Em determinadas cenas de O Homem Invisível, Cecilia Kass (Elisabeth Moss) simplesmente sabe que há mais alguém com ela dentro de casa. Ela não consegue ver outra pessoa, mas sente a presença incômoda. Aterrorizada, procura na sala, na cozinha e no banheiro, com medo de virar a esquina e dar de cara com o seu perseguidor, mas sem outra opção senão tentar encontrá-lo. Apesar de sentir ali outro coração pulsante, nada. Ela não vê ninguém, e eventualmente passa a ter a sanidade questionada. Enquanto a ameaça segue solta e à espreita, seu perseguidor vai ganhando mais coragem à medida que se salva mais e mais de ser descoberto.

Agora, pare e pense em termos práticos: Cecilia tem certeza que está sendo perseguida, mas é constantemente desacreditada. Ela anda no escuro procurando seu stalker e fugindo dele ao mesmo tempo. Eventualmente, passa a sofrer as consequências por tanto querer incriminar o vilão. Se essas situações fazem lembrar uma mulher que denuncia assédio e não é levada a sério, ou alguém voltando para casa tarde da noite com medo em uma rua deserta, talvez essas comparações não sejam mera coincidência.

Mais do que sabiamente beber da fonte do movimento #MeToo e fazer de si uma história com temas atualizados sobre gaslighting,O Homem Invisível se põe no centro de um tipo de terror social ao conectar a história com a vigilância constante dos tempos modernos. Câmeras por todos os lugares acabam se transformando em artifício de chantagem nas mãos do vilão, e isso também não é muito distante daquilo a que todos estamos sujeitos. Enquanto supostamente por proteção, estes são artifícios que na prática muito servem também para coleta de dados e inteligência que podem ser usados para qualquer propósito, contra ou a favor do interesse público. Se você pensou no tanto de informação que seu smartphone e as redes sociais também reúnem sobre você, o caminho é exatamente este.

O êxito de O Homem Invisível ao tratar temas tão universais no meio de uma história igualmente universal (H.G. Wells escreveu a obra há mais de 120 anos, afinal) se dá principalmente pela inventividade em termos cinematográficos. Seja na câmera subjetiva que deixa clara a presença física do vilão sem precisar se ater a artifícios simplistas de movimento, na decisão de mostrar o mínimo possível a face de Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen) ou na escolha de se ater à palavra de Cecilia sobre o relacionamento abusivo sem jamais precisar mostrar o que de fato ocorreu entre o ex-casal, o filme do australiano Leigh Whallenn busca o tempo todo fazer a presença física de todos esses elementos ser sentida para que ele não precise dizê-la.

Na prática, isso funciona da seguinte forma: o histórico de abuso sofrido pela protagonista não precisa ser esfregado na cara do espectador. Basta que Cecilia conte que passou por este trauma, e sua palavra e suas ações devem ser suficientes para que acreditemos nela. Desta forma, o contraponto é justamente o fato de, na história, seu principal objetivo ser o de provar que está dizendo a verdade sobre ser perseguida pelo mesmo abusador.

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Por isso, antes de se transformar em um thriller de ação sujeito a obviedades no ato final, O Homem Invisível faz as argumentações ideais para como atualizar uma história de monstros aproveitando os novos recursos e narrativas disponíveis, mas mantendo o que é essencial e enraizado nesta trama. No limiar entre ser uma história sobre relações abusivas e um terror de monstros extremamente ligado a um medo palpável, o longa mantém a ideia da ameaça ser um monstro físico, algo que está em seu DNA, ao mesmo tempo em que traz um tema extremamente pertinente para as discussões atuais. O fato de o vilão, um abusador, ser neste caso alguém que literalmente não podemos enxergar, só torna toda a atualização ainda mais pungente: não existe aquela história de que às vezes o inimigo está do lado e não sabemos?

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