É tão raro. Em uma indústria onde a representação da cultura afro-americana permaneceu limitada por tantos anos, a história do cinema ainda perece por não trazer contos apaixonantes de época que explorem muito mais que a segregação, escravidão e as lei de Jim Crow. E em uma tentativa de gerar um novo clássico romântico, o diretor Eugene Ashe faz de Sylvie’s Love uma apaixonante revelação sobre o amor em meio à culturalidade negra dos anos 50-60, ao som daquele bom e velho jazz, que sempre pautou o ritmo das comunidades afros locais.

Aqui, o que poderia ser uma narrativa simples sobre duas pessoas de classes e contextos sociais diferentes que tentam fazer o amor dar certo se transforma de fato em uma obra representativa sobre um amor pouco relatado nos cinemas. Priorizando sua trama na doçura e simplicidade existente entre os personagens, Sylvie’s Love não é um conto sobre raça, mas valoriza ela como uma forma de se autoafirmar como uma produção necessária. E de fato, é isso mesmo. Nos aproximando das comunidades negras locais, o drama romântico explora a musicalidade enraizada em seu povo, trazendo um relato delicado de outrora que apresenta a mesma vibe musical apaixonante da comédia Nick & Norah – Uma Noite de Amor e Música. Ainda que ambas as produções sejam tão díspares, o vigor e a autenticidade nunca foram tão semelhantes.

E como alguém que ainda faz de seu filme sua própria carta de amor ao jazz, Eugene Ashe transforma Sylvie’s Love no tipo de romance que a comunidade negra sempre quis, mas até então nunca tivera. Trazendo uma Tessa Thompson de voz serena e delicada, o longa nos apresenta essa jovem mulher que se apaixona por um talentoso saxofonista, vivido belamente por Nnamdi Asomugha. Entre discos de vinil e notas musicais profundas, um amor irreverente e proibido surge entre os dois, em um cenário regado por um design de produção de época que inspira o saudosismo.

Com uma fotografia que se imerge no próprio estilo musical empregado na trama, o romance impera do começo ao fim em sua tecnicidade. Explorando as sombras da noite urbana com luzes amareladas de luminosidade reduzida, a produção ainda faz um contraste suave com as cenas diurnas e faz do seu figurino um mecanismo fundamental para ditar sua estética. Aproveitando as padronagens e tecidos texturizados e marcados da época, Ashe entrega tonalidades fortes e quentes, aliadas à cor preta, em takes diurnos, utilizando os tons mais frios e escuros nas tomadas noturnas, transformando cada elemento do filme em um fragmento essencial para a construção final de seu trabalho.

E ainda que em si a narrativa não seja essencialmente original, o que faz de Sylvie’s Love um pequeno novo clássico é justamente sua inerente pureza, capaz de cercar a audiência em uma doce e embalada dança, onde parâmetros e paradigmas sociais da época são quebrados, permitindo que um amor genuíno nasça, tanto dentro como fora das telonas. Emocionante e emocional, o drama romântico é um refrigério para os dias maus, inspirador para os corações desacreditados e tocante como uma boa história de amor precisa ser. E quem diria que esse seria apenas o segundo filme de Eugene Ashe.

 

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