O sentimento de derrota em virtude de uma perda inestimável, o peso da culpa pelo irreparável e irrecuperável e a solidão de se forçar a não superar e seguir adiante são verdades genuínas que já configuraram a vida de todos nós, em algum determinado momento. As marcas dessas feridas calejadas podem até ser difíceis de serem tratadas, mas Uma Invenção de Natal chega à Netflix como uma profunda reflexão sobre cura e recomeços, fortalecendo ainda um fato que possui que é genuinamente bíblico: É só tendo o coração e a fé de uma criança para sermos capazes de enxergar o inimaginável para além dos nossos próprios erros.

Muito mais do que um conto natalino, a nova aventura dramática com pitadas de humor, dirigida e roteirizada por David E. Talbert, é uma obra-prima cinematográfica. Embalada por uma trilha sonora instrumental que traz a atmosfera sazonal impressa em seus acordes, a produção é também um espetáculo visual colorido. Se banhando nas tonalidades comuns da época de Natal – como o verde e o vermelho vibrante, o longa também brinca com padronagens diversas e outras cores intensas, formando uma combinação que hipnotiza em figurinos que dançam diante dos nossos olhos.

Com um design de produção caprichadíssimo, Uma Invenção de Natal é cheio de detalhes e miudezas que transformam o filme em um verdadeiro conto alegórico, à medida que faz dessas tais alegorias apenas um instrumento para nos trazer uma história real sobre redenção. Aqui, um extraordinário e otimista fabricante de brinquedos vê o seu mundo desabar quando sua mais nova invenção fantástica é roubada pelo seu amado assistente. Desolado e sem dinheiro, ele gradativamente abre mão de seus sonhos e da sua imaginação, desistindo de sua família, sucumbindo à uma vida solitária. Tudo muda quando sua perspicaz e esperançosa neta o visita para o Natal, desencadeando em uma jornada de autodescoberta que transformará sua vida para sempre.



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O que mais nos fascina em Uma Invenção de Natal é justamente sua profundidade de ir muito além do gênero em que se encaixa. Quebrando o molde natalino padrão com o qual tanto nos acostumamos, o longa toma os adultos pela mão em direção a uma epifania intimista, onde nos enxergamos no papel do veterano vencedor do Oscar, Forest Whitaker. À medida que o assistimos definhar em uma condição que é o reflexo de uma depressão, ficamos aflitos por tamanha tristeza, conforme também enxergamos sua frustração como parte de um sentimento que também já nutrimos vez outra.

E à medida em que caminhamos nessa trama, mais somos elevados em suas reflexões e sensibilidade, percorrendo por uma jornada onde o riso e as lágrimas digladiam entre si. Levando a audiência aos extremos em fração de minutos, o filme natalino da Netflix sabe equilibrar o seu tom de drama, aventura e comédia com maestria, e suas transições de humor são naturais, permitindo que o público sinta na pele da alegria à tristeza de cada um dos personagens.

Indo a fundo em temas como as relações familiares e suas fragilidades, o longa é ainda um lição de vida sobre paciência, amor, misericórdia, esperança e perdão. Se apropriando de tais assuntos que geralmente são habituais nos filmes sazonais, E. Talbert vem à Netflix para construir o seu próprio clássico natalino e de forma impecável assim o faz, entregando uma produção atemporal que já se imortaliza como um must watch do gênero.



E aqui, John Legend encorpa a narrativa com canções originais surpreendentes, que exploram toda a sua pluralidade artística em músicas que trazem a essência das suas referências – com ritmos ligados ao jazz, hip hop, R&B, gospel e blues. E com números musicais de tirar o fôlego (com destaque para Whitaker e sua surpreendente performance) e um final apaixonante, Uma Invenção de Natal é muito mais do que um presente para a época mais linda do ano. É também um valioso ensinamento que promete marcar gerações a fio. Tanto de crianças, como de adultos.

 

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