José Mojica estabeleceu os alicerces do gênero ainda nos anos 60

Tradicionalmente o gênero do terror não é dos mais estimulados na indústria cinematográfica brasileira. O cinema em si foi introduzido no país bem ao final do século XIX, porém os fragmentos mais famosos desse período são supostas gravações que Affonso Segreto, primeiro dono de um cinema no Brasil, teria feito da Baía de Guanabara após voltar da Europa. Tais amostras, entretanto, nunca foram confirmadas.

Por boa parte da primeira metade do século XX o modelo predominante foi o mudo, dele surgiram obras alinhadas com o que se produzia principalmente nos Estados Unidos porém com alguns exemplares trazendo experimentações interessantes. Dentre eles, nenhum é mais lembrado que Limite (1934) que mesmo considerado por muito tempo como uma obra perdida é tido como o grande filme brasileiro de todos os tempos.

O início da segunda metade do século serviu para estabelecer alguns conceitos, como o da ampla procura do público por mais comédias; em especial as de estilo pastelão que eram protagonizadas por nomes como Costinha e Ronald Golias. Entretanto, os anos 60 também foram um ponto de virada em termos artísticos.



“Limite” é considerado por muitos o melhor filme brasileiro de todos os tempos.

Primeiro graças ao nascimento do movimento conhecido como Cinema Novo; este sendo feito aos moldes da Nouvelle Vague francesa era capitaneado por jovens promessas do cinema nacional como Glauber Rocha, Paulo César Saraceni e Helena Solberg com a proposta de produzirem filmes que fossem uma alternativa às produções norte-americanas quanto também que representassem com fidelidade a real sociedade brasileira.

Ao mesmo tempo, em 1964, o cineasta José Mojica Marins lançou aquele é considerado o primeiro filme de terror brasileiro: À Meia Noite Levarei Sua Alma tendo como protagonista o icônico Zé do Caixão (interpretado pelo próprio diretor após a desistência do ator original). A trama é bastante direta; um coveiro mau visto pela cidade deseja desesperadamente ter um filho, porém sua esposa não consegue engravidar.

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É só então que ele passa a ter na esposa de seu amigo a mulher ideal para lhe conceber um filho. É essa motivação que guia todas as ações do personagem, assim como é constantemente repetida por ele, a de que não importa quais crimes ele precise cometer mas a continuidade do seu sangue precisa estar assegurada.

Já na sua estreia, Mojica brincava com muitos elementos visuais para sua obra.

O filme já apresentava uma certa tendência para o gore que era incomum para a época, em especial na cena em que Zé corta os dedos de um homem após uma desavença em um bar. Por conta disso e do teor do filme como um todo, era de se esperar que a obra fosse mais uma vítima da tradicional censura presente no cinema brasileiro (prática que vinha desde muito antes de 64).



Entretanto, foi dada a cada estado a autonomia para decidir o que deveria ser feito com a obra. Houve a proibição em alguns mas também a liberação em outros, sendo São Paulo o exemplo mais claro do sucesso de público nos locais permitidos; um cinema da cidade, por exemplo, deixou o filme em cartaz por quatro meses.

A inovação de Mojica catapultou seu nome para a admiração internacional de outros nomes como Dario Argento (conforme ele assumiu em entrevista para o Correio Braziliense em 2011). Já o sucesso comercial que foi À Meia Noite Levarei sua Alma rendeu mais duas sequências em 1967 e 2008. Falecido em 2020, José Mojica deixou um legado palpável no cinema nacional e todo o terror produzido no Brasil desde então deve sua existência ao pioneirismo do cineasta.

 

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