A Vida em Preto e Branco

Mais uma adaptação de um livro de ficção juvenil chega aos cinemas. Essa, no entanto, exibindo algumas diferenças promissoras. Para começar, vale dizer que O Doador de Memórias é mais sobre ideias do que sobre ação, o que é refrescante. Outro fato de bastidores que chama a atenção é o desejo do ator Jeff Bridges, também o produtor da obra, em levar o texto de Lois Lowry aos cinemas há mais de dez anos. À primeira vista a história é básica e segue de perto a estrutura montada para filmes como Jogos Vorazes, Divergente e até mesmo Harry Potter, na qual um jovem é o “escolhido” e o único capaz de sacudir o sistema regente totalitário.

No futuro, a sociedade vive numa espécie de redoma utópica. Tudo exala perfeição, não existe qualquer tipo de crime e sentimentos mais intensos são proibidos, como o amor e a paixão. Tal ideia faz lembrar o futuro criado no veículo de ação de Sylvester Stallone, O Demolidor (1993), no qual o consumo de carne vermelha, sexo carnal e qualquer tipo de profanidade verbal são estritamente proibidos e dignos de multas. Tudo, é claro, tendo em vista uma qualidade de vida exemplar para seus cidadãos. A questão é tirar o direito de escolha do indivíduo, um ato escravista.

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Todos também possuem uma função dentro dessa nova sociedade, que assim como em Harry Potter e Divergente, os jovens ao atingirem determinada idade passam por um processo seletivo público, que irá definir suas vidas. O protagonista é Jonas (Brenton Thwaites, do terror O Espelho). Durante sua seleção profissional, ele calha de receber o raro cargo de Receptor de Memórias. O jovem trabalhará diretamente com o Doador de Memórias, papel do veterano Bridges. O cargo é secreto, e lhe permite inclusive mentir para proteger o serviço, algo não tolerado também no novo mundo.

Vale mencionar que inicialmente O Doador de Memórias é um filme em preto e branco, fato que chama a atenção de forma criativa na obra. É interessante observar um produto mirado ao público jovem que ousa e assume certos riscos. Mesmo antes de ser escolhido como Receptor, o protagonista começa a enxergar certas cores. Tal situação se apresenta quando Jonas tem sensações mais fortes, em especial em relação à amiga de infância Fiona (papel da belíssima menina israelense Odeya Rush, clone jovem da francesa Marion Cotillard), por quem desenvolve uma forte paixão.

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A função do Doador é passar para o Receptor as memórias sobre a história da humanidade. Da vida que existia antes da grande transformação. Todos os sentimentos, alegria, amor, paixão, mas também o medo, a destruição, a guerra. Dessa forma, os jovens ficam conhecendo o que de melhor e de pior a raça humana tem a oferecer. Esse é um treinamento exaustivo, que exige muito do Doador e do Receptor, e uma preparação é necessitada para tamanha mudança e conhecimento. Recentemente, o Doador perdeu uma jovem receptora, que não aguentou o sofrimento que conheceu. Rosemary é interpretada pela cantora Taylor Swift numa participação especial, fazendo uso de uma peruca morena.

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A romancista Lowry usa como mote para impulsionar sua trama a Alegoria da Caverna, de Platão, que fala sobre o aprisionamento pela ignorância e a liberdade através do conhecimento. Um pequeno mundo nos é oferecido sem que saibamos da existência de outro muito maior e mais rico. A autora incrementa seu texto confeccionando-o com o que existe de mais atraente na ficção científica, e utilizando do material que serve como sua base, a construção de novos mundos elaborados. A oferta é tentadora e a realidade é criada somente para extinguir a dor e sofrimento. A talentosa veterana Meryl Streep interpreta a regente do novo mundo, dando status e credibilidade a O Doador de Memórias.


Ao descobrir sentimentos e sensações diversos, Jonas começa a enxergar cores, o que remete a obra ao emotivo A Vida em Preto e Branco, uma das produções mais criativas dos anos 1990. Katie Holmes, que interpreta a mãe robótica do protagonista, está bem escalada num papel que não exige muito dela. A óbvia brincadeira é com a proximidade do que vemos na tela com a vida real da atriz no período em que estava casada com o excêntrico astro Tom Cruise, adepto dos exóticos mantras da Cientologia. O maior defeito de O Doador de Memórias é empurrar a óbvia continuação, desprovendo o filme de um desfecho.

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