A tão aguardada quinta aventura do maior arqueólogo do cinema finalmente está saindo do papel! Ainda sem título oficial, o quinto Indiana Jones trará novamente a presença do astro octogenário Harrison Ford no papel título. Por anos se especulou um reboot para a franquia, trazendo outro ator mais jovem como protagonista – um dos que mais estava na boca do povo era Chris Pratt (embora muitos defendessem também Bradley Cooper). Agora está decidido, Harrison Ford será Indiana Jones pela quinta vez nos cinemas. Mas nem tudo será o mesmo. Isso porque pela primeira vez, Steven Spielberg não será o diretor, passando para o cargo de produtor apenas. Quem comanda agora é James Mangold, dos sucessos Logan (2017) e Ford vs. Ferrari (2019).

Tudo começou há 41 anos exatamente, quando Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981) se tornava um dos primeiros blockbusters da história. A ideia nasceu da mente do produtor George Lucas, que visava homenagear o cinema de matinê dos primórdios da sétima arte. Lucas convenceu o colega Steven Spielberg a desistir de seu sonho de dirigir uma aventura de 007, lhe prometendo que tinha algo mais legal na manga. Dito e feito. Nos anos 1980, seguiram mais duas aventuras com o personagem: Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989). Depois de um hiato de quase 20 anos com o personagem eternizado em nossas mentes e corações, Spielberg, Lucas e Ford tiraram o aventureiro da aposentadoria e o trouxeram para os anos 2000 com Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) – o filme, digamos, mais divisor de opiniões da franquia.


Mas o que muitos podem não lembrar, e outros tantos sequer saber, é que após a trilogia original da década de 1980, e antes do filme de 2008, Indiana Jones existiu na década de 1990. Porém, não se trata de mais uma produção para o cinema esquecida, e sim a primeira e única transposição do personagem para as telinhas, na forma de um programa de TV. O Jovem Indiana Jones, ou As Aventuras do Jovem Indiana Jones (The Young Indiana Jones Chronicles), como diz o título, centrava sua narrativa nos primeiros anos do arqueólogo Henry Jones Jr., perpassando desde sua infância, a adolescência até a juventude. O seriado foi ao ar nos EUA pela rede ABC, estreando no dia 4 de março de 1992 (no Brasil, exibido pela rede Globo nas tardes de domingo) – ou seja, em 2022 completou nada menos que 30 anos de lançamento. Época mais que propícia para celebrar essa verdadeira relíquia de um dos maiores personagens da história do entretenimento mundial.


Com produção da Amblin Entertainment, a LucasFilm e a Paramount Television, a ideia do criador George Lucas era por um programa que misturasse entretenimento e cultura, com teor educativo, onde o protagonista encontrasse figuras históricas importantes e interagisse com elas em suas aventuras. Fora isso, Lucas usava como gancho a cena de abertura do terceiro filme, A Última Cruzada, que inicia com o jovem Indy (nas formas do saudoso River Phoenix) participando de uma das cenas de ação mais legais do filme, envolvendo um trem e animais de zoológico. Assim, Lucas planejou mais histórias para o personagem viver ainda na juventude, tudo é claro, banhado em muita aventura ao clima dos filmes.

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Na série, no entanto, nada de River Phoenix no papel principal, já que o jovem Indiana Jones ganhou as formas de Sean Patrick Flanery. O personagem até foi oferecido antes para Phoenix, que o recusou por não desejar retornar para a TV naquela altura de sua carreira – nesta época, um ator de cinema ir fazer televisão era considerado um retrocesso. River Phoenix infelizmente faleceria em 1993, aos 23 anos, na mesma época em que o programa chegaria ao fim.

Mas não foi só River Phoenix que não aceitou ir para a telinha e impulsionar o programa do tio Lucas, o próprio astro Harrison Ford também era visado pela produção para participar da série como um Indy mais velho ao final dos episódios. A resposta de Ford, um astro no auge de sua carreira no período, foi um sonoro não, com a justificativa de que “trabalhar na TV não faria nada por sua carreira”. O ator conhecido por ser turrão, porém, topou participar apenas de um episódio, na segunda temporada, intitulado ‘The Mystery of the Blues’, no qual Ford interpreta Indiana Jones com 50 anos de idade, com direito a uma robusta barba grisalha – um visual que cairia bem no personagem. Para contornar essa ausência, Lucas teria outra ideia, e colocaria o personagem mais velho ainda, aos 90 anos de idade, aparecendo ao final de cada episódio, comentando e lembrando sobre suas aventuras do passado. O papel do velho Indy, com direito a um tapa-olho, ficou com o ator George Hall.


Astro dos filmes Indiana Jones no cinema, Harrison Ford dá as caras em um dos episódios da série de TV.

Mesmo sem as participações de River Phoenix e Harrison Ford do jeito que o produtor George Lucas queria, a série atraiu a atenção de diversos atores consagrados em participações especiais, e outros tantos em início de carreira que viriam a se tornar astros e estrelas de Hollywood. Todos vivendo personagens importantes em seus episódios. É o caso com veteranos como Christopher Lee, Max von Sydow (no papel de Sigmund Freud), Vanessa Redgrave, e até Ian McDiarmid e Anthony Daniels, de Star Wars; e então novatos como Catherine Zeta-Jones, Elizabeth Hurley, Clark Gregg e Daniel Craig, só para citar alguns. Aliás, Zeta-Jones e Hurley fizeram parte do histórico de belas mulheres com as quais o jovem Indy se envolveu no programa, mantendo a mesma linha dos filmes – onde a cada nova aventura, o protagonista arruma uma nova companheira.

A narrativa do seriado se dividia, indo e voltando ao longo do tempo. Desta forma, na maioria das aventuras tínhamos Indiana Jones como um jovem rapaz nas formas de Sean Patrick Flanery. Porém, em outro punhado de episódios, o personagem era interpretado pelo pequeno Corey Carrier, em histórias que focavam na infância do protagonista, em aventuras ao lado do pai e também de sua mãe (vividos por Lloyd Owen e Ruth de Sosa).

O veterano George Hall e o jovem Sean Patrick Flanery foram dois dos quatro atores a viver Indiana Jones no programa.

Uma das reclamações dos fãs em relação ao programa era a falta de elementos sobrenaturais nas tramas dos episódios – assim como nos filmes. Ou seja, na maioria dos episódios, as aventuras de Indiana Jones na juventude eram mais centradas em cenários reais da história mundial, sem muito espaço para a fantasia. Porém, esses elementos fantásticos, vira e mexe eram inseridos – embora fosse na minoria dos episódios. Um dos mais memoráveis e queridos pelos fãs trazia o jovem Indy enfrentando ninguém menos do que o Conde Drácula, com direito a uma cena onde o protagonista encontra diversas vítimas empaladas (como diz a lenda sobre a figura sombria) e até mesmo uma visita ao seu castelo assombrado. Esse episódio, passado na Transilvânia, aliás, marcaria o último capítulo da série de TV, sendo o desfecho do programa. A ideia do encontro com Drácula, guarda semelhanças com um roteiro abandonado, escrito por Chris Columbus (Gremlins) para ser o quarto filme de Indiana Jones no cinema. A história abriria num castelo assombrado.

Existe certa discussão por parte dos fãs se o programa serve de cânone para a franquia nas telonas ou não. Isso porque ele foi lançado após a trilogia original nos cinemas da década de 1980, e mesmo assim não levou em conta alguns fatores apresentados anteriormente, como a relação conturbada entre o herói e seu pai (na série tida como algo afetuoso) e até mesmo o medo de cobras, surgido no terceiro filme, e na série tendo origem ainda na infância. O mais curioso, no entanto, e o que enfurece os fãs saudosistas, é a mudança proposta por George Lucas no lançamento do programa em DVD – sempre Lucas modificando sua obra (e a piorando). O que acontece é que o produtor simplesmente apagou todos os trechos com o velho Indy dos episódios ao lançar o seriado na mídia física digital. O motivo? No seriado o velho Indy tinha uma filha (papel de Susan Bigelow), e mesmo que O Reino da Caveira de Cristal (2008) tenha levado em consideração e citado diversos elementos da série, unindo os dois universos, não deixou espaço em sua narrativa para uma filha. Pelo contrário, apresentou um filho, Mutt (Shia LaBeouf). Veremos como isso se encaixará no novo filme. Fora isso, em outra manobra “porca”, o criador resolveu juntar vários episódios como se fossem filmes, tornando a experiência de assisti-los simplesmente maçante. Afinal, episódios de uma série possuem ritmo diferente e não são pensados como filmes para o cinema.


O Jovem Indiana Jones não foi o sucesso esperado por todos os envolvidos e durou apenas duas temporadas, num total de 28 episódios, de 1992 a 1993. O motivo, segundo Lucas, foi o alto custo da produção, que chegou a filmar em 23 países diferentes – quase um por episódio -, em relação à audiência, baixa para o que se esperava. Pelo custo, era necessário que a série explodisse e se tornasse o novo fenômeno da TV na época. Não aconteceu. É reportado inclusive que George Lucas havia traçado todo um plano, como uma extensa linha do tempo, detalhando a vida de Indiana Jones, as datas das aventuras, os encontros com as figuras históricas e os acontecimentos que veriam o personagem no meio. Esse material seria o suficiente para pelo menos 70 episódios. E caso a série tivesse sido renovada para a terceira temporada, veríamos a participação de rostos conhecidos do primeiro filme, Os Caçadores da Arca Perdida, como o jovem Belloq, o rival do herói, e a relação de Indy com seu mentor, o pai de Marion Ravenwood.

Quem sabe agora com a franquia nas mãos da Disney, e com um novo filme pronto para estrear em 2023, o estúdio não se anime também para tirar O Jovem Indiana Jones da gaveta como uma nova série para o streaming Disney Plus em ritmo de superprodução, assim como os programas da franquia Star Wars, reaproveitando o material não utilizado de George Lucas.

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