Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

Como um roubo, a heroína e a metanfetamina sugam suas vítimas, deixando-as à deriva, em um mundo que não parece ser mais o bastante. E em meio a um surto em virtude da indiscriminada prescrição de opióides a pacientes com os mais diversos diagnósticos – dos mais simples aos mais complexos, histórias como a de Molly cruzam as fronteiras da ficção, se transformando em dolorosos relatos reais de vidas que se perderam por tão pouco e a troco de nada. E em Four Good Days, as mazelas e consequências de uma vida subjugada às drogas é o tema de um drama familiar poderoso, estrelado por Glenn Close e Mila Kunis.

Kunis é um rosto familiar para os cinéfilos, sejam eles mais afetuosos ou mais distraídos. Com sua carreira marcada por papéis cômicos que datam desde os idos de That 70’s Show, ela tem se consolidado no gênero menos por ser uma genuína comediante e mais por seu carisma. Mas como alguém que já mostrara seu potencial em Cisne Negro, ela resgata aquele frescor, transformando-se em uma viciada em heroína que assusta ao primeiro olhar, tamanha veracidade e autenticidade. Com o corpo exageradamente esguio e curvado, como se já não pudesse suportar sua cadavérica estrutura, Mila Kunis nos apresenta a história de Molly, uma jovem promissora, mas que após um acidente esportivo, se vê submetida a um tratamento à base de opióides. 

O restante da trama são apenas os frangalhos de uma vida dilacerada pela falta de controle na medicação de pacientes. Mas ao contrário do que parece, Four Good Days não se trata tanto dos efeitos colaterais da imprudência no trato de pacientes. Ainda que este seja um dos pilares que pauta a tumultuada relação familiar entre Molly e sua mãe, Deb (Glenn Close), a cinebiografia baseada em um artigo jornalístico do The Washington Post é um profundo drama sobre a avalanche familiar que sucede quando há um quadro de dependência química em casa. E na produção do colombiano Rodrigo García, Glenn Close e Mila Kunis protagonizam essa penosa e dilacerada dinâmica familiar, em uma sincronia hipnotizante aos olhos. Enquanto a veterana se apresenta inerentemente como um espetáculo à parte, Kunis surpreende a audiência, trazendo uma profundidade crua em sua atuação.



Despindo-se de todos os atributos que até então definiam suas performances nas telas, ela arrebata as atenções de supetão, incorporando os maneirismos e trejeitos adequados, que ajudam a dar ainda mais corpo para o seu trabalho. Se desafiando e nos desafiando a encará-la nos olhos, a atriz entrega uma atuação carregada de dor, abandono e até mesmo frieza. Com seu corpo frágil e franzino, ela ainda estampa em seu rosto as consequências das drogas. Seus grandes olhos fundos e a sujeira impregnada revelam uma maquiagem eficaz, que se incorporam à essa atriz diferente aos nossos olhos. Mais ousada e crível, Kunis é um acontecimento inesperado em Four Good Days e parece escrever um novo tempo em sua carreira.

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Com uma direção emocional focada na expressividade das personagens, a cinebiografia ainda opera com pequenos simbolismos, fazendo de um antigo quebra cabeça o elo de ligação familiar que se perdera em virtude das escolhas tomadas por ambas as personagens. Se sustentando com uma trama envolvente que explora as dificuldades de sustentar um lar em sua integralidade, Four Good Days é ainda um sensível relato esperançoso sobre como é sempre possível começar uma bela história de novo.

 

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