Em Ilhabela, o cinema não chega apenas quando a luz se apaga e o projetor começa a girar. Ele chega de barco. Percorre estradas de terra. Entra em escolas, praças e bairros. Às vezes, atravessa a mata para alcançar comunidades onde uma sala comercial nunca existiu.
É nesse movimento que o Citronela constrói sua história. Em atividade desde 2018, quando ainda funcionava como um cineclube, a Associação Cultural Citronela leva sessões de cinema e debates a diferentes lugares da cidade. O festival nasceu desse desejo de reunir pessoas em torno das imagens, mas cresceu como uma espécie de fio que conecta a ilha às histórias do Brasil.
Para Juliana Borges, diretora de Comunicação e cofundadora do Citronela, a missão nunca foi simplesmente exibir filmes. O objetivo é criar encontros. “O cinema abre conversas”, resume. E, quando se trata do documentário, essas conversas podem deslocar certezas, aproximar mundos e fazer com que uma comunidade reconheça sua própria imagem na tela.
Com cerca de 35 mil habitantes, Ilhabela não possui cinemas comerciais. Para chegar à sala mais próxima, é preciso atravessar a balsa e seguir até Caraguatatuba. Para muita gente, portanto, a experiência de assistir a um filme em uma tela grande só acontece quando a própria arte vai ao seu encontro.

É por isso que o cineclube deixou de ser apenas um endereço, expandindo-se para o formato de um festival. “A gente começou a organizar sessões de filmes com debates em diferentes lugares da cidade, trabalho que continuamos a fazer até hoje. Realizamos exibições em espaços culturais e comunidades tradicionais, com o objetivo de levar entretenimento e discussões a partir das histórias que projetamos”, conta Juliana.
E a escolha pelo formato documental como foco do festival é também imprescindível para essa missão. “É um cinema teoricamente mais difícil, mas a gente quer muito quebrar esse tabu de que documentário é chato, de que não é cinema, de que é de nicho. Documentário é cinema e o sucesso das sessões lotadas neste ano é uma evidência clara de que há interesse”, afirma a cofundadora do Citronela Doc.
A ausência de salas comerciais torna esse movimento ainda mais crucial para a democratização do entretenimento. Segundo Juliana, “como o acesso ao cinema é muito restrito aqui na região, muitas pessoas têm a primeira experiência diante de uma tela grande nas sessões organizadas pelo Citronela”.
Mas levar um filme para uma comunidade não significa chegar com uma programação fechada. Na Baía de Castelhanos, onde o acesso é feito por estrada ou barco, o cineclube aprendeu que a sessão começa muito antes da projeção. “A ideia não é a gente apenas levar cinema. É entender como as comunidades se organizam, que filmes elas querem ver, como elas querem assistir. A gente faz em parceria”, explica Juliana.
A troca aparece também na escolha das obras. Um curta sobre um canoeiro tradicional, como foi o caso de “Renato Canoeiro Caiçara”, pode não interessar certos públicos, mas ganha outro sentido quando exibido em uma comunidade onde pais e avós ainda constroem canoas. “Não se trata de só levar um filme. É a gente também aprendendo o que faz sentido para essas pessoas assistirem, porque elas sabem o que querem e adoram ver suas narrativas estampadas nas telonas”, diz.
Cinema sem catraca e sem fronteiras

E Juliana acredita que esse encontro coletivo se tornou ainda mais importante em uma geração em que as telas são individuais. “É muito diferente você ver um filme sozinho, na sua casa, e ver um filme como parte de uma audiência. Eu acho que as pessoas estão curtindo muito essa experiência de estarem juntas e acho revolucionário promovermos isso nos tempos de hoje.”
Para ela, o cinema não serve apenas para transportar o público para longe. “Ele é mágico, te leva a imaginar, a sonhar e sair do seu mundo. Mas ele também tem um componente político muito forte, principalmente quando se trata de um documentário. Ele promove discussões, abre a nossa mente e nos desafia”, concluiu.
Assim, o Citronela Doc constrói seu legado, em filmes que cruzam as fronteiras, reduzem as distâncias e encontram o espectador onde ele está. A cada sessão, a ilha se vê, se escuta e também descobre outras paisagens para além dos contornos do litoral norte. E após o deslizar dos créditos finais, quando as luzes novamente se acendem, tais histórias apresentadas não cessam. Elas continuam — às vezes em conversas na praça, às vezes à beira-mar, mas sempre marcadas na mente de quem testemunhou de perto o poder do cinema.


