Filmes originais do Disney Channel, apelidados carinhosamente de DCOMs, costumam partir de premissas similares que se destrincham em narrativas múltiplas – desde musicais originais até histórias de bonança e que sempre trazem uma mensagem positiva, dialogando com a identidade eternizada pelas inúmeras produções da Walt Disney Studios e suas subsidiárias. E, dentro desses longas-metragens, um dos que mais definiram o significado de DCOM foi o popular ‘High School Musical’.
Lançado em 2005 (sim, já faz vinte anos desde que conhecemos os alunos de East High), a trama é centrada em Troy Bolton (Zac Efron), um astro do basquete de seu colégio que é muito popular e que tem seu futuro traçado desde sempre, visto que seu pai é técnico do time local e quer que o filho siga seus passos. Em outro espectro, acompanhamos Gabriella Montez (Vanessa Hudgens), aluna recém-chegada no East High que é extremamente tímida e inteligente, com aptidão natural para as áreas acadêmicas – e que, assim como Troy, tem seu futuro planejado pela mãe, cujo sonho é vê-la em Stanford (uma das universidades mais prestigiadas do planeta). Porém, a vida de ambos dá uma guinada inesperada quando, após cantarem juntos em uma festa de Ano-Novo, os dois desenvolvem um apreço pelo teatro musical e se complementam de maneira inesperada e que coloca dois universos diferentes em rota de colisão.

Mesmo para a época de seu lançamento, é notável como a história centrada em Troy e Gabriella é pautada nos tropos conhecidos das comédias românticas para se desenrolar – apresentando um escopo teen e regado a músicas bastante chicletes e que dominaram as playlists dos fãs. Não é à toa que a dupla protagonista seja calcada em arquétipos muito familiares e dialogáveis com os espectadores, munidos de uma ótima química que explode em cena e que ofusca os óbvios deslizes que pincelam o projeto. É claro que não podemos nos esquecer do fato de que Efron não tinha habilidades vocais muito firmes quando aceitou protagonizar o filme, mas sua performance se equipara a de Hudgens e os firmam como um dos casais mais famosos do panteão da Casa Mouse.
A dupla não estaria sozinha nessa empreitada: temos a presença memorável de Ashley Tisdale como a icônica Sharpay Evans, antagonista principal da narrativa e que funciona como a estrela de East High, sempre conseguindo os papéis principais do teatro da escola e sendo responsável pelo gerenciamento do corpo artístico – fazendo de tudo para se reafirmar ao lado do irmão, Ryan Evans (Lucas Grabeel). Tisdale e Grabeel, em vários momentos, roubam a cena através de atuações propositalmente exageradas e que transformam as clássicas investidas das mean girls – cujo termo foi cunhado com ‘Meninas Malvadas’, lançado um ano antes – em uma divertida e jocosa incursão. E, completando o sexteto, temos Chad Danforth (Corbin Bleu), amigo de infância de Troy e um dos astros de basquete do colégio, e Taylor McKessie (Monique Coleman), capitã do time de decatlo acadêmico que logo se torna confidente de Gabriella.

O filme cumpre com o que esperamos de uma produção Disney Channel, mas ganha pontos pelo talentoso time criativo na frente e atrás das câmeras. O elenco abraça os personagens com paixão gritante, motivo pelo qual retornaram para duas sequências – e motivo pelo qual a persona mais popular, Sharpay, foi condecorada com seu próprio spin-off. No âmbito artístico e técnico, o lendário Kenny Ortega, conhecido por seu trabalho na subestimada aventura de Halloween ‘Abracadabra’ e ao lado de ninguém menos que Michael Jackson, assume as rédeas da direção e sabe como conduzir a câmera através das complexas coreografias que delineia com paixão epopeica. Aliás, são os passos de dança que vibram em cena e nos chamam a atenção, transformando certas escolhas sacarinas em um enredo divertido e fácil de acompanhar.
Peter Barsocchini, incumbido do roteiro, mergulha de cabeça em uma releitura contemporânea de ‘Romeu e Julieta’, facilmente a peça mais famosa do dramaturgo William Shakespeare. Apoiando-se em “tipos sociais” costumeiros de obras similares, Barsocchini transmuta as tensões políticas entre os Montéquio e os Capuleto, famílias inimigas da Itália renascentista, em uma ambientação menos altiva e mais palpável que encontra um ponto em comum entre o mundo dos esportes e o das ciências: a música. E, navegando pelas atribulações da adolescência e pela mandatória necessidade de se reafirmar e pertencer a algum lugar, o roteirista desafia o status quo do colégio, cutucando uma hierarquia intocável através de reflexões inteligentes e inesperadas que nos convidam a pensar “fora da caixinha”.

Há duas décadas, ‘High School Musical’ era eternizado não apenas como um dos melhores DCOMs de todos os tempos, como revolucionou essa espécie de subgênero de maneira a influenciar praticamente todas as produções futuras do Disney Channel. E, conforme revisitamos esse popular longa-metragem, percebemos que, na verdade, ele envelheceu muito bem para os poucos recursos que tinha à época.
Lembrando que o filme está disponível no Disney+.
