CAMINHOS CRUZADOS QUE SE BIFURCAM

 

O horizonte da Nova York dos anos 20 (belamente fotografado em sépia), somado ao título em português, podem levar o espectador a achar que Era Uma Vez Em Nova York (The Immigrant) é um filme de dimensões épicas. Mas, logo estamos no interior do departamento de migração, diante das irmãs Ewa (Marion Cotillard) e Magda Cybulska (Angela Sarafyan). O quinto longa-metragem de James Gray pode ser lido como um microcosmo que simboliza toda a crueldade, toda sujeira, toda contradição, todos os sonhos e esperanças dos que imigraram para a América.

Neste filme, James Gray demonstra seu crescente apuro estético e controle narrativo. Junto com as esplêndidas atuações de Marion Cotillard e Joaquin Phoenix, basta a primeira sequência para já estarmos afogados naquele universo. Após sua irmã ser retida por suspeita de tuberculose, Ewa conhece Bruno Weis (Joaquin Phoenix). Esta relação é o centro gravitacional do filme, síntese das forças e dramas dos imigrantes que contribuíram para a formação dos EUA.

Era Uma Vez Em Nova York_1

 

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Ewa quer salvar a irmã para realizarem o sonho americano. Bruno quer explorar Ewa; ou ajudá-la; ou está apaixonado. Ele é uma esfinge, um sujeito opaco que nos exige tempo para decodificar. Não se trata do cafetão clássico. Bruno não usará a violência bruta, mas uma persuasão canalha. Em pouco tempo, vemos Ewa conversando com um cliente com uma “desenvoltura envergonhada”. No começo do filme, já prevemos o grau de envolvimento de ambos quando, em uma rima visual, os dois, de forma semelhante, ajeitam as sobrancelhas, algo que vai se confirmando, até o momento em que vemos Bruno e Ewa em um triângulo amoroso. O terceiro vértice desse triângulo é Emil/Orlando (Jeremy Renner), mágico e primo de Bruno.

Em uma primeira leitura, Emil surge como o lado sonhático da América e Bruno como o inferno (ou a realidade) do sonho americano. Contudo, prefiro uma leitura mais turva. Se o leitor notar bem, Emil é a figura mais rasa desse triângulo. Ewa não cai de paixão por ele. Ela está enterrada na escuridão de seu terror americano – algo visualmente tão bem representado na cena do confessionário – e o vê como mais uma possibilidade de salvar a irmã; qualquer possibilidade amorosa deriva disto.

Nesse cenário, Bruno não é apenas o lado ruim da América, mas carrega muitas ambiguidades. Ele leva Ewa para a prostituição, mas também se apaixona por ela. Os sentimentos de Ewa também não ficam claros; tudo indica que ela se aproveita da situação para resgatar a irmã.

Bruno explora Ewa e Ewa explora Bruno. No limite, temos um microcosmo traduzindo um mito fundador da América atual. E o plano final – dos mais belos do ano – é evocativo. Dois caminhos distintos que se entrelaçam, ferem um ao outro, e seguem rumos distintos. Ou ainda, os EUA fundados por dois caminhos, um de luz opaca e outro de escuridão. O filme retira qualquer romantismo desse mito fundador; a América seria resultado do trabalho de figuras obscuras, de duvidosas qualidades morais.


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Era Uma Vez Em Nova York está sendo considerado por muitos como o melhor trabalho de James Gray. Mesmo com grandes personagens e composições soberbas, revelando maturidade estética do diretor, o filme não chega a ser impecável. Por mais que tenhamos muitos momentos emocionantes, e diversas sequências de encher os olhos, falta aquela centelha que provoca palpitações. Enfim, falta um tom a mais. Mas isto não torna o filme ruim. Além de tudo, a imagem final fica tatuada em nossas retinas como um símbolo de toda a ambiguidade da fundação da América.

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