora. Desse modo, a dor toma conta da folia e a mensagem é clara: a esperança na favela tem sono leve. Por outro lado, a fé no divino recebe atenção com a renovação da igreja da Vila Áurea e o futuro de Rita.

Protagonista do núcleo religioso, a jovem busca acertar as contas com o pai ausente para ser aceita na igreja e percorrer uma nova estrada, longe do fluxo do funk, dos prazeres da carne e perto da proteção da palavra divina. Para isso, ela deixa a vida de camelô, começa a trabalhar no shopping e na organização da reabertura do templo. Pouco a pouco, Sintonia traça um paralelo entre o trabalho das igrejas e a política municipal. Assim como Marat Descartes (Quando Eu Era Vivo) entra para ligar outros pontos na história: a corrupção policial e o movimento do dinheiro do tráfico em boates, restaurantes e motéis. 

A evolução dos atores é notória, tal como do enredo traçado para os amigos Donizete, Nando e Rita. Sem viradas milagrosas e artifícios incríveis, Sintonia consegue manter a trama interessante e ainda surpreende. Os roteiristas têm muitas linhas para a vida desses jovens da periferia e, caso continue com a mesma qualidade (técnica e artística), mais temporadas virão. A terceira é desejada e esperada, basta a Netflix dar o aval, porque as intrigas e a diversão estão garantidas.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.