Quem cresceu nos anos 80 não consegue esquecer jamais essa época. Era o retrato da liberdade analógica, onde as relações não se davam através de telas. Tudo tinha o seu encanto. Porém, era também uma época politicamente incorreta. E bem, até os defensores deste período sabem que nem tudo era mimimi e que muitas coisas eram simplesmente muito erradas. Isso se reflete nas produções cinematográficas do período. Os anos 80 nos deram verdadeiras pérolas irretocáveis do cinema, alguns dos filmes preferidos de muita gente ainda. Não por menos a Hollywood atual cisma em revisitar essa nostalgia, seja reciclando títulos antigos ou homenageando o espírito da época em produções atuais (‘Stranger Things’ é um bom exemplo disso).
Mesmo em clássicos queridos temos momentos que soam amargos vistos com os olhos de hoje. Em ‘O Império Contra-Ataca’ (1980), por exemplo, os irmãos Luke e Leia se beijam de forma sensual por ainda não saberem que são irmãos. Para que, não é mesmo? E em ‘De Volta para o Futuro’ (1985), Lorraine fica apaixonada pelo próprio filho Marty (sem saber) e também o beija. É exagero pensar que isso é muito errado?
Mas essas nem de perto são as piores ideias que Hollywood teve nos anos 80. Abaixo traremos alguns filmes que seriam cancelados hoje em dia por suas premissas, soluções ou personagens muito equivocados. Confira.
Quero ser Grande

Uma das comédias mais queridas dos anos 80, ‘Quero ser Grande’ foi sucesso de bilheteria, passou até não querer mais na TV aberta, foi escrito pela irmã de Steven Spielberg e, acredite, foi indicado para dois Oscar: melhor ator Tom Hanks e outro justamente para o roteiro original. A história mostra um garoto de 13 anos tendo seu desejo de se tornar adulto realizado através de um passe de mágica (e um brinquedo de parque encantado). Assim ele assume as formas de Tom Hanks, um homem de 30 anos. O longa é parte de uma tendência que vigorava forte na década, as comédias sobre trocas de corpos – em sua maioria envolvendo um adulto e uma criança ou adolescente. ‘Tal Pai, Tal Filho’ (1987), ‘Vice-Versa’ (1988) e ‘Um Pedido Especial’ (1988) são alguns dos exemplares do gênero. Mas nenhum seria mais importante ou bem-sucedido que ‘Quero Ser Grande’ – lançado no mesmo ano de 1988.
Até aí tudo bem. O filme segue como uma comédia leve e farsesca, abordando todos os imbróglios de se ter um adolescente em um corpo de adulto. Ele arruma emprego em uma empresa fabricante de brinquedos, propiciamente, e seu trabalho é justamente testar tais produtos e dar sua avaliação. Ninguém melhor do que uma criança para dizer quais brinquedos funcionam ou não. Porém, o fator completamente desconcertante do filme se dá na relação que o roteiro resolve criar para o rapaz. Algo totalmente deslocado do resto do filme, mas parte da mentalidade de que toda história precisava de um romance de um casal.
Assim, o menino se envolve com uma colega de trabalho, papel de Elizabeth Perkins. Para ela, eles possuem a mesma idade. Mas o espectador sabe se tratar de um menino de 13 anos se relacionando com uma mulher adulta. E eles vão às vias de fato e passam uma noite juntos, o que se enquadraria como abuso e estupro de menor. Mas o filme não dá a mínima para isso e trata tudo de forma solene. Hoje, fica aquele sabor amargo, uma subtrama que poderia ser facilmente eliminada, ou podada para uma relação de amizade apenas.
A Vingança dos Nerds

Clássico da Sessão da Tarde, ‘A Vingança dos Nerds’ mostra um grupo de universitários deslocados socialmente, que se tornam alvo dos valentões do campus. A moral aqui é a volta por cima que esses “perdedores” dão, com a mensagem de aceitação do diferente. Mas e qual é a vingança aplicada por estes nerds, você pergunta? É aí que está a parte que envelheceu muito mal. Os heróis do filme invadem o dormitório feminino da faculdade (tendo como a maioria das residentes as namoradas de tais valentões) e simplesmente escondem câmeras para filmar estas jovens nuas. E tem mais, o protagonista se disfarça como o namorado de uma delas para poder transar com ela. Na época, tudo isso foi visto como uma vitória para os “humilhados”, porém, hoje podemos perceber que a emenda saiu pior que o soneto, sem ter como torcermos para os protagonistas – que cometem atos ainda mais hediondos.
O Incrível Robô

Se você cresceu nos anos 80 e 90, certamente lembra do robô Johnny 5. Ele é um destes personagens artificiais que só de batermos o olho, automaticamente já lembramos ter visto antes, mesmo que não saibamos exatamente em qual filme, ou sequer o título. Aliás, este é um dos casos no qual a continuação, ‘Um Robô em Curto-Circuito’, ficou ainda mais famosa que o original, graças às exibições na Globo. E o que pode ter de tão ruim em um filme sobre um robozinho boa-praça que é a representação da Inteligência artificial nos 80? Bem, com o robô em si nada e nem sequer com a personagem humana principal (papel de Ally Sheedy, de ‘Clube dos Cinco’).
Aliás, Steve Guttenberg, o eterno Mahoney de ‘Loucademia de Polícia’ também está no filme. O problema aqui é com um personagem secundário, Ben Jabituya, um cientista indiano que ajudou a desenvolver o projeto do robô. Até aí tudo bem, o problema é que este cientista indiano foi interpretado pelo americano sem qualquer descendência indiana Fisher Stevens. E sim, você acertou, para o papel ele teve sua pele pintada e escurecida – utilizando a prática deplorável do black face (ou nesse caso seu primo igualmente ofensivo “brown face”). Além do físico, Stevens também usou maneirismos e comportamento considerados ofensivos ao imitar o estereótipo indiano. Na época o personagem fez tanto sucesso que viria a se tornar o protagonista da continuação. Mas hoje, é difícil de engolir, e até mesmo o próprio intérprete se diz envergonhado do trabalho.
Uma Mistura Especial

No cinema e em qualquer mídia que envolva o gênero da ficção científica, um sujeito comum ao ser exposto a produtos químicos das mais variadas espécies não vem a óbito e sim ganha superpoderes. No Brasil, pessoas foram envenenadas com metanol nas bebidas alcoólicas, mas se isso fosse parte de alguma trama de ficção científica, certamente o desfecho seria outro. É o caso com essa comédia adolescente, na qual o nerd Barney (Scott Baio), que vive sofrendo bullying, desenvolve poderes telecinéticos após um acidente em um laboratório no colégio. E o que ele faz com este novo dom? Certamente não sai por aí combatendo o crime. A opção deste jovem é se vingar de todas as meninas que o maltrataram as expondo ao ridículo. E isso envolve despi-las constantemente em público. E é isso que ele faz durante todo a projeção do filme. O longa se resume ao rapaz tirando a roupa das estudantes com a força de sua mente. Seja levantando saias, ou abrindo blusas. Parece enredo de filme pornô, mas é apenas uma comédia juvenil dos anos 80.
Gatinhas e Gatões

Finalizando a matéria, temos um verdadeiro ícone que marcou época e as reprises na Sessão da Tarde dos anos 80 e 90. Na época, é claro, talvez ninguém tenha reparado o quão errado era o comportamento do “galã” do filme, objeto de afeto da protagonista. ‘Gatinhas e Gatões’ fez parte da onda de filmes adolescentes do mestre John Hughes, que marcaram aquela geração. Neste pacote, tínhamos obras como ‘Curtindo a Vida Adoidado’, ‘Clube dos Cinco’ e ‘Mulher Nota Mil’, além de longas que apenas atuou como produtor, vide ‘A Garota de Rosa-Shocking’ e ‘Alguém Muito Especial’. Porém, ‘Gatinhas e Gatões’ foi onde tudo começou. O filme descobriu a musa da época, a ruivinha Molly Ringwald – e quem viveu o período jamais a esquecerá.
No longa Ringwald vive Samantha, uma adolescente que está completando 16 aninhos. Para o seu desespero, no entanto, ninguém de sua grande família lembra de seu aniversário, já que estão todos focados no casamento da irmã mais velha. Para piorar, o bonitão do colégio não lhe dá a mínima, e o nerd de plantão está apaixonado por ela. Só por esta dinâmica percebemos quanto o longa está datado. Mas fica pior. Isso porque o tal bonitão tem namorada. A relação dos dois, no entanto, não está na melhor fase. Na verdade, o sujeito está preso na relação sem saber como sair.
Sua namorada é uma festeira inveterada, que bebe demais, e ele é um rapaz sério. Assim, como forma de trocar a loira pela ruiva, o “príncipe encantado” resolve abrir para outro quando sua namorada está desacordada após ter bebido muito. Essa é a cena que envelheceu muito mal no filme e mostra um estupro como algo divertido em um filme de comédia adolescente. Jake, o tal galã, simplesmente oferece sua namorada desacordada para outro, como forma de dispensá-la e poder finalmente consumar a relação com a protagonista Molly Ringwald. Caraca!
