Ao Mestre com Carinho

O tempo passa, o tempo voa. E alguns filmes cultuados do cinema se tornam quarentões este ano. Um dos mais notórios a adentrar a meia idade é o thriller definitivo Vestida para Matar (1980), ainda enaltecido como uma das melhores obras de suspense da história.

Como forma de homenagear esta produção icônica, o CinePOP separou para você algumas curiosidades, comentários e detalhes de produção do longa. Ah, sim. O texto a seguir contém spoilers sobre a trama de Vestida para Matar. Mas levando em conta que o filme está fazendo 40 anos em 2020, você já deveria ter assistido, não acha? Seja como for, se ainda não viu, corra para ver e depois volte aqui para saber tudo sobre esta verdadeira pérola da sétima arte.

O Diretor | Brian De Palma

Brian De Palma ficou conhecido em sua carreira por ser um grande discípulo do cinema de Alfred Hitchcock, e dele pegar inspiração para seus próprios trabalhos. Foi assim com Dublê de Corpo (1984), por exemplo, clara homenagem à Janela Indiscreta (1954). Aqui, o objeto de culto é nenhum outro do que Psicose (1960), o filme mais famoso do citado mestre do suspense.

Quando lançou Vestida para Matar (1980), De Palma já era conhecido por seus filmes cult, vide O Fantasma do Paraíso (1974), A Fúria (1978) e, principalmente, Carrie – A Estranha (1976), adaptação de Stephen King. Vestida para Matar se tornava seu grande trabalho autoral até então.

Além de homenagear tais obras de Hitchcock, De Palma inseria toques modernos, através de muitos comentários sociais relevantes que posicionavam seus filmes no contexto da atualidade. Assim, Vestida para Matar vai além do levantado em Psicose no tópico da “transformação sexual”.

O diretor, que também assina o roteiro, conseguiu vender o texto pelo valor de US$1 milhão – o que para a época impressiona. Vestida para Matar teve um orçamento total de US$6.5 milhões, e um retorno em bilheteria de US$31.9 milhões só nos EUA.

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Curiosamente, a data de estreia do filme nos EUA foi no dia 25 de julho, no meio do verão americano – época conhecida hoje por ser a maior disputa dos grandes estúdios pelo topo das bilheterias. Mas precisamos levar em conta que em 1980, os blockbusters ainda estavam engatinhando – com apenas dois grandes fenômenos: Tubarão (1975) e Star Wars (1997). Neste mesmo ano, O Império Contra-Ataca estrearia para quebrar tudo. Vestida para Matar chegava ao Brasil no dia 14 de setembro de 1981.

O que muitos podem não saber é que uma pequena parte da ideia para o filme veio de uma situação real na vida de Brian De Palma. Ainda garoto, sua mãe desconfiada, pediu para que o rapaz seguisse o próprio pai com um equipamento de filmagem. O jovem De Palma flagrou o sujeito com outra mulher. No filme, temos uma situação similar quando o personagem Peter Miller (Keith Gordon) decide fazer vigília e documentar o local de entrada e saída do consultório do doutor Robert Elliott (Michael Caine), a fim de descobrir alguma pista sobre o misterioso assassinato de sua mãe.

Assim como o mestre Hitchcock, o cineasta De Palma também ficaria conhecido como um dos grandes nomes do suspense – e algumas de suas marcas registradas já estavam presentes em Vestida para Matar: como uma cena pra lá de tensa numa estação de metrô, que viria a ser reprisada em Os Intocáveis (1987) e O Pagamento Final (1993), por exemplo. Além disso, numa das primeiras cenas do filme, que envolve o flerte da personagem Kate Miller (Angie Dickinson) com um desconhecido em um museu, o diretor cria uma sequência de 9 minutos completamente sem diálogos, narrada somente através de imagens e da atuação física dos intérpretes – um toque de maestria com a marca de Brian De Palma.

A História

Como dito, De Palma usou uma experiência real com seu pai para um trecho no filme, mas isto era muito pouco. Na verdade, o grande responsável pelo o roteiro de Vestida para Matar foi o filme Parceiros da Noite, com Al Pacino, igualmente lançado em 1980. Ou melhor, para a origem de sua história. Explico: o roteiro de Parceiros da Noite é baseado no livro de Gerald Walker, jornalista do New York Times, que por sua vez teve como base os artigos reais do próprio repórter sobre bares gays de Nova York e a cultura do sadomasoquismo.

A trama de Parceiros da Noite, dirigido por William Friedkin (O Exorcista), fala sobre um assassino à solta na comunidade gay. Os artigos que serviram de inspiração para o livro e depois o filme, falavam justamente sobre clubes noturnos e pontos de encontro para homens, que tinham como único propósito o sexo, e os perigos que isso acarretava. Hoje em dia o fato parece comum, o famoso “ir para a cama na primeira noite”, mas para a época ainda era envolto em certa controvérsia. Assim, Walker tratou de apimentar a história com um assassino fazendo suas conquistas de vítima, e um oficial da polícia (Al Pacino) infiltrado neste cenário gay para descobrir e prender o psicopata.

De Palma havia adorado a história, mas não conseguiu os direitos para adaptá-la ao cinema. Assim, lapidou um tratamento que havia escrito e o transformou em Vestida para Matar. Em sua trama, ela troca a comunidade gay por um assunto bem mais complexo: o transexualismo. O filme apresenta uma história misteriosa e dona de uma temática muito à frente de seu tempo. Uma das propostas do longa era discutir a inserção dos transexuais na sociedade. E se ainda hoje o assunto é um enorme tabu, imagine num mundo que ainda estava aprendendo a lidar com a existência desta ideologia de gênero.

Assim como em Psicose, temos aqui também uma “falsa” protagonista. Kate Miller (Dickinson) é uma mulher insatisfeita no casamento, que possui constantes fantasias sexuais com outros homens. Um dia ela de fato a concretiza com um total estranho que conhece num museu. Somente para ser assassinada logo em seguida, assim como Janet Leigh no clássico citado. Ao invés da cena do chuveiro e uma faca, nossa vilã – uma loira alta misteriosa – usa uma navalha, e a morte de Kate ocorre num elevador, com testemunhas. Assim como Hitchcock fez, a pseudo-protagonista sai de cena antes da metade do filme, para outra personagem chegar em seguida, pegando a vaga deixada aberta.

A Vera Miles da vez é a personagem Liz Blake (Nancy Allen), uma prostituta de luxo que, ao presenciar o assassinato de Kate Miller, se torna a principal suspeita da polícia, alvo da verdadeira assassina e decide ajudar o jovem Peter Miller (Gordon), filho da vítima, a encontrar a culpada.

No meio de tudo temos o Doutor Robert Elliott (Caine), o psicólogo de Kate Miller (Dickinson), que igualmente ajuda a polícia na investigação, após ter desenvolvido afeto pela paciente, com suas informações privilegiadas sobre ela. Ou quase todas, já que ele vem recebendo em sua secretária eletrônica mensagens da real matadora, conhecida como Bobbi – na verdade, um de seus pacientes em busca da mudança de sexo.

Vestida para Matar desenvolveu status de cult ao longo dos anos, mas não se viu fora do radar de críticas severas da imprensa especializada em seu lançamento. Pudera, um filme de temática tão polêmica, ainda envolvendo assassinatos, se ficasse fora do turbilhão teria feito algo errado. Os críticos e os mais conservadores acusaram o longa de ser “sangrento, vulgar e misógino”, além de bem abaixo das produções de Hitchcock, o homenageado do cineasta. Curiosamente, o próprio Hitchcock vinha sendo intitulado desta forma pelos jornalistas da época, graças a produções como Frenesi (1972) e o próprio Psicose (1960).

Em especial a suposta misoginia implícita no filme foi muito atacada pelas feministas – já naquela época. O foco do argumento era a personagem Kate Miller, uma mulher insatisfeita em seu casamento, que busca uma relação extraconjugal e é punida com a morte. No lançamento do filme, a Organização Nacional das Mulheres (N.O.W.) providenciou um grande protesto contra o longa – o que terminou por aumentar significativamente a venda de ingressos da produção e contribui muito para o seu sucesso. O famoso falem mal, mas falem de mim.

Fora isso, De Palma e os produtores fizeram questão de enfatizar e deixar claro outro item possivelmente problemático para a “saúde” do filme. No discurso dos realizadores, o transgênero apresentado no filme possui problemas mentais, forte psicopatia e tendências homicidas, que vão muito além, e nada têm a ver com o fato de ser um transsexual. Pelo contrário. E para sustentar tal argumento, mostram inclusive, mesmo que rapidamente, um policial trans na TV debatendo de forma mais séria sua condição num programa – assim afirmando o desejo de pessoas transgênero em se sentirem normais e inseridas na sociedade da forma mais natural possível, apesar de terem nascido no corpo errado.

Vestida para Matar também faz referência a outras obras do diretor Brian De Palma, em especial Carrie – A Estranha (1976), já que começa com uma cena de nudez no chuveiro e termina com uma sequência de pesadelo.

Personagens e Atores:

Michael Caine | Doutor Robert Elliott

Para viver o personagem central do filme, que liga todos com a trama principal, foi escalado o tesouro mundial Sir Michael Caine. Na época com 47 anos, o ator já tinha em seu currículo duas indicações ao Oscar: ambas como protagonista por Alfie: Como Conquistar as Mulheres (1966) e Jogo Mortal (1972) – curiosamente, os dois filmes foram refilmados tendo Jude Law como protagonista.

O personagem de Caine é delicado e muito desafiador, mas o grande intérprete o encarou de peito aberto, realizando outro ótimo trabalho. E o astro foi só elogios ao seu diretor, no entanto, afirmando que De Palma se manteve praticamente sem emoções em relação aos seus atores durante as filmagens deste longa.

Porém, Caine não foi a primeira escolha para o papel. Outro britânico com título de Sir, Sean Connery (o eterno 007), era quem De Palma tinha em mente ao escrever o filme. Já imaginou? E Connery, aparentemente, gostou muito do roteiro e do personagem, só não o encarnando por conflitos de agenda. Sete anos depois, Connery e De Palma finalmente trabalhariam juntos em Os Intocáveis, que rendeu ao ator um Oscar de coadjuvante.

Angie Dickinson | Kate Miller

A protagonista que não é protagonista foi vivida por Angie Dickinson, muito famosa na época devido ao seriado Police Woman (1974-1978), que mostrava de forma nua e crua para o período as desventuras de uma mulher policial. Mas a atriz igualmente não foi a primeira opção do diretor para sua personagem. De Palma escreveu o roteiro pensando na sueca Liv Ullmann, usual colaboradora do cineasta Ingmar Bergman, indicada a dois Oscar. Ullmann recusou a oferta devido ao alto nível de violência e pelo fato de que tinha uma filha pequena na época.

Dickinson é vencedora de dois Globos de Ouro, e após o lançamento de Vestida para Matar (1980) grande parte dos críticos frisaram a injustiça de sua atuação não ter sido lembrada na época de premiações. O desempenho da atriz agradou em cheio os especialistas, mesmo com um tempo de aparição em tela reduzido, de apenas 30 minutos em cena. A atriz também relevou que de todos os trabalhos que fez, Vestida para Matar foi seu filme favorito.

Nancy Allen | Liz Blake

Sabe a velha história do nepotismo/favoritismo? Pois bem, podemos dizer que a atriz Nancy Allen só ganhou os holofotes aqui porque na época era a esposa do diretor Brian De Palma. A primeira parceria da dupla foi em Carrie – A Estranha (1976) e logo no trabalho seguinte, Terapia de Doidos (1979), os dois já estavam casados. Eles ainda fariam mais um filme juntos, o igualmente cultuado Um Tiro na Noite (1981).

Vestida para Matar foi um dos primeiros papeis de destaque de Allen no cinema, o qual o maridão escreveu especialmente para ela. Por outro lado, o produtor Ray Stark (Annie, 1982) forçava a atriz Suzanne Somers para o papel da garota de programa Liz, mas De Palma bateu o pé, e assim Stark terminou deixando o projeto.

Ao contrário de Dickinson, os críticos foram cruéis com Allen e seu retrato da esperta acompanhante, cujo subtexto demonstrava um excelente tino comercial para os negócios e negociações. Realmente basta uma segunda olhada em Vestida para Matar para perceber que Allen ainda estava um tanto “verde” para segurar um papel desta importância. Resultado: ela foi indicada ao Framboesa de Ouro como pior atriz do ano. Mas não foi só, Allen teve a companhia do marido De Palma como pior diretor também. Como consolação, a atriz igualmente foi indicada no Globo de Ouro, na extinta categoria de “nova estrela do ano no cinema” – será que a categoria foi inventada e comprada por De Palma para incluir a esposa? (risos).

Depois do divórcio com o diretor em 1984, Nancy Allen interpretaria seu personagem mais famoso no cinema, a policial Anne Lewis, parceira do protagonista em Robocop – O Policial do Futuro (1987), de Paul Verhoeven, e suas duas continuações (1990 e 1993).

Keith Gordon | Peter Miller

O filho da principal vítima no filme caiu no colo de Keith Gordon, famoso jovem ator dos anos 1980 – que hoje se tornou diretor. Outra semelhança com Psicose aqui – ou uma subversão -, é que temos uma mãe e seu filho no centro da trama. Enquanto em Psicose eles são os vilões, aqui eles são os heróis. E a história ainda conta com um homem se vestindo de mulher, assassinatos, troca de protagonistas e uma explicação de um psicólogo ao final. Todos elementos tirados do citado clássico de Hitchcock e homenageados aqui.

Gordon, no entanto, assim como a maioria do elenco principal, por pouco não viveu o personagem. Novamente se deixando levar pelo nepotismo, De Palma queria o sobrinho Cameron no papel. Gordon, um nome promissor na época, terminou com a vaga.

Dentre os filmes famosos de Keith Gordon no período estão Tubarão 2 (1978), All That Jazz – O Show Deve Continuar (1979), Christine – O Carro Assassino (1983), A Lenda de Billie Jean (1985) e De Volta às Aulas (1986). Como diretor, Gordon esteve no comando de episódios de séries como Dexter, The Killing, Fargo, Better Call Saul, The Leftovers e Homeland.

Em resumo, este ano é a oportunidade perfeita para quem não viu este novo clássico do cinema, conhece-lo. E para os fãs revisitarem este lendário suspense de um verdadeiro mestre do cinema.

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