O Rei dos Monstros retorna em uma grande produção digna

Os filmes de monstros gigantes estão de volta. Será? Pode-se dizer que o “cinema de monstros gigantes” atingiu seu ápice com os filmes B de Ray Harryhausen (considerado um dos mestres do stop motion), nas décadas de 1950 e 1960. Na mesma época surgia Godzilla (1954), a entrada japonesa no subgênero, produzido pelo estúdio Toho Film Company. Seu nome, Gojira no original, é uma mistura das palavras gorira (gorila) e kujira (baleia).

Sua criação é creditada ao medo das guerras atômicas, com testes nucleares americanos dando vida ao monstro que se tornou o mais querido e memorável do país nipônico. Se tornando uma celebridade, tão popular quanto Marilyn Monroe, por exemplo, o monstro mutante ganharia mais 28 filmes até sua primeira versão pelas mãos de um estúdio de Hollywood. Em 1998, a Columbia resolveu trazer a enorme criatura para o ocidente em grande estilo.

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Pelas mãos de Roland Emmerich (um dos maiores nomes da época, graças a Independence Day), Godzilla ganhava um visual novo (mantido a sete chaves como um dos maiores segredos da década de 1990) para atacar exclusivamente em Nova York. A versão americanizada demais não agradou. Agora, pelas mãos da Warner, o rei dos monstros tem nova vida e é novamente o tema de uma produção de centenas de milhões de dólares.

Com um visual mais fiel ao do “homem na roupa de borracha” (suitmation) do original e o clima que mistura terror e drama (coisa que faltou na versão de 1998), Godzilla tem uma obra digna, que remete imediatamente aos seus melhores filmes B. No entanto, uma das principais mudanças do novo Godzilla vem diretamente em sua criação, já que o medo nuclear deu lugar ao terrorismo.

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Não foram os testes atômicos que deram vida ao gigantesco animal (como no cânone e na refilmagem de Emmerich). O que acontece é o seguinte, filmes de monstros gigantes são por natureza parte do subgênero do cinema B. Filmes feitos sob medida para os aficionados. No ano passado, o cineasta Guillermo del Toro tentou trazer essa paixão de alguns para o mainstream, resultando numa bilheteria modesta (orçamento de US$ 190 milhões, arrecadação de US$ 101 milhões nos EUA e US$ 411 milhões no mundo todo) para o ótimo Círculo de Fogo.

Era o sinal de que mais gente tinha o desejo reprimido por este tipo de filme. Godzilla tem um caminho mais difícil, não conta com robôs gigantes ou qualquer outro elemento da ficção científica senão monstros. Sendo assim, como fazer um filme de Godzilla? Apostar no realismo e dar ênfase no horror dos sobreviventes? Já foi feito e chama-se Cloverfield (2008). Ora, até mesmo a Coreia do Sul apostou na sua versão do monstro, com o eficiente O Hospedeiro (2006).

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A resposta da Warner foi trazer o diretor Gareth Edwards, que chamou atenção em 2010 justamente por um filme do gênero, Monstros (muito mais um drama do que um filme de monstros). E um elenco internacional, ambientando grande parte da trama no país de origem do personagem, o Japão.

Assim, os americanos Bryan Cranston (da série Breaking Bad), Elizabeth Olsen (Oldboy – Dias de Vingança) e David Strathairn (Lincoln), a francesa Juliette Binoche (Clouds of Sils Maria), o japonês Ken Watanabe (A Origem) e os britânicos Aaron Taylor-Johnson (Anna Karenina) e Sally Hawkins (Blue Jasmine) lutam para sobreviver, enfrentando as ameaças colossais.

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Dessa vez, Godzilla é mais a solução do que o problema, com o surgimento dos MUTOs (Massive Unindentified Terrestrial Organism, ou Organismo Terrestre Massivo Não Identificado – denominação que vai por água abaixo quando um deles começa a voar). As bestas também são homenagens ao tipo de criatura que o protagonista de muitos andares de altura enfrentava em seus mais de vinte filmes do currículo.

Então, o novo Godzilla funciona de duas maneiras. Para os fãs da mitologia em torno da criação japonesa será um deleite, tendo tudo em relação aos filmes originais sido respeitado e homenageado. Para os demais, incluindo os cinéfilos, este ainda é um filme de monstros gigantes destruindo cidades e se digladiando. Se você não tem estômago para isso, passe longe. Uma coisa é louvável, a parte técnica é primorosa.

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As criaturas ganham vida de forma pouco vista, com grande detalhamento, mesmo para uma plateia anestesiada de efeitos computadorizados. O clima e a tensão também estão aqui. Godzilla se divide em dois filmes. Começa como um drama familiar envolvendo os personagens de Cranston, Binoche e Johnson. E esse momento será o mais apreciado pelos cinéfilos não especificamente fãs de monstros. Este é o momento que menos dura também.

Godzilla precisa ser um filme de monstro. Talvez a maior falha seja não criar personagens interessantes – coisa aprendida com um dos maiores nomes do cinema de monstro mundial, Steven Spielberg (vide Tubarão, Jurassic Park e Guerra dos Mundos). O peso do grande elenco se esvai quando seus personagens são apenas caricaturas rasas. De qualquer forma, Godzilla não é nem de perto um desastre do nível dos recentes O Cavaleiro Solitário ou Depois da Terra (ambos do ano passado), talvez não seja apenas o nosso tipo de cinema.


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