Misto de terror gótico no estilo das produções inglesas do estúdio Hammer, com filmes adolescentes slasher, Noite Infernal foi lançado nos cinemas norte-americanos em agosto de 1981, tendo antes passado pelo film Market em Cannes em maio do mesmo ano. Ou seja, este ano está completando 40 anos de sua estreia. O grande chamariz aqui é a presença de Linda Blair estampando o cartaz e protagonizando o horror. A atriz, é claro, ficou imortalizada no papel de Regan, a menina possuída pelo demônio no clássico indicado ao Oscar O Exorcista (1973) – quando tinha 14 anos de idade. Mas não foi apenas o filme citado que recebeu indicação ao Oscar, e provando que Blair realmente atingiu o ápice de sua carreira com o thriller sobrenatural, a atriz igualmente foi nomeada ao Oscar por seu desempenho coadjuvante no longa. E toma-lhe prestígio.

O sucesso foi tanto que Linda Blair não perdeu tempo e voltou a interpretar Regan na sequência do clássico, em O Exorcista II: O Herege (1977), aos 18 anos; e tirou sarro de tudo (surfando mais um pouco na popularidade) com A Repossuída (1990), aos 31 anos. Ou seja, tendo vivido Regan duas vezes à altura do lançamento de Noite Infernal, podemos dizer que Linda Blair era um ícone do gênero, aos 22 aninhos. Bem, aqui temos que levar em conta também, como eu já havia citado em outra matéria, o fenômeno que ocorria com os filmes de terror adolescentes (ou pós-adolescentes), que ganharam a alcunha de slasher. Halloween – A Noite do Terror (1978) cimentou e popularizou, e Sexta-Feira 13 (1980) elevou o jogo a um novo patamar. Assim, no ano seguinte, em 1981, tais filmes atingiam seu auge, com uma verdadeira enxurrada de títulos do subgênero. E Noite Infernal foi mais um deles.

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O que difere verdadeiramente Noite Infernal dos demais, como dito, é uma atmosfera gótica, com o filme passado quase inteiramente dentro de uma mansão, com aparência de castelo medieval, dono de uma decoração soando intocada pelo tempo. Ajuda o fato do desenrolar do filme ser consequência de uma festa à fantasia de estudantes universitários, com direito aos personagens principais estarem trajando vestimentas de nobres britânicos da idade média.

Escrito por Randy Feldman, que depois viria a criar o buddy cop movie Tango e Cash (com Sylvester Stallone e Kurt Russell), Noite Infernal possui uma premissa simples, mas confeccionada de forma bastante gélida, graças a condução do diretor Tom DeSimone – que nunca conseguiu emplacar um trabalho significativo em sua carreira, sendo este provavelmente o mais cultuado, embora ainda assim sendo desconhecido de grande parte do público e não aficionados. O que DeSimone cria é um ritmo deliberado, que não se apressa com matanças ou os costumeiros sustos que arrastam os jovens para este tipo de produto. Aqui, o clima é construído com muita segurança nos fazendo temer cada canto do casarão assombrado, muitas vezes nos transportando junto aos personagens para dentro de tal mausoléu. A grosso modo, Noite Infernal está mais para Halloween do que para Sexta-Feira 13.

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A história segue um grupo de universitários numa festa à fantasia. É claro que os calouros precisam levar um trote. Assim, o veterano Peter (Kevin Brophy) logo bola um desafio que se mostrará verdadeiramente uma tarefa “infernal”. Quatro calouros: Marti (Linda Blair), Jeff (Peter Barton), Seth (Vincent Van Patten) e Denise (Suki Goodwin) precisarão passar a noite dentro de uma mansão tida como maldita. Mas calma, é claro que existe uma lenda urbana por trás da propriedade, aparentemente, abandonada. Segundo reza a lenda, o local era de propriedade de um famoso médico que ao descobrir que seus filhos nasceram com deficiência mental, após trancafia-los por anos na juventude, decide matar toda a família e tirar a própria vida também. Linda história para passar a noite, certo? A pegadinha, no entanto, está no fato de que o veterano planeja uma noite repleta de sustos e já andou providenciando todas as pegadinhas e armadilhas no local com seus comparsas. Eles só não esperavam que alguém além deles estaria à espreita, preparando sustos verdadeiros e mortais igualmente.



SPOILERS de 40 Anos (Pule o parágrafo)

O mais legal de Noite Infernal é que o filme não se dá ao trabalho de explicar verdadeiramente quem são os antagonistas. E sim, eu disse “os”. O que ocorre é que no local vive uma espécie de criatura meio “elo perdido”, quase um pé grande / sasquatch, um ser humanoide parte ogro, que presumimos ser um dos filhos da família, agora já um adulto, vivendo nas catacumbas da casa. O que ele andou comendo não me pergunte. Os esqueletos de sua família (possivelmente) se encontram nos corredores em forma de caverna subterrânea da propriedade. Mas eis que surge a reviravolta na trama, quando descobrimos que não se trata apenas de um pé grande, mas dois seres das cavernas vivendo no local e caçando os jovens sorrateiramente. Inicialmente, no entanto, a ideia era por apenas um vilão, mas os produtores acharam que ter um segundo elemento renderia algumas surpresas no terceiro ato do filme. A tragédia, infelizmente, se abateu para além da tela, e o ator alemão que interpreta o “homem das cavernas” principal faleceu num acidente de carro antes da estreia do longa.

Filmado num período de 40 dias, entre novembro de 1980 e janeiro de 1981, Noite Infernal seguia a fórmula rentável para qual diversas produtoras de cinema abriam os olhos: terror era barato e rendia muito junto a seu público cativo. Aqui, no entanto, com um orçamento inicial de US$1 milhão, a produção precisou aumentar o valor em mais US$400 mil para arcar com as despesas de filmagens mais caras durante os feriados de fim de ano. O resultado nas bilheterias foi de US$2,3 milhões, não exatamente um grande sucesso, ainda mais se comparado a ícones do gênero como os citados Halloween e Sexta-Feira 13. De fato, muitos sequer ouviram falar deste filme. E você, já conhecia?

A consequência deste relativo fracasso financeiro foi o fechamento das portas para a produtora do longa, a Compass International Pictures. E por falar na produtora, ela foi a mesma que deu ao mundo exatamente o primeiro filme do maníaco Michael Myers, dirigido por John Carpenter, citado acima, demonstrando a grande conexão entre os filmes. Halloween, no entanto, foi o único grande sucesso da empresa. Mas a história não acaba de forma tão triste assim, já que quatro anos após seu encerramento, os fundadores da companhia Irwin Yablans e Joseph Wolf criaram a Trancas International Films e adquiriram os direitos da franquia Halloween, produzindo todos os exemplares desde o quarto filme de 1988, incluindo a trilogia mais recente em parceria com a Blumhouse: Halloween, Halloween Kills e Halloween Ends.

Por falar nos bastidores da produção de Noite Infernal, alguns nomes famosos estiveram envolvidos atrás das câmeras em seus primeiros trabalhos no mundo do cinema. Um dos assistentes de produção do terror foi ninguém menos que Frank Darabont, que viria a se tornar um renomado diretor de cinema indicado a três Oscar, tendo em sua filmografia produções verdadeiramente adoradas até hoje, vide Um Sonho de Liberdade (1994) e À Espera de um Milagre (1999). Outra figura ilustre presente no set, segundo reza a lenda, foi ninguém menos que Kevin Costner, antes de se aventurar na frente das câmeras como ator. Segundo Vincent Van Patten, que no filme interpreta o surfista Seth, Costner trabalhou na produção como assistente de câmera.

E terminando com o elenco, o protagonista masculino Peter Barton, que interpreta Jeff, escalaria para a série de terror slasher de maior sucesso no cinema ao viver, três anos depois, o personagem Doug em Sexta-Feira 13 – Capítulo Final (1984) e ter sua cabeça esmagada por Jason enquanto tomava banho. Voltando para Linda Blair, como sabemos, infelizmente a carreira da atriz nunca decolou como deveria. Na época, a atriz afirmava que devido ao papel em O Exorcista, ela havia ficado marcada e estereotipada à personagens joviais e vítimas indefesas. Pensando em dar uma guinada em sua carreira e mostrar que poderia ser vista como uma mulher de atitude e força, adulta e não mais uma menininha, ela decidiu posar nua para a revista Oui em 1982, após o lançamento de Noite Infernal, decidida que este fosse o último terror em sua carreira. O movimento de Blair terminou tendo o resultado contrário do planejado e sua carreira ficou restrita a filmes de gênero, produções B do cinema e pequenas participações em programas de TV. A realidade do mundo competitivo de uma indústria como Hollywood sempre será mais assustador e cruel do que qualquer terror que vejamos nas telas.



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