TÃO COMPLEXO QUANTO UMA NOVELA DAS 8

 

Ficção científica é poderosa quando concilia fantasia com crítica da realidade. Mas, não está imune às trivialidades. Pela proposta, “Elysium” era uma das grandes promessas da temporada. E havia a expectativa por seu diretor e roteirista, Neil Blomkamp, do ótimo “Distrito 9”.

No ano de 2154, a Terra devastada tornou-se uma grande favela, na qual vive a maioria miserável da população. Os mais ricos habitam a estação espacial Elysium (referência aos Campos Elísios da mitologia greco-romana), desfrutando das benesses da tecnologia, como máquinas que curam qualquer doença. Max (Matt Damon), ex-presidiário, trabalha em uma das fábricas androides. Depois de um acidente no trabalho, ele precisa ir à Elysium para se curar, ou morrerá em 5 dias. Também quer ajudar a filha de Frey (Alice Braga), sua amiga de infância. Em troca de um serviço de risco, Max receberá a ajuda de Spider (Wagner Moura) para chegar à estação espacial.

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O filme tem poucas qualidades e muitos problemas de concepção de roteiro. Entre as qualidades está o uso dos efeitos especial – o mínimo para um orçamento de 115 milhões de dólares. A concepção de Elysium impressiona e remete à estação de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Apesar de irregular, há boas sequencias de ação, especial na parte final. A direção não teme a violência, chegando ao gore. Considerando que as produções atuais não mostram o sangue, há méritos na escolha de Blomkamp – não se trata de sadismo do crítico, apenas é algo que transmite mais humanidade para a ação, algo perseguido pela direção.

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Das atuações, três valem destaque. Sharlto Copley, protagonista de “Distrito 9”, faz o mercenário Kruger, em uma atuação forte. O brazuca Wagner Moura está muito bem como Spider, um coiote que faz o transporte clandestino da terra para Elysium, mas nada que se compare com outros papéis. Alice Braga tem atuação regular, mas isso decorre mais de sua personagem do que de seu talento – muito superior. E aqui começam os problemas…

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As personagens são tão planos quanto as de uma novela da Glória Peres. Não há profundidade. Temos tipos. Só faltavam os atores segurarem plaquinhas indicando suas funções. Spider é o mercenário com consciência social. Frey é a médica sofrida que deseja curar sua filha. Max é um miserável que deseja sair da miséria. Delacourt (Jodie Foster) é a política gélida e desalmada e John Carlyle (William Fichtner) o porco capitalista. Apenas o mercenário Kruger tem mais densidade. Esses estereótipos só não implodem o filme por causa da qualidade do elenco.

Tanta uniformidade serve para a criação de uma narrativa esquemática e obvia, previsível para alguém que tenha assistido meia dúzia de filmes de ação ou ficção. O trailer já permite imaginar seu desenvolvimento. O roteiro abre licenças na própria mitologia e aceita furos para facilitar o quesito evolução. A mais gritante é a facilidade com que a nave de Wagner Moura chega à Elysium. E se o filme tem a qualidade de ser enxuto, também pode soar monótono, exceto pela parte final. E aqui uso o critério da plateia: na minha sessão, não notei grande empolgação.


Em entrevista, o diretor-roteirista declarou: “Todo mundo que não tem essa riqueza a quer e vai tentar tê-la, e o Primeiro Mundo provavelmente irá tentar se aferrar e ela, e a coisa vai ficar mais sombria”, e continuou: “O que você, como membro da plateia, acha que deve ser feito?” Bom, já que ele perguntou…

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Discordo da simplicidade da visão política do filme. Ele aponta três grandes problemas: desigualdades socioeconômicas, imigração e problemas ambientais. Ufa! Enfrentar tudo isso com personagens tão planos… coragem! Os culpados são os de sempre: os países ricos, as limitações à imigração, as elites, a maneira predatória com que o mundo gira e o capitalismo de maneira geral. Há uma emulação do discurso a la Occupy Wall Street. Max é um decalque dos 99% da população mundial. Em Elysium, habitam o 1%, a classe dominante que, na busca do lucro, fodeu com o meio-ambiente. A solução é implodir o sistema e criar o mundo perfeito. Sem ironias, se você concorda com algum desses elementos, é provável que o filme lhe agrade.

No fundo, a crítica é generalista, quase infantil. Isto já começa com a dificuldade de traçar o conceito da estação Elysium. Seria outro país ou um bairro nobre? Temos uma única sociedade ou várias? Normalmente, essa ambiguidade bem-vinda. Aqui, torna-se um incômodo. A crítica mais parece um grito de “contra tudo que aí está”. Será que Blomkamp estaria querendo surfar na onda de protestos?

Como falamos de um blockbuseter, não ia comentar a filosofia do filme. Mas, como quase inexistem críticas que toquem no tema – a maioria solta elogios genéricos – e uma das funções da crítica é gerar debates, vale colocar alguns contrapontos.

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Se o alvo é o capitalismo, a economia de marcado, “rádio blá”, sinceramente… Nenhum outro sistema econômico foi tão eficiente. Criou problemas? Sim, mas resolveu muitos outros. Além do mais, não foi criado em laboratório, nasceu da dinâmica social. Realmente não acredito que Blomkamp tenha sido tão estreito em sua crítica.

Como falamos, “Elysium” tem vários alvos. Em homenagem a Wagner Moura, chamemos esse problema de “sistema”. Mais uma simplificação grosseira: derrubando tudo, o bem venceria. Em outras palavras: se o sistema fosse derrubado, as bênçãos dos céus criariam um paraíso terrestre (ao menos na área de saúde…).


Segue-se a ideia de que o homem é bom e a sociedade o corrompe. Não compro essa tese. Os arranjos sociais são imperfeitos e problemáticos porque somos pessoas defeituosas, egoístas, mesquinhas, baixas, pecadoras. O bem e o mal convivem em cada um de nós. Como podemos construir o paraíso se o inferno está em nós? A sociedade é uma construção imperfeita operada por pessoas guiadas por medos e paixões. É como pensar que nossos problemas se resolveriam acabando com Brasília! Desculpa, mas enquanto não abandonarmos a máxima “farinha pouca meu pirão primeiro”, não sairemos do atoleiro.

Os arranjos humanos mais eficientes foram aqueles que buscaram minimizar os males dos nossos defeitos, não os que queriam criar uma sociedade perfeita. Não temos o direito à perfeição, apenas de escolhermos o menos pior, mas, distraídos venceremos! O que “Elysium” faz é expor uma visão utópico. E a dificuldade de criar utopias nas artes é não ultrapassar a fronteira sutil entre o profundo e edificante e a visão infantil e brega da vida.

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Não quero bancar o dono da verdade. Estamos sempre correndo o risco da contradição. Como disse, faço apenas um contraponto, entre outras razões, pelo histórico do diretor. Blomkamp criou uma alegoria poderosa em “Distrito 9”. Mesmo explicito em sua metáfora, o filme desenhou a complexidade do apartheid, de como as pessoas podem ser baixas, de como a ganância de empresas pode não ter limites e como governos podem, sim, servir aos privilegiados. Ao mesmo tempo, não deixou de expor que temos a capacidade de nos humanizarmos. Nessa comparação, “Elysium” é decepcionante, com profundidade de “Salve Jorge”. Mas, ainda aposto no diretor.

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