“Aqui é proibido nascer.” Esta é a frase que marcou o nascimento do documentário Proibido Nascer no Paraíso, da cineasta Joana Nin. Em visita à ilha de Fernanda Noronha, a diretora sentiu uma comichão de contar a história por trás daquela sentença tão fatalista. Conhecida como o oásis dos ricos e famosos brasileiros, o arquipélago distrital de Pernambuco tem um outro significado para os moradores nativo. 

Previsto para estrear em março, no Dia Internacional da Mulher, o documentário sofreu com o período de pandemia da Covid-19 e acabou sendo lançado somente no streaming. Em 1º de maio, mês do Dia das Mães, Proibido Nascer no Paraíso estreou no Globo Play em um momento propício para discutir o empoderamento feminino em defesa da maternidade acima dos valores econômicos. 

Diretora do hipnótico Cativas: Presas pelo Coração (2015), Joana Nin sabe como contar difíceis e intrigantes histórias, principalmente do universo feminino. Premiada nos Festival do Rio e Gramado, a cineasta e professora bateu um papo exclusivo com o CinePOP: Para mim foi uma informação nova, chocante, porque eu já acompanho esta questão da violência obstétrica há muitos anos, mas proibir de parir no seu lugar, eu nunca tinha visto.”, admite Nin

Confira a entrevista abaixo. Se curtir, comente e assista ao documentário online.  

CinePOP: Fernando de Noronha aparece na mídia somente como destino de férias e festas dos artistas e ricos brasileiros, isto é, um paraíso turístico. Quase ninguém comenta o fechamento da maternidade em 2004 e a proibição do parto na ilha. Como você decidiu fazer um filme sobre este tema? 

Joana Nin: Em 2010, eu visitei pela primeira vez Fernando Noronha como turista. Assim como muitos brasileiros, eu tinha esse sonho de consumo e fiquei quatro dias. Em uma loja de artesanato, uma moradora local me disse: “aqui é proibido nascer”. Eles falam isso para os turistas, porque essa questão incomoda a comunidade. Eu perguntei: “Proibido como? Não existe uma lei que proíba ninguém a nascer em qualquer lugar do Brasil”. Eu comecei a pesquisar e, em 2014, eu voltei para ilha por uma semana.

 “‘Aqui é proibido nascer’. Eles falam isso para os turistas, porque essa questão incomoda a comunidade.”

CinePOP: Proibido Nascer no Paraíso foi rodado durante dois anos. Como foi o processo de investigação e construção dessa história? 

Joana Nin: Após conseguir captar recursos para o filme, eu voltei à ilha em maio de 2017, passei três semanas com a pesquisadora Sandra Nodari, que trabalha comigo desde o meu primeiro filme. A gente começou pela busca das grávidas para acompanhar. Nestes dois anos, eu passei indo e vindo. Ao todo foram 84 diárias de filmagem, contando com o tempo que eu filmei em Fernando de Noronha e em Recife. O processo levou nove anos, entre eu ficar sabendo e conseguir concluir as filmagens. 

CinePOP: Como foi acompanhar de perto a angústia dessas mulheres? O documentário fala da desumanização do processo gestacional de tirar essas mulheres do conforto e de perto da família para passar os últimos meses sozinha. É um desestímulo às mulheres de Fernando de Noronha terem filhos?

Joana Nin: As mulheres já sabem que quando engravidam vão enfrentar este problema, então aceitam pacificamente as regras estabelecidas, mas, mesmo assim, sofrem privações. As pessoas que vivem lá há muitos anos não têm condições de concorrer com os empresários que chegam com dinheiro e expertise sobre como desenvolver negócios na ilha. O espaço tornou-se algo extremamente disputado, porque é limitado e gerido como termo de permissão de uso.

“O governo concede a permissão de uso do terreno. Não é nem posse, é menos que isso. Cada centímetro quadrado é supervalorizado.” 

Por exemplo, para alguém construir um banheiro ou um quarto para um filho que se casou é uma burocracia enorme, você não consegue. Se você construir sem autorização, pode ser que tenha que demolir. Não sei se inibe as mulheres de decidirem engravidar, mas, com certeza, cria um complicador muito significativo.

CinePOP: Queria fazer um paralelo entre os seus dois documentários, Cativas – Presas pelo Coração (2015) e Proibido Nascer no Paraíso, são histórias curiosas e pouco conhecidas do grande público. Como você escolhe o tema dos seus filmes?

Joana Nin: Quando fiz jornalismo sempre me interessou o inusitado, as coisas que a gente não sabe que existem. O mundo é muito diverso e quanto mais a informação se propaga, quanto mais ela está acessível ao público, mais a gente pode descobrir realidades diferentes da nossa. Portanto, dediquei boa parte do meu trabalho de cineasta a pesquisar temas que são desconhecidos do público ou que as pessoas estão dando uma atenção equivocada. 

Tem muitas pessoas que acreditam que esta questão interessa apenas às mulheres de Fernando de Noronha, mas não é verdade. Esta questão diz muito sobre como não respeitamos o corpo da mulher, principalmente durante a gestão. 

Meu objetivo é trazer esses personagens sem julgamento ao cinema e o mais catártico possível para que o público possa ver que poderia ser ele mesmo, sua vizinha ou sua prima casada com um presidiário. Poderia ser você impedida ter o seu filho no lugar em que você nasceu.

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