Crítica | ‘The Weight’: Ethan Hawke enfrenta jornada brutal de sobrevivência ambientado na Grande Depressão (Berlinale 2026)


Visto no Festival de Berlim 2026

A primeira imagem de The Weight é quase idílica: uma estradinha em meio ao campo aberto, o som dos pássaros preenchendo o silêncio. Até que o ruído de um motor rasga a tranquilidade da cena. Dentro do carro, uma criança no banco de trás — numa época sem cintos de segurança e praticamente sem leis de trânsito — nos transporta para 1933, quatro anos após o início da Grande Depressão nos Estados Unidos, sob o governo de Franklin D. Roosevelt.

É nesse cenário de escassez que conhecemos o personagem Samuel Murphy (Ethan Hawke): um pai viúvo tentando sobreviver com sua filha pequena Penny (Avy Berry) — loirinha, de trancinhas e bochechas rosadas — que rapidamente se torna o centro emocional da narrativa. Ele é astuto, apaixonado por motores e um homem que pensa antes de agir. Inteligência, entretanto, não paga aluguel em tempos de crise.

Despejado e acuado, ele acaba se envolvendo em um confronto com a polícia e é condenado à prisão. A filha vai para um orfanato. A câmera do diretor Padraic McKinley (Orgulho e Preconceito e Zumbis) insiste nos olhos azuis da menina no momento da separação, uma imagem que ecoa ao longo do filme como promessa e ferida aberta.

Na prisão, trabalhando em um campo de mineração, ele conhece o capitão Clancy (Russell Crowe), que lhe propõe um acordo clandestino: transportar ouro pela floresta para evitar o confisco do governo. Em troca, a liberdade assinada antes do prazo, pois no meio de homens que resolvem tudo pela força, ele se destaca por usar raciocínio e estratégia.

Ele escolhe três homens: Singh (Avi Nash), Olson (Lucas Lynggaard Tønnesen) e Rankin (Austin Amelio), cuja confiança é inexistente, e parte para a jornada. Dois capangas são enviados para vigiar o grupo. No caminho, Samuel percebe que não estão sozinhos. Uma nativa americana, Anna (Julia Jones), passa a seguir o grupo pela floresta, movida pelo desejo de proteger seu próprio ouro do confisco do governo.

A travessia lembra uma versão terrosa e desesperada de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001), mas aqui não se trata de destruir um anel, e sim de proteger e entregar ouro. Sete pessoas, seis dias de caminhada, pontes precárias, emboscadas e desconfiança constante. Desde cedo, o filme deixa claro que nem todos chegarão ao destino final.

Durante a jornada surgem fagulhas de um possível romance entre Anna e Samuel. Inicialmente movida apenas por interesse, Anna acaba salvando o protagonista em duas ocasiões. Duas intervenções decisivas que não apenas garantem sua sobrevivência, mas também revelam uma conexão silenciosa entre eles. Há uma tensão contida, um afeto que cresce na adversidade.

Ainda assim, é um romance condenado pelas circunstâncias: a prioridade dele é cumprir a missão para recuperar a filha o quanto antes. E aqui o título ganha força simbólica. The Weight significa literalmente “O Peso”. O peso literal do ouro, carregado nas costas pela floresta, mas também o peso físico da sobrevivência e o peso das escolhas. O filme constrói sua metáfora de maneira clara: o verdadeiro peso não está nos sacos carregados pelos ombros, mas nas decisões que moldam quem somos.

The Weight não reinventa o gênero nem oferece grandes reviravoltas. Sua estrutura é relativamente previsível. Ainda assim, funciona como um bom filme de aventura histórica, sustentado pela presença sempre magnética de Ethan Hawke. Ele entrega humanidade e vulnerabilidade a personagem que poderia facilmente cair no arquétipo do anti-herói condenado pelas circunstâncias, mas que se mantém astuto diante das adversidades.

Mais do que uma história sobre ouro, The Weight é uma narrativa sobre perseverança. E também de esperança do reencontro entre pai e filha. E, acima de tudo, sobre o que escolhemos carregar quando o mundo nos obriga a decidir o que realmente importa.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.