Após uma trajetória absolutamente ascendente, iniciada na esquecida série familiar Caia na Real e culminada em seu primeiro Oscar, Anne Hathaway se viu em um quase limbo que vez outra acomete vencedores à grande estatueta. Com apenas dois filmes que se destacam desde sua brilhante performance em Os Miseráveis (sendo eles Interestelar e Colossal), a atriz se viu em uma sucessão de papéis medianos, em produções de baixíssimo ou quase nada de impacto. Mas aqui, ela parece retormar o seu fôlego em A Última Coisa que Ele Queria, um thriller de ação empoderado produzido pela Netflix.

Quando o nome de Dee Rees vem à tona, há sempre um bom motivo para se atentar. Indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original por Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, também lançado no Festival de Sundance em 2017, a cineasta possui um olhar narrativo clínico, capaz de extrair e drenar as emoções mais complexas em seus filmes. Dona de uma sensibilidade única, ela transforma contos em experiências sinestésicas, proporcionando uma relação intimista entre a audiência e seus personagens. Foi assim com Bessie, Mudbound e, agora, com A Última Coisa que Ele Queria

Com uma trama forte baseada na obra homônima da aclamada escritora Joan Didion, o thriller traz um equilíbrio ideal entre a ação e o suspense e ainda que seu tempo de duração seja um pouco extenso demais, a parceria Hathaway-Rees sustenta um dinamismo hábil na narrativa, fazendo com que os acontecimentos sejam envolventes, até mesmo nos momentos de menor impacto. Apresentando a protagonista como uma jornalista acostumada com zonas de guerra, o filme ainda nos revela uma atriz madura e durona em sua atuação, regada por camadas complexas que nos entregam uma mulher que é tudo menos simplista. Entre seus dilemas com o seu inconveniente pai (Willem Dafoe) e a dolorosa distância da sua filha pré-adolescente, ela carrega cicatrizes na alma e no corpo, que solidificam ainda mais o quão representativa a personagem Elena McMahon de fato é.

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Sobrevivente de um câncer de mama, a intensidade da protagonista é o que ajuda a reger o interesse do público pela trama. Como alguém que, inadvertidamente, fora inserida em um contexto de tráfico de drogas e armas envolvendo os Estados Unidos e países da América Latina, ela é casca grossa como um herói de ação naturalmente é, mas traz consigo a sensibilidade inerente à mulher. Entre conflitos bélicos e pessoais, a personagem é real e identificável, ainda que seu contexto se difere do mundo cotidiano. E sob a direção de Rees, A Última Coisa que Ele Queria se torna uma intrigante jornada cinematográfica que, embora tenha suas falhas de ritmo e timing, é capaz de se sustentar em suas pouco mais de duas horas de duração.

Trazendo ainda um Dafoe unapologetic e bocudo, a trama nos presenteia com mais uma bela performance do ator, que rouba a cena em sua dinâmica familiar com Hathaway, fazendo de suas breves aparições um deleite para aqueles que admiram o seu trabalho. No entanto, o mesmo não pode ser dito sobre Ben Affleck. Sempre com a mesma expressão estática, o ator é apático e sem sal, como de costume. Seu contraste com a intensidade da protagonista serve apenas para evidenciar o talento de Anne e a falta dele em Ben.

Unindo uma premissa inteligente com um desfecho um tanto inesperado, o novo thriller da Netflix ainda tem tudo que agrada os seus usuários, não poupando os olhos da ação desenfreada, explorando a violência com parcimônia e entregando uma trama que, entre erros e acertos, genuinamente funciona. Divertido e representativo, A Última Coisa que Ele Queria até poderia ser melhor, mas pelo menos não nos deixa à deriva.

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