O cinema brasileiro raramente se aventura pelo território da fantasia de forma tão aberta quanto em ‘Olhe Para Mim’. Exibido na mostra competitiva do Olhar de Cinema 2026, o longa dirigido por Rafhael Barbosa é uma obra que merece reconhecimento pela coragem de suas ambições. Em vez de seguir caminhos mais seguros do drama realista, o cineasta aposta em uma narrativa que mistura luto, sobrenatural e existencialismo para contar a história de um jovem perdido entre o mundo dos vivos e dos mortos.
A trama acompanha Marcelo, cuja vida foi marcada pelo desaparecimento da mãe quando ele tinha apenas dez anos. Incapaz de lidar com essa ausência, ele cresce refugiando-se em lembranças inventadas e vagando por cemitérios, preso a um passado que nunca conseguiu compreender completamente. Quando dois seres misteriosos surgem em seu caminho, ele embarca em uma jornada que atravessa dimensões e coloca em xeque sua relação com a memória, a perda e a própria realidade.
Desde os primeiros minutos, fica evidente que Rafhael Barbosa não está interessado em entregar uma narrativa convencional. Há uma clara intenção de construir um universo próprio, carregado de simbolismos e elementos fantásticos que remetem tanto ao realismo mágico quanto ao cinema autoral contemporâneo. É justamente essa ousadia que transforma ‘Olhe Para Mim‘ em uma experiência interessante, mesmo quando o resultado não alcança plenamente tudo aquilo que se propõe.
O maior mérito do filme está na sua identidade visual. A fotografia de Roberto Iuri é um dos grandes destaques da produção, criando imagens que transitam entre o belo e o melancólico. Cemitérios, estradas vazias e paisagens naturais ganham uma atmosfera quase onírica, reforçando a sensação de que Marcelo habita um espaço suspenso entre diferentes realidades. É um trabalho visual que frequentemente comunica mais do que os diálogos.
Outro aspecto digno de elogios é a maquiagem. Fundamental para a construção dos elementos fantásticos da narrativa, ela contribui para tornar críveis as figuras misteriosas que conduzem a jornada do protagonista. Sem recorrer a excessos, o trabalho ajuda a consolidar a estética peculiar do longa e demonstra um cuidado técnico que nem sempre é encontrado em produções independentes de baixo orçamento.

O elenco também sustenta boa parte do envolvimento emocional da história. Rejane Faria é o principal destaque do filme, entregando uma atuação carregada de presença e humanidade. Mesmo nos momentos em que o roteiro se torna mais abstrato, a atriz consegue manter o espectador conectado às emoções da narrativa. Ulisses Arthur e Luciano Pedro Jr. também contribuem para dar consistência ao universo criado pelo diretor.
Infelizmente, o filme encontra suas maiores dificuldades justamente no roteiro. Assinado por Rafhael Barbosa, Jasmelino De Paiva e Nivaldo Vasconcelos, o texto possui ideias interessantes e temas relevantes, mas nem sempre encontra a melhor forma de desenvolvê-los. Em diversos momentos, a narrativa se alonga além do necessário, repetindo conceitos e situações que já foram compreendidos pelo público. O resultado é um ritmo irregular que acaba comprometendo parte da experiência.
Há sequências contemplativas que funcionam muito bem dentro da proposta sensorial do longa, mas outras acabam tornando a jornada excessivamente arrastada. Em alguns momentos, a sensação é de que o filme está mais interessado em preservar seus mistérios do que em fazer sua história avançar. Isso faz com que a experiência oscile entre momentos de fascínio visual e trechos que testam a paciência do espectador.

Ainda assim, seria injusto ignorar o valor de uma produção como ‘Olhe Para Mim‘. Mesmo com suas imperfeições, trata-se de um filme que busca caminhos próprios e demonstra uma vontade genuína de expandir os horizontes do cinema brasileiro de gênero. É uma obra autoral, ambiciosa e carregada de personalidade, qualidades cada vez mais raras em um mercado frequentemente dominado por fórmulas.
Mais do que um filme completamente bem-sucedido, ‘Olhe Para Mim‘ funciona como uma vitrine para o talento de Rafhael Barbosa. Seu olhar visual, sua coragem criativa e sua disposição para assumir riscos apontam para um cineasta com enorme potencial de crescimento. Se o roteiro ainda carece de maior controle narrativo, a direção demonstra que existe ali uma voz artística que merece atenção.
Ao final, ‘Olhe Para Mim‘ é uma experiência irregular, mas inegavelmente interessante. Um filme que talvez não alcance toda a força emocional e narrativa que busca, mas que revela um diretor disposto a sonhar grande e a explorar territórios pouco frequentados pelo cinema nacional.



