Opinião | ‘Luca’, nova animação da Pixar, como uma metáfora LGBTQIA+

No último dia 18 de junho, os ovacionados estúdios Pixar lançaram mais uma animação bastante característica de sua identidade narrativa, Luca. A produção, exibida diretamente no streaming do Disney+, nos convidou para visitar a “paradisíaca” cidade fictícia Portorosso, localizada no litoral italiano – mas não focou em seus personagens humanos, e sim em criaturas marinhas que habitavam o oceano no entorno, incluindo o personagem titular (vivido por Jacob Tremblay).

A familiar narrativa tem foco na amizade entre Luca e Alberto (Jack Dylan Grazer), dois adolescentes que sonham em conhecer o mundo e acabam criando fortes laços para que isso se torne realidade. Ao longo da jornada, eles se aventuram nas estreitas ruas da vila e cruzam caminho com a rebelde e extrovertida Giulia (Emma Berman), uma menina “excluída” e maltratada pelos valentões de onde mora que encontra na dupla uma chance de vencer todos os obstáculos.

É claro que a temática em questão já foi trazida inúmeras vezes pela Pixar, desde ‘Toy Story’ até ‘Soul’, mantendo-se em níveis mais claros ou escondendo-se em máscaras diferenciadas – como a relação entre Merida e sua mãe em ‘Valente’. Mas o interessante de Luca é a forma como cada enredo se entrelaçou para conversar com uma análise sociológica bastante pertinente aos dias de hoje: a representação da comunidade LGBTQIA+.

Vale lembrar que não me refiro ao possível fato de que Luca e Alberto sejam gays e nutram de um carinho maior um pelo outro – afinal, isso não importa. Falo, aqui, de como a dinâmica entre a dupla e o mundo externo corrobora para que entendamos o peso do preconceito em pleno século XXI e de que forma a não aceitação do tradicionalismo retrógrado impede as pessoas de serem quem realmente são. No longa-metragem, a sutileza dessa exploração poderia ganhar níveis ainda maiores, como aconteceu com a protagonista de ‘A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas’, da Sony Pictures – algo que ainda falta no cenário mainstream do entretenimento. Mas, de qualquer forma, é notável o modo como o diretor Enrico Casarosa e o roteiro de Jesse Andrews e Mike Jones foi talhado com cautela para que pudéssemos entender, através de metáforas, as mensagens entregues de bandeja ao público.

Alberto é a representação de um espírito jovem e que não teme o mundo – ou, se o teme, faz questão de esconder. Vivendo sem o pai há anos em uma pequena ilha abandonada, coletando os “tesouros” que os humanos deixam cair nas águas, ele nunca se contentou em apenas sobreviver, almejando a uma liberdade que nem muitos entenderiam pelo fato de ser diferente. Luca, da mesma maneira, percebeu que havia muito mais a ser descoberto do que o refúgio seguro que os pais lhe proporcionaram a vida inteira, enxergando em Alberto o pontapé que precisava para sair da zona de conforto e aventurar-se.

Quando saem do mar e finalmente se veem em meio a tantas pessoas, eles se sentem acuados por serem obrigados a manter o disfarce humano, com receio do que poderia acontecer caso suas identidades reais fossem reveladas – medo, ódio ou perseguição. À medida em que compreendemos a densidade narrativa por trás do misticismo fabulesco do filme, percebemos que a trama não foge muito ao que gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais enfrentam dia após dia, forçando-se a se manter dentro de uma normatividade selada, tementes da reação externa. Afinal, sabe-se que boa parte da comunidade, especialmente na parcela trans, é abandonada pela própria família e por aqueles em que confiavam, tendo de recorrer aos mais condenáveis meios para se manter viva – enfrentando, dia após dia, todas as injúrias que ferem os princípios básicos dos seres humanos.

Luca e Alberto encontram outros personagens dispostos a ajudá-los, mas ainda sem conhecê-los por completo. Giulia é a única que, apesar de se assustar ao ver Alberto como uma criatura marinha, entende que o problema principal é deixá-los ali para serem mortos por uma cultura que condena o “estranho” – ora, até o pai da jovem, Massimo (Marco Barricelli), por mais austero e marcado por uma hereditariedade inexplicável, entende que eles são apenas amigos de Giulia e que estiveram ao seu lado quando mais precisou, ajudando-a a vencer o torneio local e construindo uma amizade que nem o tempo poderia apagar.

Conforme a obra se aproxima da exultante conclusão, os espectadores percebem que não apenas Luca e Alberto se escondiam para se mesclar à multidão: duas outras personagens figurantes, percebendo que seriam aceitas pelos habitantes de Portorosso, tiram um peso dos ombros e abrem-se para quem realmente são, sem ressentimentos e sem hesitações, demonstrando que essa independência não tem preço e vale muito a pena.

O caminho para a compreensão das minúcias em filmes de animação é longo, mas com resultados infalíveis. A diversidade sempre esteve presente entre as pessoas e levá-la para meios que atinjam a massa é o primeiro passo de exaltá-la – e Luca, ainda que não invista totalmente no que se é preciso, é um ótimo jeito de começar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.