Às margens do Lago de Furnas neste último dia 27 de agosto, teve início a 9ª Mostra de Cinema de Fama, que ocorre na cidade mineira famosa pelo “Mar de Minas” – uma extensa lagoa que dobra o horizonte e que realça o charme de um dos locais mais idílicos do estado.
O novo ano do festival representa um marco histórico, com número recorde de submissões de diversos lugares – mais de 3 mil inscrições, como revelado pela própria organização -, e a noite de abertura foi marcada por homenagens mais que merecidas. A primeira delas foi a Dona Naná, educadora local responsável por impactar e influenciar gerações de crianças que passaram por sua tutela e que se tornou um dos símbolos da pequena cidade interiorana. O carinhoso apelido dado a Ana Louise Nasaré – cujas profundas raízes com a arte e à memória local tiveram, direta e indiretamente, um impacto na própria Mostra.

Após ser recebida por uma enxurrada de aplausos, chegou a vez de Werner Schünemann ser homenageado pela organização do festival e pelo público presente. O ator gaúcho, conhecido por seu trabalho em produções como ‘A Casa das Sete Mulheres’, ‘América’ e ‘JK’, carrega uma profunda conexão com Fama e caminhou até o tapete vermelhos quase sem conter as lágrimas – e levando pouco tempo até cair no pranto pelo carinho e pela recepção.
Conversando exclusivamente com nosso redator Thiago Nolla, que participou de todos os dias do festival, Schünemann comentou sobre sua relação com a cidade e como se sentiu com o tributo:
“Eu fiquei muito emocionado, sabe?”, ele começou. “Essa homenagem se estende, abraça mesmo, como uma asa generosa, toda a minha obra, toda a minha vida. E aí você vê a vida toda valendo a pena para muita gente. Eu digo para [o ator] José de Abreu: Zé, eu não tenho inimigos. Fazer inimigos é falta de talento”.
O ator acrescenta: “eu não tenho inimigos. O povo gosta do meu trabalho. E eu espero, mesmo assim, sempre me esforçar para continuar merecendo isso. Esse carinho. E mesmo fora do Brasil é assim, sabe? Nos outros países isso também acontece. Essa emoção vem disso. Você pensar assim: ‘cara, se eu morresse agora, já teria valido a pena a minha passagem’”.

O filme de abertura da Mostra de Fama, inclusive, foi o clássico ‘Netto Perde Sua Alma’. Lançado em 2001, o longa traz Schünemann no papel de Antônio de Souza Netto, um general brasileiro que é ferido em plena Guerra do Paraguai e agora está se recuperando no Hospital Militar de Corrientes, na Argentina. Lá, ele percebe que coisas estranhas estão ocorrendo ao seu redor, como o capitão de Los Santos acusar o cirurgião de ter amputado suas pernas sem necessidade e reencontrar um antigo camarada, o sargento Caldeira, ex-escravo com quem lutou na Guerra dos Farrapos, ocorrida algumas décadas antes. Juntamente com Caldeira, Netto rememora suas participações na guerra e ainda o encontro com Milonga, jovem escravo que se alistara no Corpo de Lanceiros Negros, além do período em que viveu no exílio no Uruguai.
O projeto é inspirado no livro homônimo de Tabajara Ruas, que inclusive assume a cadeira de direção de Beto Souza, e levou dezenas de prêmios para casa além de garantir a Schünemann algumas estatuetas de Melhor Ator em festivais nacionais e internacionais. Em seu aniversário de duas décadas e meia, é interessante ver como o título conquistou status cult em meio aos cinéfilos – algo que o próprio ator não sabia.
“Eu não sabia que ele já tinha status cult”, ele disse. “Ele é diferente, o filme. Até hoje. Ele é retrô e muito moderno, ao mesmo tempo”. Quando questionado como foi se rever como o protagonista titular em Fama disse que ficou chocado em se ver “novinho”, mas disse que tem uma afeição significativa pelo personagem. “Eu gosto das perguntas que o Netto deu sobre mim. As perguntas sobre a guerra, sobre esse heroísmo”.

“Tem uma hora que ele fala: ‘eu matei gente a vida toda. Matei índio, matei negro, matei branco. E acima de tudo matei castelhanos. E, agora, eu só penso numa imensa fila, numa procissão de mortos’. Eu acho que ele perde a alma realmente, o Netto”, ele acrescenta. “Ele perde a alma. E quando o Caronte vem buscá-lo? Ele diz: ‘meu nome é Antônio’, cheio de pomba, cheio de empáfia’. ‘Meu nome é Antônio’”.
Schünemann também aproveitou para elogiar a equipe criativa do longa: “adoro a música. A fotografia do Roberto Henkin é genial. E o Tabajara e o Beto fizeram um filme com um tempo muito legal também. A Lígia [Walper] foi premiada em Gramado pela montagem. E a gente ganhou prêmios em toda parte. O filme é muito bom”.
“Rever-se, assim, foi uma viagem no tempo. A minha esposa, que estava ali também, já viu duas vezes. E ela me disse [durante a exibição]: ‘você vai querer ver de novo?’. E eu respondi: ‘só um pouquinho’. Só um pouco, passa rápido”.


