Michael Jackson não é um fenômeno por qualquer motivo: desde sua estreia no cenário fonográfico como integrante do aclamado grupo Jackson 5 até sua estreia solo em 1972, o artista conquistou milhões de fãs ao redor do mundo por seu estilo único de transformar a música em uma experiência inesquecível de passado, presente e futuro, além de revolucionar tal arte com uma invejável habilidade camaleônica. Seu ápice criativo veio com o irretocável ‘Off The Wall’, lançado em 1979, e que consagrou o artista como a maior celebridade do planeta. Mas seu imensurável impacto não pararia por aí – e, três anos mais tarde, ele voltaria a fazer história com ‘Thriller’.
Com praticamente todas as músicas se tornando singles promocionais, a obra quebrou inúmeros recordes comerciais, tornando-se a produção fonográfica mais vendida de todos os tempos com mais de 70 milhões de cópias comercializadas. Além disso, levou diversos prêmios para casa, incluindo o Grammy Award de Álbum do Ano, e influenciou gerações e mais gerações de artistas que constantemente revisitam essa magnum opus da indústria cinematográfica, bebendo de uma gama infinita de genialidade, desde a mistura explosiva de estilos contrastantes e o uso de videoclipes como parte intrínseca da estrutura do álbum – e, dando continuidade ao nosso especial, resolvemos explorar cada uma de suas tracks.
Pegando elementos de seu álbum anterior, Michael construiu uma ode que unisse o melhor dos dois mundos em um complexo arranjo afro-disco e funk que abre o projeto sob o título de “Wanna Be Startin’ Somethin'”. A faixa funciona, ao mesmo tempo, como encerramento de um capítulo e início de outro, em que a incorporação do som que explorava no passado vem carregado de incursões novas e originais. O aspecto mais interessante da canção é, sem sombra de dúvida, o narcótico e retumbante arranjo de bateria, trompetes e cordas.
Pouco depois, seguimos para “Baby Be Mine”, de longe a faixa mais subestimada de ‘Thriller’ e merecia muito mais atenção do que tem – ora, até mesmo Michael desperdiçou seu potencial como single promocional. A deliciosa mistura entre funk, pós-disco e dance é perfeita para uma ambientação de fim de festa, um adeus inesperado à discoteca em que dois amantes flertam um com o outro antes de irem embora (Jackson inclusive pergunta para seu par romântico: “você não vai ficar comigo até o sol raiar?”).
Não é sempre que vemos duas lendas da música unindo forças e, quando somos agraciados com tal presente, é sempre bom prestarmos atenção. E foi aí que “The Girl is Mine” surgiu: a terceira faixa de ‘Thriller’ une as forças de Jackson com ninguém menos que Paul McCartney. A balada romântica reflete a química entre ambos os artistas, mas fica ofuscada por outras faixas muito melhor produzidas e mais memoráveis. O principal erro da faixa, entretanto, não são os deslizes estruturais, mas o fato de Michael tê-la escolhido como primeiro single do álbum.
Enfim, chegamos a uma das canções mais conhecidas de todos os tempos: a faixa que empresta seu nome ao título do compilado de originais é um espetáculo sonoro e uma amálgama entre passado e presente que não decepciona em nenhum momento – seja nos versos arrepiantes, nos uivos de lobisomens que permeiam a estrutura instrumental, seja na mistura entre pop e funk que grita a cada segundo. Uma ótima escolha para o Dia das Bruxas, “Thriller” é o suprassumo do cenário mainstream e uma atemporal rendição conhecida por praticamente todo mundo que já tenha ouvido falar de Michael.
Dando início ao B-side do álbum e funcionando como terceiro single promocional, progredimos com “Beat It”, que rendeu ao performer duas estatuetas do Grammy Awards, incluindo Gravação do Ano. A fusão impecável entre hard-rock e dance-rock apagava as linhas que separavam os dois gêneros, além de contar com uma performance aplaudível de um dos maiores artistas de todos os tempos e um icônico solo de guitarra de ninguém menos que Eddie Van Halen. Como se não bastasse, a canção é guiada por uma antêmica narrativa que discorre sobre superar os problemas e fazer o que você consegue para se sobressair – mas entendendo que, às vezes, cair é fundamental.
‘Thriller’ funciona como uma declamação testamentária de tudo que Michael já havia entregado para os fãs desde quando participava do grupo Jackson 5. Logo, não é nenhuma surpresa que boa parte das músicas seja uma explosão de estilos diferentes – e a melhor representante dessa vibrante mixórdia é a sexta track do disco, “Billie Jean”, que traz o funk, o pós-disco, o R&B e o dance-pop unidos em uma ótima faixa. A história é inspirada nas groupies que assediavam seu irmão mais velho e fala sobre uma jovem que alega que seu filho é o de Michael também.
Soft-rock e R&B são os gêneros que regem “Human Nature”, single que ocupa a sétima posição do álbum. A semi-balada traz a assinatura de Quincy Jones na produção, motivo pelo qual encontramos um coeso fio performático do começo ao fim. As sutilezas e as interpolações de instrumentos servem como uma reflexão mais palpável da natureza humana, como aponta o título, e nossa necessidade intrínseca de explorar o inexplorável e sempre deixar que a ambição nos guie a alcançar nossos sonhos, por mais que as atitudes não façam muito sentido.
A penúltima canção é “P.Y.T.”, uma das músicas mais divertidas do projeto e que funciona também como o penúltimo single do álbum. A faixa, composta por James Ingram e Jones, se estrutura no embate entre uma multiplicidade vocal que acompanha Jackson e uma celebração disco e funk de uma narrativa sobre paixão. Essa, inclusive, é uma das faixas mais aceleradas da produção e caiu no gosto popular por seu inocente caráter – apesar de nunca ter sido performada ao vivo pelo cantor.
‘Thriller’ encerra-se com mais uma incursão sentimental e bastante sensual, “The Lady In My Life”, em que Jackson declara seu amor por uma mulher pela qual é perdidamente apaixonante e por quem faria qualquer coisa. Aqui, a interlocutora é endeusada em uma investida R&B assinada por Rod Temperton e que serve como um encerramento prático e funcional para o álbum, diminuindo o ritmo frenético das faixas anteriores com uma performance aplaudível e que nos leva em uma jornada muito envolvente.


