007 – Sem Tempo para Morrer, o vigésimo quinto filme oficial da franquia mais duradora do cinema, tem estreia programada em nova data para o dia 30 de setembro de 2021 exclusivamente nos cinemas – após ser adiado do ano passado devido à pandemia. Como forma de irmos aquecendo os motores para esta nova superprodução que, como dito, faz parte de uma das maiores, mais tradicionais e queridas franquias cinematográficas da história da sétima arte, resolvemos criar uma nova série de matérias dissecando um pouco todos os filmes anteriores, trazendo para você inúmeras curiosidades e muita informação.

Desde que Pierce Brosnan foi eleito James Bond em 1995, um estranho fato começou a se acometer sobre a franquia. A cada novo intérprete, sua estreia era recebida com aplausos e a aprovação máxima de crítica e público. Porém, logo no episódio seguinte, a empolgação decaía vertiginosamente. Isso sem dúvida foi prejudicial para a carreira de Pierce Brosnan como 007, já que após um debute eletrizante em Goldeneye (tido como o melhor dos quatro de sua era), a cada novo exemplar os filmes eram recebidos de forma mista até culminarem em Um Novo Dia Para Morrer e a “expulsão” de um incrédulo Brosnan da série. Daniel Craig seguiria pelo mesmo caminho, após uma estreia entusiasmante em Cassino Royale? Saberemos a seguir ao conhecer os detalhes de bastidores de Quantum of Solace. Confira abaixo.

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Produção



Goldeneye e Cassino Royale dividem algumas similaridades além de marcar novas eras da franquia 007 no cinema com mudanças de protagonistas. Uma das principais é ter o mesmo homem dirigindo ambos os filmes. Trata-se de Martin Campbell, cineasta que pode ser conhecido como o reinventor de James Bond e um dos melhores diretores que a franquia já teve. Os dois exemplares comandados por ele são dois dos mais queridos de fãs e críticos, com Cassino Royale indo além e se tornando um grande favorito de todos.

A ideia inicial era que Cassino Royale ganhasse uma sequência em pouco mais de um ano de seu lançamento, o que teria sido um dos períodos mais curtos de intervalo entre filmes da franquia. Finalmente, alguém na EON recobrou o juízo e um intervalo de dois anos foi dado ao lançamento da continuação. Quantum of Solace, um conto num livro de coletâneas de Ian Fleming sobre o personagem, aproveitando o gancho de Cassino Royale (o primeiro livro, que teve os direitos finalmente revertidos), seria utilizado como tema para o vigésimo segundo filme – embora pouco mais que o título tenha sido usado.

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Para a direção, os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson escalaram o alemão Marc Forster, que colecionava sucessos de crítica premiados como A Última Ceia, Em Busca da Terra do Nunca e O Caçador de Pipas, mas não era necessariamente um diretor de ação ou superproduções. Certamente, porém, traria o prestígio para uma produção da franquia. No entanto, o pior aconteceu e entrava em vigor em Hollywood a greve dos roteiristas – que exigiam um reajuste salarial num novo acordo com os estúdios. Isso resultaria numa produção tumultuada para Quantum of Solace. Como os roteiristas oficiais não podiam continuar escrevendo, caso não quisessem aborrecer o sindicato, é dito que o diretor Forster e até mesmo o astro Daniel Craig precisaram assumir e finalizar a trama do filme, a colocando no papel. Isso acabou resultando num filme que pesa na ação, é leve na trama e tem a duração mais curta da franquia.

James Bond



Depois de ter provado que todos estavam errados ao criticarem sua escolha na estreia no papel em Cassino Royale, Daniel Craig era um fator determinante na sequência de tal filme. O ator incorporou um Bond moderno, dinâmico e vigoroso para os novos tempos. Com o físico mais forte, jamais apresentado por um ator no papel, acreditávamos pela primeira vez que 007 seria capaz de desempenhar suas façanhas. Aqui, o ator também aos poucos entrava num modo mais semelhante ao que esperamos de um intérprete no papel. É como se em sua estreia, tudo ainda estivesse numa forma bruta, mas pronta a ser lapidada. E aqui, sentimos essa evolução, com Craig ainda fazendo um James Bond seu e único, porém evoluindo para as características esperadas do espião nas telonas.

Missão Secreta

Pela primeira vez na franquia igualmente, teríamos um filme de James Bond que seria sequência direta e imediata do anterior. Os novos tempos apresentavam a era de Daniel Craig, e uma ligação mais forte entre os episódios, anteriormente lançados sem grandes elos que os levassem para o “próximo passo”. Assim, Quantum of Solace começa imediatamente onde Cassino Royale parou, com James Bond tendo o Sr. White à sua mercê, pronto a exercer sua vingança conta a Quantum, a organização criminosa responsável pelo assassinato da amada de 007, Vesper Lynd no filme anterior. Essa é basicamente uma história de vingança com James Bond misturando “prazer e trabalho”.

A trilha leva o protagonista até Dominic Greene, o líder da organização ecológica (de fachada), preparando um grande negócio envolvendo o tratamento da água na Bolívia. É claro que existe um motivo muito mais sórdido por trás dos atos “benfeitores” de Greene que, entre outras coisas, é responsável pelo assassinato da família da boliviana Camille Montes, única sobrevivente, mas com uma grande cicatriz causada pelo fogo nas costas, que busca sua própria vingança pessoal contra Greene e o General Medrano, parceiros de negociatas escusas.

Bondgirls e Aliados

Curiosamente, Quantum of Solace é um dos únicos filmes da franquia que não possui uma Bondgirl propriamente dita. Bem, ao menos é o que afirma uma parte dos fãs. Segundo os mesmos, o conceito de Bondgirl se refere a uma ou mais personagens femininas que contracenem e desenvolvam alguma espécie de relacionamento amoroso com o protagonista James Bond. Afinal, existem outras mulheres na trama, como a secretária Moneypenny e a chefe M – que nunca foram chamadas de Bondgirls. Sim, existe uma protagonista feminina em Quantum of Solace, e ela é justamente a boliviana Camille Montes, personagem da estonteante ucraniana Olga Kurylenko. O que acontece é que como ambos Bond e Camille estão atrás de um único objetivo de vingança, seus destinos se cruzam, eles até desenvolvem laços de afeto um pelo outro, mas não existe qualquer relação consumada.

Outro fator que entra em jogo para a nula relação carnal entre Camille e Bond, é que o espião havia se apaixonado por Vesper Lynd e com a morte da mulher o agente 007 “fechou para balanço”. Ao meu ver, o ineditismo de uma relação afetuosa, mesmo sem ser romântica, é um diferencial positivo na franquia. O mesmo se repetiria em Skyfall, o filme vindouro. Porém, existem os que dizem que a personagem Camille fica no meio termo entre ter ou não uma relação amorosa com o espião. Fora isso, apesar do bom desempenho de Kurylenko no papel, a atriz foi maquiada para ficar mais parecida com uma boliviana, fazendo uso de um “bronzeado” artificial, o que hoje seria visto como “brown face” de forma negativa.



Quantum of Solace está longe de ser um filme perfeito, e o argumento usado acima para explicar a “não relação” entre Bond e Camille cai por água abaixo quando mencionamos uma segunda personagem feminina, essa sim mais nos moldes de uma Bondgirl. Trata-se da personagem da ruivinha britânica Gemma Arterton. Uma agente do MI6 chamada Fields, ela é o contato de James Bond em sua aventura, e não demora a cair nos charmes do espião e ir para a cama com ele. Ou seja, podemos esquecer a tal castidade devido ao sofrimento. Dois detalhes chamam atenção sobre esta personagem, que tem menos tempo de cena do que gostaríamos. O primeiro é que Fields é assassinada pelo vilão de uma forma a emular o clássico Goldfinger, com uma mulher inteiramente coberta de ouro na cama de Bond. Aqui, Fields é coberta de petróleo. O segundo detalhe é que o nome planejado para a personagem foi Strawberry Fields, cuja tradução é “Campos de Morango” e também uma canção dos Beatles. Os produtores acharam que não condizia com a era mais sóbria de Craig e nunca é citado o primeiro nome da agente no filme – apesar de podermos achar online em vários lugares, como no IMDB.

Quantum of Solace é mais um exemplar ainda sem Q e Moneypenny, porém, ganharíamos a sexta incursão de Judi Dench como M, desde a era Pierce Brosnan.

Vilões

Em matéria de vilões, este é um dos quesitos onde Quantum of Solace mais deixa a desejar. Creio que a ideia por trás da concepção de Dominic Greene tenha sido a do empresário aparentemente respeitável, dono de uma fachada acima de qualquer suspeita, com um viés ecológico e amigável ao meio ambiente, mas que por baixo dos panos é um inescrupuloso rei das falcatruas. E para este tipo ardiloso de crápula, nada melhor do que um intérprete que corresponda na aparência. Assim, Greene assumiu as formas do francês Mathieu Amalric, que é baixinho e franzino, embora excelente ator. Muitos acreditam que ele se pareça com o diretor Roman Polanski, mas aqui no Brasil, devido à sua escolha de camisas no longa, ele recebeu o carinhoso apelido de “Augustinho Carrara”, fazendo referência à semelhança com o personagem de Pedro Cardoso no seriado A Grande Família.


Relatório

A expectativa era grande para a continuação do excelente Cassino Royale, um dos melhores filmes da franquia. E podemos dizer que tal expectativa não foi cumprida. Quantum of Solace é no mínimo decepcionante, em especial por suceder o citado longa que marcou a estreia de Daniel Craig. O vigésimo segundo filme é o mais curto da franquia, refletindo a greve dos roteiristas, onde até mesmo o ator principal precisou contribuir para a história do filme. O maior problema nisso, no entanto, é que faltou história e sobrou ação. Talvez para compensar a trama “incompleta”, as cenas de ação se atropelam em Quantum of Solace e terminam tendo o efeito contrário para os espectadores. É necessário ter momentos mais calmos, que liguem um trecho ao outro. Precisamos de tempo para respirar e assimilar o que acabamos de ver.

No quesito da trilha sonora, o vigésimo segundo filme da franquia trouxe o ineditismo do primeiro dueto na canção principal Another Way to Die. Na música, a música pop do R&B Alicia Keys e o roqueiro Jack White, da banda White Stripes, uniram forças para uma mistura de rock n roll e blues. Porém, a canção, assim como o filme, terminou esquecida, se tornando uma das músicas menos memoráveis, apesar dos talentos, dos últimos anos.

Quantum of Solace foi também o filme mais caro da franquia, reajustando os valores da inflação de 2008. Ou seja, mesmo que tenha feito sucesso de bilheteria, arrecadando mais que seu predecessor, o fato de ter gastado mais também não lhe forneceu grande lucro. Apesar de certa depreciação, este capítulo não é nem de longe um exemplar ruim da franquia, apenas um onde o nível era esperado ser elevado. Muito comparado ao que era visto na franquia de outro espião, os filmes da série Bourne, Quantum é frenético, possui ação “picotada” e incessante, resultando em críticas até mesmo de Roger Moore, o eterno Bond dos anos 1970. Era hora novamente de se organizar e dar um tempo para respirar. Assim, ao invés de dois anos, os produtores resolveram esperar quatro anos até lançar um próximo filme, e valeria muito a espera. Mas isso é assunto para o próximo Dossiê.

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