Desde sua estreia homônima até Folklore, Taylor Swift mostrou que consegue dominar o ano de vários modos possíveis. Mergulhando de cabeça no country-pop e no americana, embarcando em jornadas sinestésicas com pop-rock e até mesmo se voltando para o dubstep, Swift nunca teve medo de apostar em gêneros novos que refletissem sua importância e seu legado na indústria da música. Não é surpresa que, nos últimos anos, ela tenha se rendido a diversas incursões bastante diferentes com Reputation, Lover e o recém-lançado álbum supracitado – apenas para nos surpreender mais uma vez com o anúncio surpresa de Evermore, produção irmã de sua jornada de autodescobrimento do indie folk e da música de câmara.

Taylor precisava disso? Certamente não. Aliás, a cantora e compositora dona de nada menos que dez estatuetas do Grammy – e possivelmente com mais algumas vindo em pouco tempo – não precisa mais provar nada para ninguém, não desde seu belo amadurecimento e sua compreensão de que não precisa agradar a ninguém além de si mesma. Taylor já foi refém dos charts e da aceitação de outras pessoas, inclusive das tradicionalistas bancadas da indústria fonográfica, mas, ao completar trinta anos e ao lançar o interessante documentário ‘Miss Americana’ no começo deste ano com a política canção “Only the Young” (uma das melhores de 2020), deixou tudo para lá e se limitou a fazer o que bem entendia. É por essa razão, e por sua competência criativa, que Folklore e suas múltiplas narrativas românticas ganharam o coração do público e ascenderam à sua melhor iteração até hoje.

Com Evermore, Swift deixou claro que ainda tinha muito a contar, ainda mais em um período tão complexo quanto o que estamos vivendo. Enquanto algumas optavam pelas diretrizes escapistas dos anos 1980, como Dua Lipa, ou abriam tendências nostálgicas do disco (Kylie Minogue) ou do mais puro e dançante house (Lady Gaga), ela se embebia numa melancolia pessoal e intimista que deu vida a “Exile”, “Cardigan” e a histórica e tristonha “The Last Great American Dynasty”. Cinco meses depois, suas declamações recheadas de metáforas pungentes não acabaram – e ela nos agraciou com outras quinze faixas originais (ou dezessete, caso estejamos falando da versão deluxe) do lado mais vulnerável e profundo de sua alma. Mas será que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar?

A resposta é sim. É claro que o nono álbum de Taylor não carrega a mesma finesse, por assim dizer, que seu predecessor, mas é uma incrível entrada para alguém que ainda tem muito a nos contar. Evermore é uma continuação que esperaríamos de Folklore, mas talvez carregue consigo uma dramatização muito maior de histórias consideraríamos cotidianas e efêmeras. Swift tem uma capacidade de transformar o mundano em alegórico, o simples em puro êxtase instrumental – e continua fazendo isso com paixão que ainda não vimos. Seja com as conhecidas teclas ecoantes do piano, seja com a utilização de instrumentos bastante originais, essa iteração é exatamente que precisávamos para terminar o ano em seu auge.



Enquanto a obra anterior se rendeu aos suis generis mais independentes, esta aqui que nos chega no meio de uma madrugada de pura ansiedade é ousada em certas partes à medida que mantém uma atmosfera familiar, convidativa e misteriosa. É como se Swift estendesse a mão para seus fãs para um passeio no meio de uma floresta prestes a cair na morbidez de um inverno rigoroso, numa agridoce sensação que nos causa borboletas no estômago e nos deixa numa espécie de êxtase onírica. “willow”, canção que abre o álbum, é uma encantadora e mítica narrativa que traz o inesperado cajon para progressões majoritariamente regidas pela percussão, por minimalistas sintetizadores e um apreço pelo baixo simplesmente apaixonante – um início perfeito, por falta de outro adjetivo.

Swift aposta em certos elementos originais quando colocamos suas canções mais populares lado a lado. Temos a presença devaneante da harpa em “champagne problems” no melhor estilo Florence Welch, contrastando com os dolorosos versos que emergem das profundezas de um âmago marcado pela decepção e pela desilusão; em “gold rush”, joga suas fichas em uma estrutura propositalmente dissonante que nos recorda de Bob Dylan e seus romances musicais – apesar das partes em si falarem mais alto do que o todo; em “no body, no crime”, Swift se une ao aclamado trio de irmãs HAIM para a melhor entrada do álbum e resgata, mais uma vez, as raízes do country com a pontualidade da gaita e melismas poderosos que seriam arrastados para o saudosismo delicioso de “ivy” e até mesmo para a midtempo “dorothea”.

A performer não apenas acerta em cheio ao assinar esses novos contos de romance, de empoderamento e de autoaceitação, mas compreende que o amadurecimento, que eventualmente vem para todos, é algo valioso para ser desperdiçado com coisas banais. Esse invejável entendimento é transmitido inclusive para o majestoso controle vocal, expresso com contundência na empática “cowboy like me”, que une o rock alternativo ao country-folk em uma declaração soturna e controversa (no melhor sentido da palavra, é claro). A sutileza de sua linear extensão nunca se mostra datada – pelo contrário, fornece uma fragilidade que humaniza ainda mais uma artista que já foi martirizada por uma mídia cruel – como a rendição que canaliza para “long story short” e para as aliterações poéticas de “marjorie”.

Mesmo que se acanhe nas introspecções gloriosas de Folklore, Evermore fornece um lado ainda mais íntimo de Taylor Swift, que não tem medo de mostrar quem realmente é e que parece ter se encontrado em um lugar de onde pode explorar o seu melhor e o seu máximo.



Nota por faixa:

  1. willow – 5/5
  2. champagne problems – 5/5
  3. gold rush – 3/5
  4. ‘tis the damn season – 4/5
  5. tolerate it – 4/5
  6. no body, no crime (feat. HAIM) – 5/5
  7. happiness – 3,5/5
  8. dorothea – 4/5
  9. coney island (feat. The National) – 4,5/5
  10. ivy – 4/5
  11. cowboy like me – 5/5
  12. long story short – 4,5/5
  13. marjorie – 5/5
  14. closure – 4,5/5
  15. evermore (feat. Bon Iver) – 3/5
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