O conceito de zeitgeist discorre sobre alguém que teve um grande impacto, cultural, histórico ou social, ao longo de uma geração – promovendo remodelações que seriam reproduzidas anos mais tarde. E, sem sombra de dúvida, um dos grandes nomes que nos vêm à mente quando pensamos nesse quase intangível status é o de Michael Jackson. Alcunhado como o rei do pop, o icônico artista começou sua carreira nos anos 1960 como parte do popular e prestigiado grupo conhecido como Jackson 5, performando ao lado de seus quatro irmãos através do gerenciamento do pai, Joe Jackson.
Porém, após anos como membro desse quinteto, Michael começou a explorar sua carreira solo, fazendo sua estreia em 1972 com ‘Got to Be There’ através da Motown, mas ainda vivendo à sombra dos caprichos de Joe. Em 1979, porém, as coisas iriam mudar: apostando mais fichas em sua independência artística, ele se aliou com o produtor Quincy Jones, com quem já havia trabalhado na exagerada e divertida adaptação de ‘The Wiz’, para o que podemos considerar uma das obras-primas do cenário fonográfico. Ganhando o nome de ‘Off The Wall’, o compilado, agora sob cuidados da Epic e da CBS, representou um afastamento significativo da estética firmada pelo artista em seu tempo com a Motown e, ao longo de dez faixas, consagrou Michael como o nome mais popular e prestigiado do planeta.
O projeto se beneficia, a princípio, das pulsões quase compulsórias que o cantor e compositor experimentava sobre liberdade, hedonismo e uma espécie de “empoderamento” que já começava a catapultá-lo para um outro espectro da fama e do estrelato. Michael, que teve sucesso significativo ao lado dos irmãos, tinha o desejo de se transformar no melhor performer de todos os tempos, por mais que esse objetivo tenha se mostrado claramente intangível. De qualquer maneira, o jovem artista, à época com apenas 21 anos, talvez tenha alcançado esse propósito ao utilizar seu quinto álbum de estúdio para estabelecer uma merecida e necessária independência criativa.
Os temas esquadrinhados no álbum, centrados no hedonismo, no escapismo, no prazer e no amor, dessa forma, recebem um significado mais complexo do que imaginávamos, como se Michael finalmente estivesse encontrando alegria e tendo a oportunidade de ser quem é. ‘Off The Wall’, assim, transforma-se no epítome da era disco da música, reunindo conhecidos elementos dos anos 1970 para finalizar uma das épocas mais celebradas e relembradas de todos os tempos – e cujo legado se estende até os dias de hoje. Centrando-se tanto no disco quanto no funk e no R&B, Jackson e Jones unem forças para uma declamação celebratória da vida que os colocou no mesmo patamar de Donna Summer, Giorgio Moroder e Bee Gees.
Michael tem um projeto muito bem estruturado para o compilado, dividindo-o em dois atos que, ao passo que mantêm a coesão entre suas faixas, soam diferentes pelas múltiplas lendas da música que o auxiliaram nessa empreitada. O primeiro deles tem início com uma das canções mais famosas de sua carreira e um marco do final da década em questão que já prenunciava o fim do disco e o início de uma irruptiva fusão de gêneros. Aqui, o funk e o disco ganham proeminência através da mágica conexão entre bateria, baixo, saxofone e piano que ditariam os preceitos adotados por nomes como Madonna, Jessie Ware, Dua Lipa, Lady Gaga, The Weeknd e tantos outros.
Ficando responsável pela composição da track ao lado de Greg Phillinganes, Jackson traz seus versos para as ótimas “Workin’ Day and Night” e “Get on the Floor”, mas deixa espaço para que célebres membros da indústria fonográfica deixem sua marca para esse arauto artístico que é adorado até hoje. E, então, adentramos o segundo ato do projeto, que presta homenagens a Paul McCartney com um cover pop e R&B de “Girlfriend”, a Stevie Wonder e a Susaye Greene, compositores de “I Can’t Help It”, e Rod Temperton, que diverte-se ao assinar a sutil e narcótica sensualidade de “Rock with You”, da vibrante faixa-título e da subestimada “Burn This Disco Out” (cujas reminiscências, ao fundo, parecem ter premeditado a estrutura de “Bad”, do álbum homônimo de 1987).
O sucesso do álbum, que se tornou o mais vendido de 1980, prenunciou a parceria de nove anos entre Jackson e Jones. Porém, o impacto do álbum vai para muito além das sólidas vendas e da aclamação crítica, ramificando-se para um momento de grande orgulho para a comunidade afro-americana à medida que os gêneros explorados por Michael adentraram o mainstream e promoveu um encontro entre passado, presente e futuro em uma atemporalidade inegável e indelével. O artista, em outras palavras, remou contra o status quo que ditava a indústria fonográfica ao criar uma ponte entre o R&B e o pop que abriria portas para a versatilidade de artistas contemporâneos como The Weeknd, Beyoncé e Kendrick Lamar (apenas para citar alguns).
Ao encontrar a tão sonhada liberdade com ‘Off The Wall’, Michael Jackson não apenas celebrou a música como motor de felicidade e de prazer, mas nos presenteou com uma obra-prima incontestável que apenas refletiu sua imensa genialidade – e que abriria as portas para outras revoluções musicais que o reiterariam mais ainda como o único e legítimo rei do pop.


