Filme assistido durante o Festival de Sundance 2020

Irreverente, polêmica, inquieta e até mesmo um tanto inconsequente. Adjetivos que tracem a jornada da jornalista Gloria Steinem não faltam, independente das inúmeras percepções alheias a respeito de seu trabalho. Mas fato é que, aos 85 anos de idade, sua voz nunca ecoou tão bravamente. Tão lúcida como na sua intensa juventude, sua defesa pelos direitos da mulher, em meio a uma igualdade de gênero que engloba todo tipo de diversidade, segue em perpetuidade, atravessando gerações e o zeitgeist de cada uma das décadas nas quais trabalhou. E em The Glorias, Julie Taymor explora a jornada desse ícone do feminismo, fazendo um paralelo da sua construção psico social ao longo dos anos, a partir de um contraste entre sua infância, adolescência, juventude e todas as demais pessoas afetadas por cada uma dessas facetas.


Trazer essa história à tona não poderia ser melhor executada se não pelas mãos de  Taymor. Como uma mulher que domina a narrativa e traz um autêntico olhar feminino a respeito da importância do trabalho de Steinem, ela conduz a direção com leveza, delicadeza e precisão, transformando sua percepção sobre a carreira da jornalista em uma experiência cinematográfica sinestésica. Assinando o roteiro ao lado de Sarah Ruhl, ela emprega em The Glorias uma premissa estilística diferenciada, que faz do filme um pequeno espetáculo contemplativo, onde o filtro preto e branco entra em contraste com as vivas cores da narrativa, pautando e distinguindo os momentos em que trama se apresenta de forma mais cronológica e padrão e quando se apresenta como uma espécie de epifania.

Dentro de um antigo ônibus que cruza uma estrada sem fim, as quatros versões de Gloria se comunicam sobre os diversos momentos de sua própria história. A pequena, de uns 5 anos de idade, enxerga a inocência inerente à faixa etária e tem dificuldade de compreender as mazelas de ser uma mulher no século XX. A adolescente transita entre uma maturidade aflorada – em virtude de suas circunstâncias familiares – e um sentimento de compreensão. A versão jovem, vivida por Alicia Vikander, pondera as vezes que se silenciou quando submetida ao machismo. Todas são acalentadas por aquela Gloria que havia de nascer a partir de todas essas anteriores. E pela bela e precisa caracterização de Julianne Moore, conhecemos um lado mais intimista dessa figura tão pública e controversa.


Com uma sensibilidade que beira a poesia, The Glorias evidencia ainda mais o talento cinematográfico de Taymor. Vencedora do Tony Awards por sua belíssima adaptação da Broadway de O Rei Leão, ela traz o seu mesmo legado do teatro para as telonas, fazendo da história de Steinem muitas vezes um enxerto teatral afetuoso. A fim de conseguir exprimir pensamentos que seriam inexprimíveis em simples diálogos, ela vez outra se apropria da mesma estética quase psicodélica empregada em seu outro filme Across The Universe. Nos remetendo àquela fatídica viagem de ácido do musical, ela explana os pensamentos mais íntimos da feminista de forma fantástica, fazendo da fantasia a melhor maneira de falar o que as palavras são incapazes de dizer.

Com um elenco que ainda conta com a sempre notável presença da veterana Bette Midler, a produção ainda traz a talentosa Janelle Monáe. Juntas, elas acrescentam um vigor e um dinamismo ainda maior à trama com suas atuações. E trazendo um figurino que passeia pelas décadas de 30 à 80, The Glorias adapta a biografia Minha Vida na Estrada de forma categórica e pontual, fazendo de seus contrastantes simbolismos e metáforas os elementos certeiros capazes de expressar a extensão de tantas outras Glorias nascidas a partir de apenas uma. 

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