Há casos muito famosos de séries que não vão bem nos EUA, mas acabam estourando aqui no Brasil. Todo Mundo Odeia o Chris, que fez 15 anos em 2020, e Eu, a Patroa e as Crianças são dois exemplos clássicos disso. Enquanto a série baseada na infância de Chris Rock teve um desempenho morno lá fora, a história dos Kyle fez feio e foi encerrada antes da hora. No entanto, se dependesse do público brasileiro, ela teria durado bem mais.

Arnold fez sucesso no SBT no início dos anos 2010, mesmo sendo um clássico dos anos 1980, nos EUA.

Ao mesmo tempo em que outras séries de comédia sobre famílias negras, como Um Maluco no Pedaço e Kenan & Kel, fazem muito sucesso aqui, séries com a mesma temática, mas protagonizada por famílias brancas, como Os Goldbergs, não costumam estourar por aqui. Além da exibição delas na TV aberta, coisa que só acontece pelas séries serem abraçadas pela audiência, isso é um indicativo de duas coisas: representatividade e identificação.

Kenan & Kel trazia a aventura de dois amigos, mas sempre envolvia a família de Kenan nas tramas.

Como assim?

Bom, respondendo à questão da representatividade, é bem simples de entender. De acordo com dados de 2019 recolhidos pelo IBGE, 56,10% da população brasileira se declara negra. Inversamente proporcional a esse número, somos bombardeados com elencos majoritariamente brancos em filmes, séries e novela. Então, séries com atores negros ocupando papéis de protagonista causam maior identificação. Além disso, grande parte dessas séries – com exceção de Todo Mundo Odeia o Chris, que fala de uma família humilde – traz pessoas negras em posição de destaque, com carreiras bem-sucedidas ou habitando a classe média. Em um país no qual 75,5% das vítimas de homicídios – dados retirados do Ministério da Saúde – e 75% dos brasileiros em estado de extrema pobreza – dados do IBGE – são pessoas de pele negra, você ter uma família que ascendeu social e economicamente sendo retratada em tela é uma forma de passar uma mensagem, uma inspiração para muita gente.

Os Kyle são uma família bem-sucedida nos negócios e na vida.

Além disso, tem um ponto narrativo que ajuda muito na identificação geral, que é o pé no chão. Mesmo as séries que forçam um pouco mais nas situações absurdas, as tramas partem sempre de um problema cotidiano, como receber uma multa, brigar na escola, matar aula, problemas no emprego, ter um primeiro encontro… Enfim, essas séries protagonizadas por famílias negras podem até descambar para uma situação surreal, mas sempre começa em algo simples e mundano, que qualquer pessoa no planeta já viveu. Enquanto isso, as séries protagonizadas por famílias brancas, como Os Goldbergs e até mesmo Drake & Josh, que foi um sucesso, envolvem situações como invadir um estúdio de TV, devolver um orangotango sequestrado, entrar em guerra com o vizinho de cinco anos… Umas bizarrices que podem até funcionar, mas que acabam perdendo esse núcleo familiar e até mesmo humano. Eu lembro nitidamente do meu professor de sociologia da escola – um homem branco – dizendo que ele gostava de Todo Mundo Odeia o Chris por conseguir enxergar momentos bons e ruins da infância dele sendo representados em tela.

Aproveite para assistir:

A infância humilde de Chris Rock rendeu momentos tensos e divertidos em Todo Mundo Odeia o Chris.

Como se não fosse o bastante, as séries de famílias negras trazem à tona momentos de reflexão social, abordando assuntos como o racismo, a desigualdade, o bullying e problemas comuns a todos de forma que não parece forçado. Eles mostram situações que acontecem diariamente nesse país e no mundo. Dessa forma, a identificação é praticamente imediata. Enquanto isso, as séries com famílias brancas ficam se abraçando ao nonsense ou trazendo problemas comuns apenas aos norte-americanos.

Os Banks são um sucesso até hoje dada a atualidade dos temas abordados.

 

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