Hamilton conquistou 11 Tonys, um Grammy e um prêmio Pulitzer. Desde sua estreia off-Broadway, em janeiro de 2015, faturou quase US$ 700 milhões em bilheteria, contando apenas a montagem nova-iorquina da peça. Ganhou versões fixas em Londres, Chicago e Los Angeles, além de uma companhia que passa o ano (isso antes da pandemia, é claro) fazendo tour por cidades dos Estados Unidos. Em 2021, há previsão de montagens oficiais em Hamburgo, na Alemanha, e Sydney, na Austrália. Hamilton é, sem dúvida, um dos maiores sucessos da história dos musicais da Broadway. Mas é bem mais que isso. A obra criada por Lin-Manuel Miranda é também um dos maiores fenômenos da cultura pop do século XXI. 

Aproveitando o lançamento da versão filmada da peça da Broadway, que chega junto com o serviço da Disney Plus no Brasil, o CinePOP decidiu apresentar um pouco da trajetória deste novo clássico e tentar entender um pouco como chegou até aqui.

Não deixe de conferir nosso ranking das 46 canções do musical, da pior à melhor.



 

O início de tudo

Antes de tudo, é importante destacar que Hamilton não é o primeiro sucesso de Lin-Manuel Miranda. O ator, cantor, compositor, produtor, escritor e tudo mais já havia criado uma peça vencedora do Tony de Melhor Musical antes: In the Heights. Após um período de testes em Waterford, em 2005, o musical chegou aos palcos da Broadway em 2007, e transformou Miranda em um nome em que as pessoas começavam a prestar atenção. Ainda durante o auge de In the Heights – cuja versão cinematográfica estreia em 2021, sob o nome de Em um Bairro de Nova York -, Miranda começou aler a biografia de Alexander Hamilton escrita por Ron Chernow e publicada em 2004. Envolvido pela história do pai-fundador que foi braço-direito de George Washington e responsável por desenvolver um sistema financeiro que transformou os Estados Unidos, Lin começou a pensar em projetos envolvendo a história de Hamilton antes mesmo de acabar o livro. 

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Inicialmente, Miranda pensou em produzir um álbum conceitual de hip hop sobre o primeiro Secretário de Tesouro norte-americano. E ele teve a oportunidade perfeita para testar o alcance de seu projeto. No dia 12 de maio de 2009, o compositor foi convidado pela administração de Barack Obama para se apresentar no White House Poetry Jam, que basicamente era um sarau de poesia que acontecia na Casa Branca, com a presença do presidente, sua família e convidados ilustres. Ao invés de apresentar uma música de In the Heights – cujo sucesso tinha gerado o convite -, Lin, acompanhado do diretor musical Alex Lacamoire, preferiu mostrar um conteúdo inédito, no caso uma versão prévia da música que serviria de abertura para a peça, “Alexander Hamilton”. À época, a letra da melodia era toda centrada na figura de Aaron Burr, o que mudou um pouco na versão derradeira.

Além de cativar todos os presentes no salão da Casa Branca, Miranda viu sua canção ganhar o mundo através das redes sociais. Publicado no canal oficial do governo americano, no YouTube, o vídeo com a apresentação viralizou e mostrou ao compositor um pouco do potencial para o projeto, que tinha o nome de The Hamilton Mixtape



Ainda no início de 2009, Miranda deixou o elenco de In the Heights na Broadway e passou a se dedicar completamente a embarcar na história de vida de Alexander Hamilton. Com o tempo, o compositor foi percebendo que tinha em mãos mais do que um álbum de hip hop, mas uma nova peça. Entre 2009 e 2012, fez apresentações esporádicas em Nova York, em que apresentava canções da peça, sempre despertando muita curiosidade por parte da cena teatral. No dia 27 de julho de 2013, Lin juntou alguns amigos para realizar uma leitural provisória do que tinha em um workshop no Powerhouse Theater Reading Festival, evento organizado pela conceituada universidade Vassar. Na ocasião, Lin, já acompanhado de nomes como Daveed Diggs e Christopher Jackson, leu boa parte do primeiro ato da peça e algumas canções do segundo, em apresentações completamente lotadas.

Todo burburinho fez criar uma aura de curiosidade e sucesso sobre Hamilton, que foi só aumentando com o passar do tempo. Em janeiro de 2015, a peça estreia Off-Broadway no tradicional The Public Theater em Nova York. Após seis meses de apresentações esgotadas, o musical se muda para o Richard Rodgers Theatre e finalmente estreia na Broadway.

 

Uma carreira de sucesso

Da estreia no Teatro Público até o último dia de apresentação com o elenco original, a peça não deixou de vender um único ingresso. E uma longa fila sempre ficava do lado de fora do teatro torcendo por raríssimos ingressos de desistentes. Mesmo após Lin-Manuel Miranda deixar a produção, e vários outros atores fazendo o mesmo na sequência, a casa de Hamilton sempre esteve cheia, e sempre praticando o valor de ingresso mais caro da cidade.



Nas bilheterias, o musical bateu recorde atrás de recorde, tendo sido a primeira produção da história a superar a marca de US$ 3 milhões em uma única semana (ou oito exibições). Antes mesmo do lançamento, acumulou uma pré-venda de cerca de US$ 30 milhões, algo nunca visto antes na Broadway. A procura era tão insana, e os valores tão altos, que a loteria de Hamilton acabou se transformando em um evento, o Ham4Ham. A loteria consistia em valores promocionais de US$ 10 para assistir ao musical. As pessoas iam para a frente do teatro para participar do sorteio. Com o Ham4Ham, Lin passou a fazer pequenas performances do lado de fora da bilheteria, premiando as pessoas que estavam ali lutando por um ingresso. As apresentações se tornaram tão populares que passaram a lotar a rua, o que começou a implicar em problemas no trânsito local e na circulação da cidade de NY. Após isso, a loteria passou a ser online. Logo no primeiro dia de sorteios online, o site da produção foi derrubado por causa de muita procura.

Mas o que explica o sucesso magistral da produção? O texto de Lin? Sem dúvida, mas não só isso. Um elemento foi muito importante para transformar Hamilton em algo maior, em algo que as pessoas queriam assistir, em algo que ultrapassava todas as barreiras da bolha da Broadway. E este elemento foi justamente o elenco formado praticamente apenas por minorias. Outras peças clássicas já haviam adotado o estilo de seleção “color-blind”, em que o responsável pelo casting não se importa com a raça do ator na hora de escolher o personagem. Mas este não é o caso de Hamilton. Aqui, há a opção deliberada por escolher homens e mulheres não-caucasianos para interpretar os pais-fundadores dos Estados Unidos e suas famílias. Quase 100% da peça é formada por atores negros, de origem latina ou asiática. E isso em todas as versões do elenco. Em todas as montagens. Em um momento cultural de engloba do Oscar So White ao Black Lives Matter, a opção por atores negros interpretando ícones históricos dos Estados Unidos, todos conhecidos através de pinturas clássicas, marca um rompimento com o real sem precedentes no teatro. E com muitas camadas. De certa medida, valoriza o trabalho do ator e as possibilidades de atuar além do seu tipo físico, raça ou ancestralidade. Num grau mais complexo, tenta olhar de forma crítica para a história. Lin descreve a peça como “”um olhar dos Estados Unidos da época através dos Estados Unidos atuais.”

Em um cenário político em que velhos indícios de intolerância começaram a sair do armário, Hamilton expunha de forma quase afrontosa seu elenco. E a própria narrativa da peça acabava ressoando em movimentos como o Brexit ou a eleição de Donald Trump. A decisão dos realizadores chegou a receber críticas de atores brancos da Broadway que viam quase como um “racismo reverso” (deixando claro que isso não existe!) no processo de seleção, mas com o passar do tempo tais vozes foram se apagando diante de uma verdadeira louvação. Mesmo organizações sociais e historiadores chegaram a questionar o fato de atores negros interpretarem homens brancos que exploravam pessoas como eles, mas Lin sempre defendeu a peça como uma plataforma para: 1) lançar as carreiras de atores negros (e latinos, e asiáticos); e 2) reforçar o absurdo que é a ausência histórica de tais minorias no centro do poder.



Além dos palcos

Que Hamilton era um mega-sucesso da Broadway já ficou claro, mas como o musical se tornou um fenômeno da cultura pop a ponto de virar um dos principais carros-chefe da Disney+?

A apresentação de Lin-Manuel Miranda na Casa Branca já havia demonstrado todo o potencial viralizante da obra. E isso ficou ainda mais evidente durante a trajetória da peça na Broadway. Quase todos os dias, inúmeras celebridades tentavam conseguir ingressos para o musical ou uma fotinho nos camarins após a apresentação. De Barack Obama a Beyoncé, passando por Madonna, Julie Andrews, príncipe Harry e Meghan Markle, a lista de celebridades era tão significativa que funcionou quase como uma ação promocional da peça. Todo dia, alguns dos artistas ou influenciadores mais famosos do mundo estavam ali divulgando a produção. Isso acabou despertando a atenção de pessoas que não necessariamente são apaixonadas por Broadway.



Aqui, cabe até uma curiosidade… Lin-Manuel Miranda estava internado num hospital, com uma febre de 40º, quando ficou sabendo que Beyoncé e Jay-Z iriam assistir a peça no dia. Ele quis fazer a apresentação mesmo assim, mas acabou aceitando a recomendação dos médicos e da esposa. Como podem ver, ele ficou de fora da foto acima, sendo substituído por Javier Muñoz, que viria a assumir o papel do protagonista após a saída de Lin.

E quem não tinha acesso aos palcos da Broadway e queria saber mais sobre Hamilton também teve uma oportunidade: a trilha sonora da peça, lançada em setembro de 2015, poucos meses após a estreia no teatro. Trata-se de uma das trilhas de maior sucesso comercial da história. O álbum entrou pro top 10 de 2015 da Rolling Stone e ficou mais de 250 semanas no top 200 da Billboard (e contando). Foram aproximadamente duas milhões de cópias vendidas, além de 7 álbuns de platina.  

A trilha original fez tanto sucesso que desencadeou outros projetos. No final de 2016, Lin reuniu atores e cantores famosos para gravar algumas das músicas da peça em The Hamilton Mixtape. Além disso, para o deleite dos fãs, inseriu canções que acabaram não entrando na versão final.

 

Multimídia

Hamilton foi um sucesso teatral, um sucesso musical e, agora, um sucesso cinematográfico. Por mais que a estreia nos cinemas tenha sido cancelada por causa da pandemia, o lançamento antecipado no Disney+ mostrou todo o potencial cênico da produção. Mas, além de tudo, Hamilton foi um sucesso viral. Se você é fã da peça, provavelmente já passou horas no YouTube consumindo todo tipo de conteúdo. O Ham4Ham não ficava apenas na porta do teatro, mas também nas redes sociais do musical. São inúmeros vídeos de Lin e do elenco interagindo com fãs ou entre eles. O YouTube também foi usado para apresentar conteúdos inéditos, como a versão original de “Burn”. E o magnetismo da peça também acabava alcançando ressonância em outros conteúdos virais. Dessa forma, Lin foi convidado para o Carpool Karaoke de James Corden e ainda viu suas músicas ganharem uma extraordinária versão polka por Weird Al Yankovic.


 

Objeto de estudo e discussão

O potencial educativo de Hamilton sempre esteve presente no debate, até pela capacidade de fazer jovens se interessarem por figuras como velhos presidentes e um secretário de tesouro dos Estados Unidos. Durante toda carreira da peça nos teatros, a produção fez parcerias com escolas locais, especialmente públicas, para facilitar o acesso de alunos. Mesmo no período de pandemia, Lin Manuel-Miranda tratou de criar o programa #EduHam at Home, um curso gratuito para estudantes e suas famílias em que explora o mundo de Hamilton e o processo de criação da peça.

Apesar do valor educativo, é importante ressaltar que o musical não é um retrato super preciso da vida de Alexander Hamilton e àqueles que o cercavam. Lin tomou certas liberdades narrativas, o que gerou muito debate por parte de historiadores e professores nos EUA. Há uma certa romantização dos personagens. É algo até natural numa obra de ficção, mas cuja a observação deve ser sempre feita para evitar conclusões equivocadas. Hamilton é retratado como um convicto abolicionista, mas historiadores reforçam que ele, por mais que tenha escrito sobre isso, não chegou a tomar tantas atitudes concretas neste sentido, principalmente diante do fato de seu sogro, o general e senador Philip Schuyler, ser dono de escravos. E o mesmo acontece com George Washington, outro dono de escravos que tem essa informação omitida na peça.

Sem dúvida, Hamilton realiza uma idealização do passado. Mas isso é algo que os Estados Unidos sempre fez. A diferença é que Hamilton idealiza um passado mais diverso, representativo, feminino e empoderador, sempre olhando para o futuro. E isso, é fabuloso!

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